O Extramuralhas, anteriormente chamado Entremuralhas, continua a trazer pessoas de todo o mundo e a manter a sua promessa de ser um festival alternativo.
Organizado desde 2010, em Leiria, pela FadeIn Associação de Acção Cultural, traz nomes de culto, novos artistas para a ajuda na promoção e velhos artistas que merecem mais reconhecimento.
Nos concertos a céu aberto, quem está de passagem pelo Jardim Luís de Camões passa pelo festival para matar a curiosidade e muitos acabam mesmo por ficar. Considerado o único festival exclusivamente gótico do país, o Extramuralhas pinta o centro de Leiria de preto durante três dias todos os anos, é nestes dias que se vê vestidos de aparência medieval, botas de plataforma, óculos pequenos, correntes, espartilhos e maquilhagem preta pela cidade. O festival costumava acontecer exclusivamente dentro do Castelo de Leiria quando se chamava Entremuralhas, atualmente os concertos realizam-se na Igreja da Misericórdia, no Teatro José Lúcio da Silva, no Jardim Luís de Camões (com programação sempre gratuita) e na Stereogun, discoteca local mais dedicada ao techno. No Jardim aproveitam também para abrir bancas de roupa nova ou em segunda mão, joalharia artesanal, vinis, cds, cassetes e até bancas de angariação de fundos como a da Associação “Desprotegidos” que angaria dinheiro para ajudar animais em risco.
A edição de 2025 do Extramuralhas realizou-se de 21 a 23 de Agosto.
Dia 1 | A fórmula do rock gótico, batidas viciantes e experimentalismo
Matt Elliott abriu o Teatro José Lúcio da Silva com um one-man-show: uma guitarra acústica, um saxofone, uma voz e uma mestria nos loop pedals. Concerto de uma hora com poucos temas, pois alguns deles tinham entre os 10 e os 20 minutos, a maioria retirada do seu álbum “Drinking Songs” de 2005. Isso deu tempo para Elliott construir uma curta-metragem sonora em cada música, e em cada uma tornava-se mais difícil para a audiência desprender-se delas. Por cima de camadas e camadas da guitarra acústica, meticulosamente construídas, desconstruídas e invertidas, aparecia um poderoso saxofone, que além de nunca soar mal, parecia sempre elevar a qualidade de qualquer música em que fosse inserido. Nestes momentos quase que se podia sentir o impacto nas outras pessoas. Não entrou com grandes espetáculos ou encenações, nem estava vestido de forma excêntrica, percebeu-se rapidamente que a música era suficientemente forte para manter qualquer um interessado. A voz era o elemento menos ouvido, como de costume neste festival é uma voz grave, mas esta é mais versátil. Por fim, em “The Maid We Messed”, baixou-se sobre os pedais e misturando as camadas do saxofone com batidas e sons eletrónicos, imprimiu ao tema um toque mais Extramuralhas.
No mesmo espaço, logo a seguir, tocaram os grandes cabeças de cartaz: And Also The Trees. Banda de culto que chegou a abrir para os The Cure no início da sua enorme carreira. Foi bastante óbvio pelas t-shirts envergadas pelo público que eram o nome mais aguardado do dia. A banda traz um ambiente constantemente pesado, mas atmosférico. O cantor, Simon Huw Jones, parece transportar uma imensa carga emocional tanto quando canta como quando não canta. A sua voz sempre à beira de quebrar e a sua performance é a de um homem desesperado. Na guitarra, Justin Jones está sempre no seu próprio mundo e completamente envolvido pela música. A secção rítmica de Paul Hill e Grant Gordon mostram por vezes influências de jazz que fazem a música de And Also The Trees muito mais própria. Por detrás da atmosfera quase mágica estão as teclas e clarinete de Colin Ozanne. Num festival alternativo, foram a banda que mais aplausos recebeu logo nos primeiros acordes de muitas das suas músicas.
Já no Jardim Luís de Camões, a dupla eletrónica SIIE, oriunda da Suíça e da Alemanha, abriu o palco com o primeiro concerto exclusivamente eletrónico da edição deste ano. Cantada em francês por detrás de uma balaclava brilhante, a música deste duo atrai até os mais cínicos.
A fechar o Jardim, os suecos Then Comes Silence destacaram-se pelo aspeto de cada membro, que fazia lembrar outras estrelas de rock, a energia do guitarrista H. Zombie, a voz de Alex Svenson e o óbvio uso da mais pura fórmula do rock gótico, que faz com que as suas músicas obscuras e distorcidas fiquem no ouvido de qualquer um. No final do concerto, era evidente que o público não estava preparado para se despedir deste trio.
Mudando de cenário para a Stereogun, Lovataraxx deram o último concerto do dia antes do DJ set. Semelhantes aos SIIE, trazem música eletrónica cantada em francês, mas esta leva-nos de volta os anos 80, com performances eufóricas e entusiastas para uma discoteca apinhada.
Dia 2 | Gótico brasileiro, reencontros e música industrial pesada
Pink Opake abriram o palco do Jardim Luís de Camões com música que não precisa de ser traduzida para quem fala português. A banda, relativamente recente, do Brasil, trouxe mensagens políticas, em letras curtas e objetivas, repetidas até à exaustão e uma interessante adição do saxofone. Já no concerto dos Darkways, banda que mistura o rock gótico tradicional com eletrónico moderno, ainda houve direito a uma cover de “A Forest” dos The Cure.
Para o primeiro concerto do dia no Teatro José Lúcio de Silva, tocaram, pela segunda vez no Festival, os Bärlin. A sua primeira participação remonta ao ano de 2017. Um dos destaques do dia, provavelmente um dos melhores sons a nível técnico no festival. A certo ponto, o som estava tão bem equilibrado que iria ser sempre agradável não importando o tipo de música. A bateria pesada agarra a atenção de qualquer um e para uma banda sem guitarra, havia imensa distorção no ar. Já para não falar do forte clarinete tocado por Clément Barbier. Notou-se que a banda se sentia à vontade e ainda tiveram tempo para falar da equipa FadeIn, do festival e de Portugal: «Uma das melhores equipas, um dos melhores lugares, um dos melhores países para se tocar». A banda ainda voltou para um encore.
Para encerrar os concertos no teatro nesta edição do festival, Keeley Forsyth atuou acompanhada por Matthew Bourne ao piano, com quem lançou este ano o EP “Hand To Mouth.” Foi, definitivamente, o concerto mais simples visualmente: um piano, uma cadeira e dois projetores a destacar cada músico. Os projetores contrastando com a roupa preta de Forsyth criavam um jogo de luz e sombras – principalmente de sombras – que a cantora aproveitou ao máximo. Apesar de quase nunca vermos a sua cara, a voz de Keeley Forsyth parece encontrar sempre formas diferentes de se mostrar, modificar e quase se misturar com escuridão do teatro.
Se no Teatro a música era calma o suficiente para purificar a alma de qualquer um, no jardim, com os franceses La Boum Broute, a mistura de sintetizadores com uma disruptora guitarra elétrica serviu para uma festa no centro de Leiria e para preparar o público para o que se seguiria: Suicide Commando subiram a parada e os níveis de decibéis.
A banda lendária belga cuja a música faz lembrar um filme da saga “Saw – Enigma Mortal” conseguiu certamente uma coisa: pôs todos os presentes a saltar, a fazer headbanging e até a cantar letras que desconheciam. A verdade é que músicas como “Bind, Torture, Kill”, “Cause of Death: Suicide” e “God Is in the Rain” não saíram da cabeça de ninguém. Johan van Roy, vocalista, fundador e líder deste projeto, mostrou-se um dos melhores – se não o melhor – performer desta edição. Aproximando-se dos 60 anos de idade, trouxe a energia certa para o palco e nunca se deteve por um momento. Faz da música coisa física, ensurdeceu os ouvidos de todos e fechou em grande os concertos do segundo dia no Jardim, antes de mais uma ida à Stereogun.
Dia 3 | Sons portugueses, máscaras excêntricas e vozes femininas
Foram os portugueses So Dead que abriram o palco do Jardim Luís de Camões para o terceiro e último dia com um rock gótico distorcido e atmosférico que faz lembrar bandas como Siouxsie and The Banshees. A seguir vieram Tilly Electronics com perucas brilhantes e máscaras com mohawks ousados. Como o nome indica, o duo eletrónico trouxe das melhores energias do dia com carisma e interação com o público, apesar de ambas as caras se manterem anónimas por detrás das máscaras.
Três horas depois, a segunda banda portuguesa do dia, Decline and Fall, deu um tom calmamente negro ao palco. O trio mostrou-se muito feliz por estar ali e o vocalista Armando Teixeira expressou imensa gratidão por poder tocar no Extramuralhas.
A seguir a Decline and Fall veio a quarta voz feminina no palco do jardim: Minuit Machine trouxe um pano de fundo com um logótipo feito de leds e uma estranha, mas bonita combinação entre música eletrónica e serenidade sombria, acompanhadas de uma linda voz e uma performance tocante.
Para fechar o palco, o duo NNHMN voltou a Leiria, pela primeira vez após a presença em 2022, no Festival Monitor, que ocorre na Stereogun. A vocalista Lee Margot roubou imediatamente os olhares de toda a gente com movimentos graciosos, sorrisos e olhares para os que estavam mais perto do palco.
Entre as 3:30 e as 5:00 da manhã, Lena Kat fechou o festival com um DJ set cheio de música alternativa, gótica, pós-punk e até “Paranoid” dos Black Sabbath na Stereogun.
E assim acabou a 16ª edição do Extramuralhas, festival que vale a pena ser visitado pelas subculturas, os alternativos, os curiosos, os que procuram divertir-se, os que procuram novos artistas ou, na verdade, qualquer pessoa que queira fugir à normalidade e ao mainstream. Mesmo os que não procuram escapar à normalidade são mais do que bem-vindos.
Em tempos como estes em que o mainstream reina sobre toda a indústria da música, um meio cada vez mais difícil e onde só recentemente é que alguns (poucos) artistas alternativos conseguem ter o reconhecimento merecido e o crescimento subsequente, faz sentido a dinamização deste tipo de festivais. São iniciativas como esta que dão a oportunidade a multidões interessadas em conhecerem o novo e o diferente, a encontrarem novos caminhos, novas sonoridades, novas estéticas e novas ideias.
