Com um Estádio do Restelo muito mais composto face ao primeiro dia, os Korn deram um concerto irrepreensível onde não faltou um jogo de luzes imponente, um desfile de clássicos, alguns deep cuts e moshpits por todos os lados.
Para alguns, certamente que ainda está na memória aquela fatídica noite de Maio de 2016 quando, após três tentativas, os Korn tiveram que dar por terminado o concerto no Rock in Rio Lisboa devido a problemas técnicos. Entretanto, as pazes foram feitas no Campo Pequeno, em 2017, com a banda a assinar uma prestação soberba em forma de pedido de desculpas para com todos os fãs portugueses.
De lá para cá já passaram quase dez anos. Muito pode mudar na carreira de uma banda, para melhor ou pior, e no caso dos Korn podemos dizer que tiveram um pouco dos dois. Os anos 2020s trouxeram uma fornada renovada de fãs, a tal geração tik tok que também descobriu outras bandas do movimento nu metal/metal alternativo, como Slipknot, Deftones e System of a Down, através da rede social. Agora, os concertos da banda além de terem uma maior procura, mostram um público multigeracional. Porém, os 2020s também trouxeram alguns dissabores no seio da banda. Após a saída do guitarrista Brian “Head” Welch em 2005 (entretanto já regressou à banda em 2013), agora foi a vez do baixista de sempre, Reginald “Fieldy” Arvizu , sair num hiato indeterminado em 2021. Mas, como estamos a falar de uma banda que nunca baixa os braços, os Korn recrutaram prontamente para o seu lugar a pessoa certa, o também latino Ra Díaz, ex-Suicidal Tendencies.
No panorama discográfico “Requiem” (2022) já lá vai, apesar de nunca ter sido apresentado em Portugal, e os Korn encontram-se neste momento a preparar o seu sucessor. Portanto, aquilo a que tivemos direito foi a uma setlist em formato best-of com alguns deep cuts à mistura.
O início não há como ser de outra forma. Quando se tem uma música como “Blind” no repertório, não há como relegá-la para outro lugar da setlist. Aquela explosão inicial ao som do famoso «are you ready?» é sempre intensa e mais uma vez o público português transformou-a numa imensa onda humana aos saltos e aos encontrões, fazendo lembrar o mítico Woodstock ’99.
A fugaz “Twist” trouxe o primeiro vislumbre do famoso scat de Jonathan Davis. O músico está numa forma vocal incrível, com robustez no seu timbre arranhado, mas também nos growls. O único senão foi mesmo as suas intervenções pré-formatadas. Quem já assistiu a mais do que um concerto Korn vai reconhecer que as falas de Davis entre músicas são sempre as mesmas, apenas muda o nome do país/cidade. Com o concerto a apresentar-se como uma experiência única, seria interessante ouvir um discurso mais personalizado por parte do frontman. Mas, bem vistas as coisas, o que interessa mesmo aqui é a música, e essa foi executada sem qualquer apontamento negativo.
O ribombar do baixo de Ra Díaz e da bateria de Ray Luzier ecoaram pelo Restelo como um trovão. Seja com David Silveria e Fieldy, Ray Luzier e Fieldy ou Ray Luzier e Ra Díaz, os Korn sempre conseguiram ter uma secção rítmica coesa e robusta e isso faz toda a diferença na experiência ao vivo e na receção auditiva daquelas frequências graves.
Com o som nos trinques, a banda seguiu para “Here To Stay”. O tema que abre com um riff que parece um motor a arrancar, elevou mais uma vez a voz do público. O ribombar do baixo de Ra Díaz e da bateria de Ray Luzier ecoaram pelo Restelo como um trovão. Seja com David Silveria e Fieldy, Ray Luzier e Fieldy ou Ray Luzier e Ra Díaz, os Korn sempre conseguiram ter uma secção rítmica coesa e robusta e isso faz toda a diferença na experiência ao vivo e na receção auditiva daquelas frequências graves.
Em modo piloto automático seguiram-se “Got the Life”, “Clown” e “Did My Time”, antes de “Shoots and Ladders” nos levar para as Terras Altas da Escócia. Homenageando a sua ascendência escocesa, e já com o kilt vestido desde o início do espetáculo, Jonathan Davis partiu para aquele que é sempre um dos momentos mais cativantes de um concerto dos Korn. O músico surgiu com a sua tradicional gaita de foles onde tocou uma melodia de introdução à malha do álbum homónimo. Lá no meio, a clássica bridge da “One” dos Metallica deu, mais uma vez, um ar de sua graça.
Com músicas como “Coming Undone” e a cover “Word Up!” a ficarem de fora da setlist, abriu-se algum espaço para colocar certos deep cuts. O primeiro a surgir foi “Ball Tongue”, recebida em euforia só pelos fãs mais fervorosos. “Dirty”, mais à frente seguiu as mesmas pisadas. Já dos álbuns mais recentes, só “Cold” de “The Nothing” (2019) é que teve honras de setlist. Com trabalhos como “The Path of Totality” (2011) e “The Serenety of Suffering” (2016) a destacarem-se na sua discografia, foi pena os Korn não terem dado mais destaque ao seu material pós-2010.
“Twisted Transistor” fez a ponte para “A.D.I.D.A.S.”, esse hino cuja a letra é de cariz sexual, mas que surge como uma homenagem à marca de roupa desportiva que os Korn ajudaram a popularizar na cultura do nu metal. Aliás, Head usou precisamente uma camisola da recente coleção conjunta Korn x Adidas, que entre diversas peças tinha fatos de treino roxos e verdes, iguais aos que Jonathan Davis usava em palco no início da carreira.
Mestres no domínio das sete cordas e nas afinações rebaixadas, Munky e Head são como unha com carne. Os seus riffs e leads não são propriamente composições desafiantes, mas são sempre certeiros no equilíbrio entre peso e dinâmicas.
Mestres no domínio das sete cordas e nas afinações rebaixadas, Munky e Head são como unha com carne. Os seus riffs e leads não são propriamente composições desafiantes, mas são sempre certeiros no equilíbrio entre peso e dinâmicas. Os dois complementam-se de tal forma que em palco é praticamente difícil diferenciar auditivamente as suas partes. No campo das guitarras, Head foi visto a sacar os seus riffs numa Ibanez K7YANG, modelo de assinatura, já Munky soltou todo o seu estilo irreverente numa Ibanez APEX30, também ela de assinatura.
“Somebody Someone” e “Y’All Want a Single”, esta última com o habitual pedido de Davis para levantar o dedo do meio, soltaram a fúria antes do encore. Na tela surgiu a questão «mais?» na caligrafia da banda e rapidamente os cinco músicos regressaram para mais dois deep cuts, o interlúdio “4U” e “Divine”, esta última uma malha escrita em colaboração com Robert Trujillo, baixista dos Metallica, que na altura ainda estava nos Suicidal Tendencies. Intercaladas com os hinos “Falling Away From Me” e “Freak on a Leash”, os Korn encerraram assim o segundo dia do EVIL LIVE 2025 com a confirmação de que continuam a ser os intocáveis do nu metal.


































