Entre cancelamentos, vários problemas de som e um ambiente de cortar à faca foram os primeiros, Imminence, e os últimos, Marilyn Manson, que mais se destacaram num evento que ficará na memória de todos os presentes pelos piores motivos.
Para começar, importa referir que esta review não vai servir para comentar a falsa “contagem para a extinção” dos Megadeth, pois tal infortúnio já foi abordado aqui. Ao invés, pretendemos dar destaque às bandas que efetivamente subiram a palco e nos presentearam com concertos hipnotizantes, enérgicos e saudosistas. De referir também, que devido a limitações, a AS não teve acesso como imprensa e por isso não publicamos as habituais galerias. Ainda assim decidimos partilhar a nossa opinião sobre o que vimos e ouvimos.
Da envolvência sinfónica dos Imminence ao shock rock de Marilyn Manson, passando ainda pela celebração dos The Gathering, a descarga abrasiva dos Converge e a mestria progressiva dos Mastodon, este EVIL LIVE 2026, apesar de nos mostrar um evento fragilizado, conseguiu proporcionar alguns momentos de prazer.
Imminence
Em todas as edições, o EVIL LIVE tem nos apresentado interessantes propostas ligadas à cena metalcore. Porém, estes nomes acabam sempre por surgir no fim do cartaz, que é como quem diz, acabam sempre por ser os sacrificados que abrem o festival ou que tocam em segundo lugar, resultando assim em atuações curtas, que não mostram todo o potencial da banda e que não saciam os fãs que se deslocaram propositadamente para a ver.
Este ano, a escolha recaiu sobre os suecos Imminence, uma estreia há muito aguardada em Portugal. A sua sonoridade metalcore com uma abordagem sinfónica, proveniente da dupla função de Eddie Berg, vocalista e violinista, cria uma moldura sonora densa, épica e catártica. Já ao vivo, essa moldura articula-se na perfeição com uma dinâmica performativa teatral, plena de expressividade e magnetismo visual, fazendo assim dos Imminence uma das bandas mais excitantes do metalcore moderno.
Já ao vivo, essa moldura articula-se na perfeição com uma dinâmica performativa teatral, plena de expressividade e magnetismo visual, fazendo assim dos Imminence uma das bandas mais excitantes do metalcore moderno.
Com sensivelmente 30 minutos de atuação não houve tempo a perder. “Temptation” pôs os curiosos em sentido com tamanha wall of sound. Como já era expectável as primeiras melodias do violino de Berg foram completamente abafadas pelos restantes instrumentos, mas a voz estava a furar e deixar muitos de boca aberta com o timbre de Eddie. Seguiram-se “Desolation” e a novidade “The Sword That Never Bends” que mantiveram as atenções com a sua envolvência dramática.
Em “Death by a Thousand Cuts”, Berg puxou de todos os seus dotes vocais. A articulação entre peso e melodia, assim como o seu timbre a fazer lembrar Sam Carter dos Architects nos seus tempos áureos, deixou-nos boquiabertos. Do controlo dinâmico à projeção, é inquestionável que este é um dos melhores vocalistas da atualidade no que diz respeito ao metalcore. Mas, ao seu lado estava outro elemento a roubar o protagonismo do concerto. Harald Barrett, na guitarra e backing vocals, é todo um espetáculo à parte dentro do concerto. Apelidado de Rei Bruxo, uma referência ao universo de Tolkien, devido à sua aparência física e indumentária, Harald move-se em palco quase como um bailarino, contribuindo ainda mais para a carga teatral dos Imminence. Em “God Fearing Man”, Harald sacou mesmo um dos seus truques ao utilizar um arco de violino para, ao bom estilo de Jimmy Page, friccionar as cordas de guitarra num momento que teve um impacto quase cinematográfico.
Para o fim ficou “The Black”. Em mais um momento de experimentação e inovação, Berg surgiu a berrar para o corpo do seu violino para que a sua voz fosse captada por um pequeno pickup. O efeito transmitido foi de uma voz a ecoar ao longe, na escuridão e em desespero. Infelizmente, o final do concerto surgiu de forma algo abrupta para um espetáculo com tamanha envolvência. Ainda assim, a amostra dada pelos Imminence mostrou-nos uma banda que já está preparada para outros voos.
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The Gathering
Nome de referência no metal gótico, os The Gathering regressaram a Portugal 17 anos depois da sua última passagem por cá. Num contexto de celebração, a banda holandesa reuniu-se com a vocalista Anneke van Giersbergen para celebrar o 20º aniversário do aclamado álbum “Mandylion” (1995). Porém, uma celebração desta envergadura merecia um enquadramento diferente. A tipologia e identidade do festival EVIL LIVE não pareceu encaixar na envolvência gótica e atmosférica da banda, com a sua atuação a chegar-nos com alguma frieza. Aliado a este desconforto esteve uma apresentação tremida com questões relacionadas com o som a não deixarem os músicos descansados durante todo o concerto. Do problema na pedaleira de René Rutten, que inclusive obrigou-o a pousar a guitarra a meio do concerto para sair disparado em direção ao seu técnico, às várias trocas de palavras entre Anneke e o técnico de munição, sentimos alguma rigidez performativa, particularmente na bateria, com as passagens de pedal duplo a soarem pouco fluidas.
Para memória futura, fica uma setlist que passou em revista alguns dos temas mais icónicos do período de ouro dos The Gathering com músicas como “Eléanor”, “Strange Machines” e “Saturnine” a serem recebidas com euforia por uma pequena falange de metaleiros/góticos que se deslocaram ao EVIL LIVE propositadamente para este reencontro com a banda holandesa.
Converge
No espectro oposto do metal melódico dos The Gathering esteve o metalcore abrasivo e matemático dos Converge. Banda de culto no espectro do metal dissonante, os Converge foram um dos responsáveis pelo surgimento do mathcore. Agrestes, mas cirúrgicos, agressivos, mas dotados tecnicamente, nos seus concertos a banda consegue invocar múltiplas reações numa plateia que nem sempre está preparada para descarga de energia de Jacob Bannon, Kurt Ballou, Ben Koller e Nate Newton.
Agrestes, mas cirúrgicos, agressivos, mas dotados tecnicamente, nos seus concertos a banda consegue invocar múltiplas reações numa plateia que nem sempre está preparada para descarga de energia de Jacob Bannon, Kurt Ballou, Ben Koller e Nate Newton.
No EVIL LIVE não foi excepção, mas antes, o quarteto de Salem, Massachusetts não se livrou de algumas falhas técnicas relacionadas com a munição de palco de Jacob Bannon. Com Bannon a passear de um lado para o outro do palco à espera que o problema ficasse resolvido, os restantes membros decidiram entreter o público com pequenas amostras sonoras. Ben Koller, na bateria, mostrou-se particularmente ativo com passagens pela drum intro de “A Song for the Dead” dos Queens of the Stone Age e o icónico drum roll que surge na apresentação dos filmes da 20th Century Studios.
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Resolvido o impasse técnico, a banda saiu de palco para soar a intro “It Used to Matter”. Com dois álbuns lançados em 2026 para apresentar, um feito cada vez mais raro, os Converge atiraram-se ferozmente aos temas de “Love Is Not Enough” (2026) e “Hum of Hurt” (2026) com malhas como “Bad Faith”, “Amon Amok”, “Distract and Divide” e “Dream Debris” a levarem o fry scream de Bannon aos limites da natureza humana.
Num registo onde a voz melódica não tem praticamente espaço e onde as composições surgem como locomotivas desenfreadas, a resposta de aprovação por parte do público surgiu, naturalmente, na forma de muito mosh e de uma intensa agitação do primeiro ao último minuto naquele que foi o concerto mais extremo de um cartaz diversificado.
Mastodon
No seu primeiro concerto em Portugal sem o guitarrista e membro fundador Brent Hinds, os Mastodon apresentaram-se no EVIL LIVE com uma performance que surgiu como uma homenagem, mas ao mesmo tempo como uma janela aberta para o futuro da banda.
Com uma mistura sonora digna do estatuto e da qualidade das suas composições, a banda subiu ao palco acompanhada por Nick Johnston, guitarrista canadiano com um vasto currículo ao nível de colaborações com músicos virtuosos e tecnicistas. Apesar de Nick já ter sido oficializado, os Mastodon parecem agora uma espécie de power trio com Troy, Brann e Bill a mostrarem-se mais coesos que nunca. As iniciais “Tread Lightly” e “The Motherload” de “Once More ‘Round the Sun” (2014) não deixaram o público indiferente, com alguns fãs a soltarem as primeiras gargantas afinadas da noite. De seguida, a novidade “Your Ghost Again” resultou no momento certo para Troy Sanders e os restantes colegas homenagearem Brent Hinds. Apesar das divergências que levaram à saída de Hinds da banda, falamos de um membro fulcral e parte integrante da componente criativa da banda. Desta forma, ficou muito bem à banda esta breve dedicatória.
A banda acabaria por reservar “Steambreather” e “Blood and Thunder” para o fim do seu set, numa demonstração de vitalidade e de compromisso para o que se avizinha nesta nova fase dos Mastodon.
Para os fãs mais old school, “Crystal Skull” e “Megalodon” ajudaram a satisfazer o apetite por algo mais cru e próximo das raízes sludge. Intercalados com alguns temas surgiram pontualmente interlúdios de teclado tocados por João Nogueira, o músico brasileiro que acompanha os Mastodon na estrada. Quando chamado ao microfone, após a apresentação da banda, Nogueira não conseguiu conter a emoção por estar a tocar em Portugal. Apesar de ter nascido no país irmão, o músico fez questão de salientar que muitos aspetos culturais se cruzam, como é o caso da literatura portuguesa e brasileira. No fim, o músico despediu-se com a promessa de que um novo álbum dos Mastodon está aí ao virar da esquina.
A banda acabaria por reservar “Steambreather” e “Blood and Thunder” para o fim do seu set, numa demonstração de vitalidade e de compromisso para o que se avizinha nesta nova fase dos Mastodon.
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Marilyn Manson
Com a sala ainda a ferver após o cancelamento do concerto dos Megadeth, o EVIL LIVE não poderia ter à sua disposição melhor artista para aguentar os alicerces de um evento que já estava preso por arames. Com a sua produção teatral, longe do shock value de outros tempos, Manson conseguiu atenuar o sentimento de desânimo geral com uma performance exímia.
Entre cruzes iluminadas e fumos sebastianos, Manson surgiu na frente de palco com aquele holofote característico que ilumina a sua expressão facial por completo. O freak show teve início com “Nod If You Understand” seguida de “Disposable Teens”, o primeiro momento a convocar o público a participar ativamente no espetáculo.
Curiosamente, Manson surgiu neste concerto com um ar descontraído e pacífico. Fruto da idade e da sua experiência, parece que os tempos de rock star e dos excessos já lá vão. Manson apresenta-se agora em palco com todo o profissionalismo que um espetáculo desta natureza exige e ninguém lhe pode acusar de qualquer falta de entrega.
Manson consegue trazer para cada tema uma personalidade ímpar que se traduz numa imagem de marca sonora muito própria.
Seja numa veia mais industrial como “Angel With the Scabbed Wings” ou num piscar de olho ao hip-hop como em “This Is the New Shit”, Manson consegue trazer para cada tema uma personalidade ímpar que se traduz numa imagem de marca sonora muito própria. Em “The Nobodies” o músico serviu-se do refrão para congregar mais um coro de vozes composto por todos aqueles que se vêm como um pária. Já “The Dope Show” estabeleceu a analogia entre os fãs e as substâncias ilícitas que provocam uma sensação de bem estar e de adoração.
A sequência “Sweet Dreams (Are Made of This)”, “mOBSCENE” e “The Beautiful People” encapsularam o legado musical de Manson de forma perfeita. Bem sabemos que a primeira é uma cover, mas, verdade seja dita, a versão de Manson é daquelas que, hoje em dia, praticamente divide os direitos de autor com os Eurythmics. Já no encore, chegou-nos finalmente o primeiro, e único, momento de grande teatralidade com o músico a entrar no palco de forma grotesca no seu famoso par de andas apoiado por duas canadianas para interpretar “Tourniquet”. Mas, o fim já estava próximo e a fechar, a sua versão industrial de “Personal Jesus” foi a cartada perfeita para encerrar uma noite de dissabor e de muito descontentamento.