A adega indie dos Capitão Fausto

A adega indie dos Capitão Fausto

Nero

O Indie Music Fest está prestes a iniciar. Com um cartaz preenchido pelos valores emergentes da cena nacional, um dos destaques são os Capitão Fausto.

Depois de “Gazella”, em 2011, o segundo álbum de estúdio dos Capitão Fausto traz mudanças no som da banda. “Pesar o Sol” foi gravado por Nuno Roque, na Adega da Quinta de Stº Amaro (cenário do vídeo de “Litoral”) e masterizado por Greg Calbi (Tame Impala, MGMT, Kurt Vile). Antes que todos os “sabedores” comecem a falar na banda liderada por Kevin Parker, os Capitão Fausto contaram-nos como se faz um disco à goliardos, no meio do vinho.

Este álbum é mais rocker, mais denso e menos, que o primeiro?
Tomás Wallenstein: No primeiro disco não procurámos tanto captar aquilo a que, naturalmente, soa uma banda a tocar ao vivo e a coisa ficou “limadinha”. Houve um som demasiado controlado que não conseguimos dominar, não procurámos ou não pensámos nisso, ou não achámos que fosse importante. Mas, de facto, quando tocávamos ao vivo a coisa soava um bocado diferente, portanto neste disco também decidimos pensar um bocado nisso.

Francisco Ferreira: Tocámos um ano inteiro ao vivo bastantes vezes e já nos conhecemos há imensos anos. Cada vez nos conhecemos melhor a tocar, conseguimos exprimir-nos muito melhor nos nossos instrumentos e em conjunto como banda. Neste disco, as imensas influências que tínhamos, conseguimos expô-las melhor e de maneira mais directa, enquanto no primeiro era assim uma “misturada” um bocado estranha, as músicas não eram tão coerentes. Além de não terem sido feitas todas juntas, as músicas em si tinham várias partes muito diferentes entre elas. Nestas soubemos compô-las de uma maneira mais coerente e mais coesa, e por isso é que o disco tem esse som assim pesado e rijo.

Quanto mais tocas ao vivo, começas a encontrar o teu som

No Paredes de Coura’12 falaram-me em ir para estúdio. O disco demorou muito tempo a fazer?
Francisco: Essencialmente ficou feito em Agosto e gravado em Setembro. Demorou-se um bocado de tempo, aqui com o menino Tomás a compor e a escrever as letras e depois ainda gravar essas vozes, já para Fevereiro. A partir daí começaram as misturas e também foi um trabalho difícil, porque decidimos meter também a mão na massa. Tínhamos ideias muito concretas e queríamos trabalhar com o Nuno Roque nesse aspecto da pós-produção, enquanto no primeiro disco foi só o ele. Não tínhamos assim tanta pressa porque, na altura, estávamos a sentir-nos por nossa conta, sem editora. A certa altura começa a ser um bocado penoso, porque estamos a ouvir as músicas todas, todos os dias, com um volume altíssimo, e é muito cansativo.

Tomás: Às tantas começávamos a piorar aquilo que já tínhamos feito. Em relação às vozes, o processo foi um bocadinho mais difícil, porque havia já uma estrutura toda montada a soar com as nossas ideias, como nós queríamos, etc. Encaixa-se ali uma peça e é muito mais difícil ela parecer final ou adequada. Quando se vai com as canções feitas para o estúdio já se tem aquilo na cabeça, faz-se, põe-se as vozes, saiu dali e acabou. Desta vez, andava a misturar coisas e eles até diziam estar porreiro e, dois dias depois, decidia fazer outra.

Francisco: Depois dessa situação toda, o disco estava pronto e masterizado por volta de Maio/Junho de 2013, e foi tempo burocrático, para tratar de coisas…

Os Capitão Fausto são compostos por [esq. para dir.]: Manuel Palha (guitarra), Domingos Coimbra (baixo), Salvador Seabra (bateria), Francisco Ferreira (órgão) e Tomás Wallenstein (voz e guitarra).

Os Capitão Fausto são compostos por [esq. para dir.]: Manuel Palha (guitarra), Domingos Coimbra (baixo), Salvador Seabra (bateria), Francisco Ferreira (órgão) e Tomás Wallenstein (voz e guitarra).

Uma pergunta inevitável é sobre a adega. Procuraram um som específico?
Manuel Palha: Queríamos fugir um bocado ao som de estúdio que define o “Gazela”, as coisas soarem bem, mas tudo limpinho. Queríamos ar, queríamos espaço. O nosso som partia também muito disso. A adega é uma coisa muito grande, com um pé direito enorme, com as pipas…

Tomás: Essencialmente, o que se procura numa sala grande é o som da bateria. É a peça mais fulcral para dar o ambiente ao resto.

Manuel: Exactamente! E a bateria está suja e explosiva.

Francisco: É um bocado estranho estar a tocar as músicas todas, mesmo que seja a ensaiá-las todos juntos, seja em que sala for, e quando vamos ouvir a gravação, se for num estúdio ou numa sala pequena, aquilo não soa estranho. Estamos a ouvir tudo muito limpinho e tudo no sítio e isso é uma estética pela qual passámos. Se tocarmos numa sala grande, parece que conseguimos apontar onde é que estão os instrumentos e para onde é que o som está a ir, «esta guitarra está ali, o som está a ir mais para ali». Acaba por se sentir assim umas vibrações, especialmente ao vivo sente-se isso tudo, e isso agradou-nos imenso. Fomos procurar a adega mesmo por causa disso.

Domingos Coimbra: Há outra coisa, que é não estar tão condicionado àquele horário de estúdio, ter de entrar às 09h e sair às 17h. Ali podíamos gravar quando nos apetecesse, porque até o próprio processo de gravação de disco foi muito relaxado, não tínhamos nenhuma data limite para acabar aquilo. Fomos tranquilos e se nos apetecesse gravar à noite gravávamos, se nos apetecesse gravávamos de dia ou à tarde. Há essa liberdade, e saímos um bocado da cidade, estávamos por nossa conta.

Tomás: Aqui, o maior dos heróis foi o Nuno Roque. Esteve, durante dez dias, enfiado na mesma casa com os putos, a aturar, e nunca teve sequer de se zangar.

O que se procura numa sala grande é o som da bateria. É a peça mais fulcral para dar o ambiente ao resto.

Em termos de influências, onde é que convergem e onde é que dispersam? No “Gazela” há uma malha que faz sempre lembrar aquela tensão final do “Black Magic Woman”, do Santana…
Tomás: Chama-se “Santa Ana”, exactamente por isso. É essa a dica, muito assumida.

Francisco: Quando estávamos a compor o disco tínhamos o DVD do “The Song Remains de Same”, e vimo-lo bastantes vezes, às tantas da noite. Ficávamos a compor o dia todo, a ensaiar, a tocar, a fazer as músicas, e depois estávamos estoirados e íamos à noite ver DVDs do James Bond ou esse dos Led Zeppelin. Não sei se isso teve alguma influência nas músicas, se calhar teve, provavelmente… Essa performance ao vivo é incrível.

Domingos: É um bocado difícil conseguir dizer o que ouvimos. Ouvimos muitas coisas, e não sentimos muito que, numa música ou outra, estamos a apanhar alguma coisa de outra banda. É um bocado intrínseco quase, em cada um de nós, e ninguém pensa muito nisso. É óbvio que temos um gosto especial por… É um bocado o misto dos dois. Gostamos muito e temos essa sede de encontrar coisas novas que se fazem, e também temos uma sede de encontrar coisas novas que foram feitas há muito tempo.

Francisco: É uma grande misturada. Hoje em dia vamos à Internet e acaba por ser tudo novo. Vou à Internet e encontro uma banda que acabou de lançar um disco ou então encontro um disco que nunca ouvi, de uma banda estranha, tipo alemã, e isso, para mim, também é novo. Vivemos imenso isso tudo juntos e isso é uma reflexão bastante certa do nosso som, tem muito disso.

Nota: Esta entrevista pode ser lida integralmente na AS#35. A banda fala-nos de todo o processo de gravação e do seu backline, com imagens exclusivas do mesmo.