A celebrar 35 anos do clássico “Painkiller”, os lendários Judas Priest regressaram a Portugal para demonstrar que, apesar da idade, o seu heavy metal ainda consegue ser feroz e autêntico. Rob Halford, com os seus quase 74 anos, continua a “gritar por vingança” e demonstrou que nem todas as rockstars, perdão, metal gods, que já entraram na terceira idade são “estrelas decadentes”.
Quando, em 1990, os Judas Priest lançaram “Painkiller”, foram muitos os fãs que viram neste trabalho um regresso à sua melhor forma. Com “Turbo” (1986) e “Ram It Down” (1988) a não caírem no goto dos headbangers, devido à apropriação da cultura sonora e estética do glam metal, os Priest tiveram que se reinventar na entrada dos anos 90 para recuperar o interesse dos fãs de longa data. O uso de novas sonoridades mais eletrónicas e a escrita de letras com temáticas associadas ao amor foi o grande entrave para muitos metaleiros fiéis à sonoridade clássica da banda.
A solução passou então pela contratação de Scott Travis, que veio substituir o baterista de longa data Dave Holland. Reconhecido pelo uso do pedal duplo, Travis injetou nos Judas Priest um novo vigor que os levou a experimentar os caminhos do speed metal, subgénero que é nada mais nada menos que heavy metal clássico mas tocado mais rápido. Temas como “Painkiller”, “Hell Patrol” e “All Guns Blazing” recuperaram assim a confiança dos fãs com a sua carga agressiva e um Rob Halford endiabrado nos berros agudos, algo que se tornaria na sua imagem de marca.
Passados trinta e cinco anos, “Painkiller” demonstra ter sobrevivido ao teste do tempo ao entrar sempre na discussão do melhor álbum da banda, geralmente entre o “British Steel” (1980) e o “Screaming for Vengeance” (1982). Desta forma, a celebração era então inevitável, com os Judas Priest a partirem para a estrada nesta tour de festivais para apresentar um set focado nesse álbum.
Sempre cientes de que estamos assistir a uma banda mais do que veterana e sem saber se este terá sido o seu último concerto em Portugal, encarámos esta performance com ouvidos bem abertos e sem aquela crítica maldosa na ponta da língua. Ainda na ressaca do concerto dos Guns N’ Roses em Coimbra e das críticas agressivas ao estado da voz de Axl Rose, seria fácil apontar o dedo a Rob Halford, que é dez anos mais velho que Rose, mas verdade seja dita, ninguém teve ponta por onde pegar em relação à voz e à presença em palco do Metal God.
Prova disso foi o arranque com “All Guns Blazing”, com Halford a iniciar a música com os seus agudos perfurantes. “Hell Patrol” continuou com esses vocais afiados e confirmou o estatuto de destaque de “Painkiller”.
Olhando para o palco vemos dois elementos da formação clássica dos Priest, Halford e o baixista Ian Hill, mas é Richie Faulkner que, a seguir ao Metal God, parece roubar mais a atenção. O shredder britânico está de volta à sua melhor forma após ter passado por um aneurisma da aorta em pleno palco em 2021 e consequentemente por uma cirurgia de dez horas e meia ao coração. Rejuvenescido, o músico apresentou-se agora ainda mais sedento para executar o solos de K.K. Downing, mas também os seus, com um brio imaculado, enquanto esboçava sorrisos de agradecimento por ter tido mais uma oportunidade para fazer o que mais gosta. As “armas” que utilizou ao longo do concerto foram a Gibson Richie Faulkner Signature Explorer (ainda protótipo), a Gibson Richie Faulkner Signature Flying V, uma Gibson Explorer Custom de 2017 e uma Gibson Les Paul Standard 50s em Ocean Blue
Numa setlist onde quase todas as malhas são clássicos, há umas que sobressaem pelo impacto que tiveram na carreira da banda, mas também na formação dos fãs enquanto jovens headbangers. “You’ve Got Another Thing Comin'” e “Breaking The Law” são dois desses exemplos. Halford, ciente disso, procura partilhar as funções de vocalista com o público passando-lhes o microfone em momentos chave da música como o refrão e a ponte. São refrões repetitivos, sem muito para decorar, mas, entoá-los ao vivo em uníssono enquanto abanamos a cabeça é algo indescritível.
Riffs poderosos, solos ainda mais afiados e a voz robusta de Halford mostram que a banda está a passar por uma das melhores fases da carreira.
Já “Freewheel Burning” trouxe uma agradável passagem por “Defenders of the Faith” (1984), se bem que teríamos mais gostado de ouvir uma “The Sentinel”. Já de volta a “Painkiller”, “A Touch of Evil” e “Night Crawler” evidenciaram as qualidades de Andy Sneap nos riffs de Glenn Tipton. O músico e produtor, que atua como guitarrista de tour, tem sido uma ajuda imprescindível para esta fase ao vivo pós-Tipton, afastado dos palcos desde 2018 devido ao diagnóstico de Parkinson. Com uma presença segura mas discreta, tal como Ian Hill, Sneap executou todos os riffs com intenção na sua Jackson King V e Hammer Standard Explorer.
À semelhança da passagem por “Defenders of the Faith”, também o aceno a “Point of Entry” (1981) foi breve com apenas “Solar Angels” a fazer-se ouvir. Álbum não tão cotado como os seus sucessores, este foi o momento para colocar alguma água na fervura. O deep cut não foi reconhecido por todos e fez com que os ânimos baixassem de intensidade por momentos. Mas não por muito tempo.
Além da celebração do 35º aniversário de “Painkiller”, os Priest também trouxeram na bagagem o seu 19º álbum, intitulado “Invincible Shield” (2024). E se “Firepower” (2018) tinha sido um petardo aquando do seu lançamento, este não ficou nada atrás. Riffs poderosos, solos ainda mais afiados e a voz robusta de Halford mostram que a banda está a passar por uma das melhores fases da carreira. “Gates of Hell”, “The Serpent and the King” e “Giants in the Sky”, esta última uma homenagem aos músicos já falecidos, entrosaram-se bem com os clássicos de longa data. Aliás, a segunda facilmente passava despercebida entre duas malhas do “Painkiller”, tal é a influência que este álbum tem tido nos últimos lançamentos da banda.
Antes de chegarmos aos últimos “100m” do concerto “One Shot at Glory” e “Between the Hammer and the Anvil” invocaram a qualidade do lado b de “Painkiller”, antes da faixa título ecoar até ao rio Tejo. Sem a apresentação habitual a cargo do baterista Scott Travis, em que este pergunta que música é que o público quer ouvir, a malha foi antecedida por uma projeção audiovisual que culminou naquela intro de bateria icónica. Quase a atingir a marca de 1h30 de concerto, Halford não mostrou qualquer tipo de sinal de cansaço vocal. Algo de louvar, principalmente quando estamos a falar de um set que não tem pausas para um solo de guitarra ou de bateria, muitas vezes uma estratégia utilizada para o vocalista respirar e descansar um pouco.
“The Hellion” a tocar na aparelhagem resultou num pequeno encore para o regresso na forma de “Electric Eye”. Mas, por esta altura já todos esperavam por um dos momentos mais icónicos dos concertos de Judas Priest, a entrada de Halford na sua Harley Davidson pelo palco a dentro com o seu traje de cabedal dos pés à cabeça, boné à polícia dos Village People e chibata numa das mãos. Em mês do orgulho LGBTQ+ todos estes elementos ganham uma carga simbólica ainda mais forte, pois vale a pena recordar que foi Halford que trouxe a cultura do cabedal, associada à comunidade gay, para o mundo do heavy metal. Naturalmente que o que se ouviu de seguida foi “Hell Bent for Leather”, antes do hino “Living After Midnight” encerrar o concerto com um coro de vozes a entoar o refrão em celebração para com uma banda que já ultrapassa os 50 anos de carreira.
Se esta foi, efetivamente, a última vez que vimos os Judas Priest em Portugal? Não sabemos, mas se assim for, as memórias que ficam são as de uma despedia pela porta grande.















































