Na sequência do desaparecimento de Hugo “Vicky” Marques, ocorrido no passado dia 23 de julho de 2026, recuperamos uma entrevista publicada pela Arte Sonora em 2010.
Na altura, o mote para a conversa com o Vicky foi o lançamento do seu primeiro DVD didáctico “Elementos”, mas o resultado foi um retrato abrangente de um dos bateristas mais talentosos e influentes da sua geração.
Ao longo da entrevista, Vicky falou sobre a sua abordagem ao instrumento, a convivência natural entre projetos acústicos e elétricos e a importância da espontaneidade na construção da sua identidade musical. Mais do que uma conversa sobre técnica, este é um testemunho da visão artística, da personalidade e do pensamento de um músico que deixou uma marca profunda na música portuguesa.
Recordamos hoje essas palavras como homenagem a um artista cuja obra e legado continuarão a inspirar músicos e ouvintes.
O que é que tu vês no instrumento e que outro tipo de bateristas é que aprecias a nível nacional e internacional? Que características é que têm de ter para te chamar a atenção?
Uma grande atitude… essa é, para mim, a grande característica. Não é tentar impor nada, mas algo que se faz notar naturalmente pela musicalidade e abordagem, tanto física como mental, o que transmitem a tocar. O Manuel Costa Reis chamou-me a atenção num concerto do Rui Veloso no Coliseu do Porto – ainda antes do “Mingos e Samurais” – com uma atitude “internacional” a tocar numa bateria grande, pratos no alto, uma atitude física e um à-vontade físico incríveis. Aquela foi a primeira vez que um baterista português me captou a atenção à séria, vi aquele concerto vezes sem conta… o tipo de desenhos que fazia, o tipo de ritmos, a forma como os abordava… ele já tocava com ghost notes, com uma abordagem meio fusão. Eu estava habituado a ver bateristas estrangeiros, o Dave Weckl, o Phil Collins, o Dennis Chambers mais tarde, o Billy Cobham… O Manuel Costa Reis, para mim, estava ao mesmo nível. Acabei por ter aulas com ele depois.
E mais nomes nacionais que te chamem a atenção.
Acho muito bom o Carlos Miguel, que está agora [2010] a tocar com o Rui Veloso. Um baterista de que sempre gostei muito é o Alexandre Frazão – está cá há muitos anos e considera-se praticamente português. O Zé Salgueiro sempre foi uma inspiração enorme, é uma força da natureza, não toca duas vezes igual… não é porque não consiga, faz parte da sua maneira de tocar. O que acaba por acontecer é que, cada vez que o vais ver tocar, aquilo é diferente e é, mais uma vez, uma explosão de espontaneidade, é incrível. Outro baterista que adoro e considero o grande impulsionador da linguagem percussiva popular do Fausto, o grande transformador do que se toca nas terras, nos tambores, para a bateria mais moderna, é o André Sousa Machado. É fantástico!
Quando estás num concerto, consegues estar na envolvência da música ou estás sempre dirigido para a bateria?
Eu acho que consigo estar 50% para cada lado. A partir do momento em que és músico, deixas de ouvir as músicas sem sentido crítico. Não é que quando eu estou a ouvir música esteja preocupado em estar a apontar o dedo – não sou nada desse estilo – mas é impossível ter uma visão de ouvinte normal, passa-se a ter uma visão de músico e acabou. Esforço-me muitas vezes por ouvir música do nada, mas quase não consigo. Quando leio tento ouvir música e, das duas uma, ou tenho de parar de ler ou então estou a ler e tenho de repetir o que estava a ler porque me fixei na música.
Fala-me da criação do DVD.
É simples: foi-me feito o convite pela Maria João Ferreira e pelo Pedro Salvado, da Dread Monkey, a empresa que fez a realização e a edição do DVD, talvez um ano antes de ser gravado. Fomos planeando as coisas, eu estava a começar a fazer workshops com mais regularidade, preparei uma série de material para isso e, ao mesmo tempo, comecei a pensar o que também seria importante passar no DVD.
Qual é a tua principal preocupação num workshop ou no DVD?
Passar conceitos. É porque uma coisa é aprender a saber tocar um paradiddle, hoje em dia, vão ao YouTube e têm milhares de vídeos a dizer como é que se toca; outra coisa é uma pessoa tocar um paradiddle à sua maneira. É através dos conceitos que depois se consegue transformar aquilo que já se sabe. Falo do conceito do círculo cósmico, por exemplo, que é desenhar um círculo, dividir as notas em espaços iguais, espalhá-las pelo círculo e, em vez de começar o paradiddle pela forma normal, começar no outro ponto do círculo. No entanto, é um paradiddle na mesma, só que a articulação das notas mudou completamente, ou seja, partimos da fórmula fundamental para outra coisa completamente em relação ao timbre, rítmicas, ao contexto musical em que se está…
E tu vais aplicando esses conceitos na prática, na demonstração do DVD?
Sim. Faço também vários exercícios – uns técnicos, outros mais musicais porque acho que as duas formas devem ser estudadas, não são capazes de viver uma sem a outra. Depois falo na parte conceptual dos ostinatos e de solar, também dos desdobramentos que faço no kit de percussão, as aplicações musicais que tenho de algumas técnicas, por exemplo. Acima de tudo, tento explicar de onde parti e onde cheguei com aquilo para se tentar perceber o raciocínio que tive. Saberes que aquele é um caminho, mas há outros.
Tento explicar de onde parti e onde cheguei com aquilo para se tentar perceber o raciocínio que tive. Saberes que aquele é um caminho, mas há outros.
É importante passar esse conceito de que não é um DVD de instrução pura. Esse conceito é fácil de passar? Sai do que é costume dos lançamentos de DVD’s…
Depende dos músicos. Lembro-me de ver – obviamente que não me estou a comparar – o DVD do Terry Bozzio, possivelmente pouco depois de ter tocado com os ABBA e nota-se perfeitamente o que é que já lhe ia na cabeça, na altura, e consegue perceber-se o desenvolvimento dele. Falava muito de técnicas e só pelo facto de ele explicar aplicar alguns solos e explicar como os fazia já passava para uma componente mais conceptual também. Por exemplo, ele explica que a ideia que teve dos ostinatos vem do Stravinsky – que usa muito isso, tem ostinatos de percussão e dos baixos, principalmente das zonas tímbricas baixas de orquestra enquanto estão a acontecer coisas loucas no resto dos instrumentos… existe um contraste enorme entre o ostinato e o que a orquestra está a fazer em que o ostinato é uma espécie de riff de guitarra que nós usamos, hoje em dia, no rock. Acho que faço um pouco a mesma coisa, no sentido em que explico muito a técnica, mas primeiro dou o conceito. Acho que acaba por não ser complicado e as pessoas têm a parte componente técnica também.