Os sinais estão à vista há demasiado tempo para poderem ser ignorados. Em eventos de grande dimensão em Portugal, a repetição de falhas na organização, na gestão de fluxos e nas condições oferecidas ao público tornou-se demasiado frequente para ser tratada como exceção. Quando os alertas se acumulam e nada muda de forma estrutural, o problema deixa de ser pontual. Passa a ser um risco anunciado.
Há muito que os sinais estão à vista de todos. Em Portugal, seja em festivais de música, concertos em salas fechadas, eventos desportivos ou grandes celebrações ao ar livre, cresce uma tendência preocupante: o desrespeito pelo público que paga para estar presente.
A procura por maximizar receitas parece ter ultrapassado, em demasiadas ocasiões, o bom senso. Recintos sobrelotados, filas intermináveis para entrar, dificuldades de circulação, falta de acessos de emergencia, acessos insuficientes, zonas de restauração incapazes de responder à afluência e condições que comprometem o conforto e, em alguns casos, a própria segurança dos espectadores tornaram-se uma realidade demasiado frequente.
Durante décadas repetiu-se em Portugal a ideia de que “o povo é sereno”. Essa perceção, verdadeira em muitos contextos, pode até ajudar a explicar porque é que, apesar de multidões constantes em festivais, concertos e eventos desportivos, ainda não se registaram tragédias de grande escala. E ainda bem. Mas seria ingénuo ficar por aí.
Não é apenas serenidade. É também sorte. Muita sorte.
Sorte por, até hoje, não se terem alinhado todos os fatores de risco que tantas vezes se repetem em eventos de grande dimensão. Recintos sobrelotados, acessos congestionados, filas intermináveis, dificuldades de circulação e condições que, em vários momentos, colocam em causa o conforto e a segurança do público tornam esta realidade demasiado frágil para ser ignorada. Há necessidades básicas de um ser humano que são bloqueadas: comer, beber e ir à casa de banho.
Sorte por, até hoje, não se terem alinhado todos os fatores de risco que tantas vezes se repetem em eventos de grande dimensão. Recintos sobrelotados, acessos congestionados, filas intermináveis, dificuldades de circulação e condições que, em vários momentos, colocam em causa o conforto e a segurança do público tornam esta realidade demasiado frágil para ser ignorada.
Quem compra um bilhete não está apenas a pagar por um espetáculo. Está a confiar que existirá uma organização capaz de garantir condições mínimas de segurança e dignidade. No entanto, multiplicam-se os relatos de experiências marcadas por desorganização, espera excessiva e espaços que ultrapassam claramente a capacidade confortável ou recomendável.
O problema não é novo. Ano após ano repetem-se as mesmas críticas, ano após ano surgem as mesmas promessas de melhoria, e ano após ano continuam a verificar-se situações que mostram que, em demasiados casos, a pressão para vender mais bilhetes se sobrepõe ao planeamento e à responsabilidade.
A segurança não se mede apenas pelos acidentes que aconteceram, mede-se sobretudo pelos que poderiam ter sido evitadls. E a história mostra que as grandes tragédias raramente surgem sem aviso. Antes delas, quase sempre existem sinais, alertas e pequenos incidentes que são desvalorizados.
E quando uma tragédia acontece, o padrão repete-se. Multiplicam-se horas de comentários televisivos, especialistas de diferentes áreas surgem a explicar o que deveria ter sido feito, analisa-se em detalhe tudo o que falhou, e constrói-se uma narrativa retrospetiva de soluções óbvias que já não chegam a tempo de evitar o dano. Mas depois da tragédia ter ocorrido, não precisamos de mais espetáculos mediáticos de explicação tardia. Precisamos de outra coisa, ações concretas de prevenção, fiscalização eficaz e decisões que evitem que a próxima vez tenha de ser discutida em estúdio.
Todos temos alguma noção de que gerir multidões é uma tarefa árdua. Portugal tem profissionais competentes na organização de eventos e muitos exemplos de excelência, mas isso não deve servir de conforto. Deve servir de exigência. Porque quando um sistema começa a depender mais do comportamento do público e da sua tolerância do que da própria estrutura organizativa, entra-se num território perigoso.
Enquanto a lotação for tratada como um objetivo comercial e não como um limite de segurança, enquanto a sobrelotação e a falta de condições for vista como exceção e não como risco, e enquanto a sorte continuar a substituir a prevenção, a pergunta mantém-se inevitável. Não é se algo pode correr mal. É quando.