Adriano Sérgio: «A Gibson Tem Toda A Razão»

Adriano Sérgio: «A Gibson Tem Toda A Razão»

Nero

A Gibson colocou a indústria da guitarra eléctrica em polvorosa com a campanha “Play Authentic”. A opinião pública tem estado contra as acções da gigante marca. Falámos com um dos mais conceituados luthiers portugueses para uma perspectiva mais sustentada do assunto.

A Gibson colocou-se de baixo de fogo, com infame vídeo “Play Authentic” e as suas ameaças e o anúncio do processo judicial movido contra a Dean Guitars. A resposta por parte da Armadillo, proprietária da Dean Guitars, foi pronta e considerou o processo que lhe foi movido como ridículo. Por tudo isto, previam-se tempos agitados no universo da guitarra eléctrica, tão agitados como no ano passado, quando a Gibson caiu na bancarrota. E prevêem-se que os tempos continuem turbulentos, afinal a gigante fabricante das famosas Les Paul prossegue a sua demanda. Aliás, elevou a sua caça a falsificações a outro nível, pedindo e encorajando que sejam agora os próprios guitarristas a denunciar modelos que aparentem ser de contrafacção.

Até certo ponto, no geral a opinião pública, a comunidade de guitarristas, tem estado contra as acções da centenária empresa. Talvez ainda devido aos muitos erros que foram sendo acumulados de algumas décadas a esta parte. Mas está também em causa, em toda esta polémica, coisas como a propriedade intelectual. Por isso falámos com Adriano Sérgio, da Ergon Guitars e da EGBA, um dos mais conceituados luthier nacionais, para ir um pouco mais fundo neste assunto.

E o construtor português é taxativo sobre as acções da Gibson: «Acho que eles têm razão. Faço parte da European Guitar Builders Association e um dos nossos cavalos de batalha é que as pessoas roubam ideias umas às outras, nem sequer pedem permissão, nem mencionam qual é a origem das ideias. Não me vejo a roubar ideias a ninguém, gosto de ser um gajo criativo. A Gibson inclusive entrou em contacto connosco, para saber se os podíamos apoiar, mas achámos que não deveriamos entrar nesse barco».

A recusa tem que ver com a necessidade de maior ponderação sobre o assunto e com as próprias responsabilidades da Gibson, como refere Adriano Sérgio. «A Gibson está no buraco que está por causa das asneiras que fez. Mas a Gibson, de facto, perde clientes, não só porque a qualidade deles, de vez em quando, é muito duvidosa, mas também porque há muita gente a fazer réplicas de Gibsons e vende-se mais barato. Já nem estou a falar na China. O pessoal compra guitarras por 500 € com um formato de uma Gibson, mas não é uma Gibson. Portanto, acho que os gajos têm razão em levantar esse problema e arrajar uma solução. Porque depois aparece o outro problema, há pessoas que realmente fazem Gibsons melhores do que eles».

Mas isso é algo a que todas as marcas estão sujeitas. Pegando no grande “rival”, há pessoal que faz Strats e Teles quase iguais às Fender Custom Shop «e, às vezes, nem são mais baratas, são mais caras porque fazem bem o seu trabalho», refere Adriano Sérgio, para quem o foco do assunto é outro: «O grande problema disto tudo são as pessoas dizerem que as guitarras são de um determinado gajo. Não são! São feitas por um determinado gajo, mas aquilo é um design da Gibson, foi desenvolvido pela Gibson, pelo Lester Les Paul, por quem quer que seja, e isso tem que ser mencionado».

Na conversa que tivemos com Adriano Sérgio, o luthier disseca os últimos acontecimentos em torno da Gibson, a razão dessas acções, o que ainda precisa de ser mais aprofundado e os problemas transversais que são levantados a todos os construtores de instrumentos. O criador da Ergon Guitars fala-nos ainda da sua marca e de alguns dos seus projectos futuros.

PLAY AUTHENTIC

A Armadillo, na defesa das suas Dean e as Luna Guitars, refere que o design,  o formato do corpo, já se tornaram senso comum e parte do domínio público. Deduz-se que não concordas…
Discordo totalmente. Acho que aquilo que é uma Gibson, sempre será uma Gibson. Depois há alterações para melhor, inclusive no design, que dependem do ponto de vista, em termos de conforto, em termos de peso, o que quer que seja. E é aí que ainda estou a tentar formular a minha opinião: é uma evolução, é agarrar numa ideia que já existe e transformá-la, mas essa tranformação só existe porque a ideia original existiu. E acho que as pessoas têm que ser educadas a respeitar a propriedade intelectual. A minha questão é essa. Toda a gente acha: «consigo fazer, agora isto também é meu». Mas quando vemos o produto acabado, não vimos o trabalho que esse produto deu, para chegar a essa forma final. E é muito fácil chegar e pensar: «Isso é uma ideia muita fixe, também consigo fazer». Isso é egoísmo! Porque se as pessoas que copiam, se criarem coisas suas e se alguém lhes tirar essas ideias, então aí vão começar a pensar de forma diferente. Vão dizer: «A ideia foi minha, porque estás a usar a ideia sem dizer nada?». É um ponto que vale a pena eles levantarem, agora depende para onde é que isto vai.

As pessoas têm que ser educadas a respeitar a propriedade intelectual.

Como referiste, é uma forte preocupação da EGBA?
Fiz o simpósio da EGBA há um mês atrás, em Oeiras. Estiveram presentes 30 construtores do mundo inteiro, desde EUA, Japão e Europa. E isso foi um dos pontos em discussão. Estivemos três dias a debater assuntos. O problema é que há gajos que fazem vida a vender umas poucas guitarritas, fazem umas poucas guitarritas por ano, que são cópias da Gibson, mas também há gajos que fazem um vidão disto, que produzem bastante, e são Gibsons, só não está escrito no headstock ou o headstock é um bocadinho diferente, mas o mesmo tipo de construção.

Uma marca como a Ergon é artesanato. Não são produtos que possam ser replicados em massa e a questão é que há malta que pega em formatos que foram desenhados para ser produzidos em massa e está a produzir em massa com um formato que não é deles…
Exactamente! Quando comecei a fazer guitarras, tinha alguns pontos bem firmes dentro da minha cabeça. Fazer guitarras que não fossem fáceis de ser reproduzidas por máquinas (nem por ninguém), não faço duas iguais, se houver uma igual é uma cópia, e não roubar ideias a ninguém. Uso a experiência que todas as marcas usaram no mercado e a minha experiência a trabalhar com essas marcas, inclusive, mas tenho de criar qualquer coisa nova, senão não faria. Isto traz um outro problema, se a Gibson começa a levantar esta questão e as pessoas começam a dar ouvidos, depois a seguir vai ser a Fender, depois pode ser a Martin, a Taylor… Principalmente a Martin, há muitas pessoas que fazem Martins. Mas há evoluções, há mudanças muito especiais. As pessoas dizem, construí baseado nisto, mas com esta alteração. Construí agora uma Ergon acústica. Usei uma evolução do Torres (Antonio de Torres), que foi o gajo que inventou a guitarra espanhola, que tem que ver com abordagens técnicas em relação à acústica. E acho que o problema para muitos construtores é esse: «Se os gajos ganham nós estamos lixados, tem que se começar a inventar coisas», porque as pessoas quando copiam colocam o seu lado criativo de lado.

Se te colocares na perspectiva do consumidor. Este não pode ser o primeiro passo para criar uma ditadura de mercado, uma monopolização? Impedir que consigas arranjar produtos ao nível, pelo menos, de uma Les Paul Standard por muito menos de metade do preço? Será por isso que muita gente não está a reagir bem a tudo isto?
Mas a Gibson já fez isso! Fez isso com a Epiphone. A Epiphone é uma versão barata, mais acessível com qualidade. Acho que o público não está a reagir bem porque começa a pensar: «agora vou ter que gastar mais dinheiro para comprar instrumentos». Mas, como acredito que saibas, um instrumento da Gibson ou da Fender, que custa 3000€, 4000€, 2000€ ou 1500€, só 30 % é que vai para a fábrica. O resto é para impostos, para dealers, para licenças… Os gajos têm que se defender, porque há toda uma estrutura para suportar. Não vou dizer que os gajos são santos, até nem gosto da Gibson. Os gajos adoptaram uma produção a partir dos anos 80 que foi desastrosa. Por isso é que a Epiphone parte menos braços que a Gibson. Só que os gajos estão a ver a vida deles em perigo e sinceramente tiro-lhes o chapéu. Acho que isto não vai dar a lado nenhum…

Porquê?
Não vai, porque as patentes dos gajos são patentes americanas e estão a tentar uma guerrazita com milhares de gajos do mundo inteiro, sai-lhes mais caro. Mas acho que isto é uma coisa boa porque faz com que se um gajo quer uma Gibson então vai ter que pagar por uma Gibson. Eles têm um legado a defender também. E acho que isso também é uma forma de educar o lado consumista das pessoas, a dar o devido valor, porque quem compra também não dá o devido valor a quem faz. Eu sei que as minhas guitarras são caras, a mais barata custa €4500, mas eu gasto €1500 em matéria prima e há outras coisas em que tenho que investir. Para ir à NAMM, para ir ao Holy Grail ou para ir às feiras no Japão. A marca só ganha visibilidade estando exposta em determinados sítios. Não pago publicidade, mas ir à NAMM são €5000, cada vez que vou ao Holy Grail são €3000 ou €4000. Há todo um investimento, as madeiras são caras… E tenho aqui madeira que só vou usar daqui não sei quantos anos. As pessoas não percebem isso, estão habituadas a ir à loja e comprar, mas as pessoas que fazem as coisas também precisam de viver. Tenho uma lista de espera de quase dois anos, mas não vivo desafogadamente. Ando aqui sempre controladinho e começo a trabalhar às 5:30 da manhã, todos os dias, folgo ao domingo à tarde. Isso tem valor. Tal como sucede com um jornalista, um escritor, qualquer pessoa. No meu caso, a única defesa que tenho, porque não tenho dinheiro para estar a patentear ou para estar a registar, o que não faz sentido nenhum, é não fazer duas guitarras iguais, estou sempre a mudar, estou sempre a evoluir.

Mas essas pessoas (que não tiveram o trabalho de desenvolver a Gibson, não lhes custou nada) também deveriam ser humildes o suficiente para retribuir a quem desenvolveu a Gibson. Por exemplo, criem uma associação de caridade com o nome da Gibson e coloquem aí os fundos.

No teu caso das Ergon a autenticidade é por demais evidente…
Mas quem faz cópias de Gibsons, que mencione que faz uma Gibson e, se calhar, se oferecer um pequeno direito à Gibson, a Gibson fica toda contente, porque é o reconhecimento. Este problema todo faz com que as pessoas pensem as coisas e talvez  cheguem a uma conclusão e um resultado que seja benéfico para toda a gente. É essa a minha opinião e defendo-a à boca cheia. Fazer cópias de tudo? Não, não e não. E, hoje em dia, há pessoas que fazem coisas melhores. Ou que oferecem cores que a Gibson não oferece ou que oferecem madeiras que a Gibson não oferece porque acham melhor. Têm esse direito porque se a Gibson não quer fazer, porque isso complica lá o sistema, então têm que dar espaço ou estar preparados para uma realidade que está a acontecer. Mas essas pessoas, como não tiveram o trabalho de desenvolver a Gibson, como não lhes custou nada, então também deveriam ser humildes o suficiente para retribuir a quem desenvolveu a Gibson. Por exemplo, criem uma associação de caridade com o nome da Gibson, «não quero dar o dinheiro aos gajos poque são uns ladrões», mas é retribuir, é reconhecer que faço uma coisa e ganho dinheiro com uma coisa da qual não tive ideias, não perdi tempo, não gastei dinheiro, não corri riscos a desenvolver aquele produto. Se as pessoas dessem algo de volta, acredito que já não havia este problema todo. Há um exemplo muito bom, a Fender foi intelegentíssima neste caso, podes comprar braços da Fender feitos por várias marcas e que tens lá o “Licensed by Fender”.

Referes-te a coisas como a Warmoth?
Há uma infinidade delas. Podes agarrar num corpo ou num braço, fazes tu a tua própria Fender, mas está lá “Licensed by Fender”. E a Fender não se importa, porque no fundo quem vê uma guitarra daquelas à dinstância julga que aquilo é uma Fender. Claro que numa Gibson não é tão fácil, porque aquilo é mais difícil de construir, um pouco mais difícil, o braço tem que ser colado, etc. Mas imagina que alguém faz uma Gibson e quer aparafusar um braço. A Gibson não faz isso, têm todo o direito de negar a criatividade e a vontade de alguém o fazer, mas as pessoas também dizem isto é uma Gibson, é a minha abordagem da Gibson. Mas para terminar, estou aqui a falar, mas ainda estou a desenvolver a minha opinião, todos os dias. Mas quanto mais penso no assunto e me deparo com pessoas que roubam a colegas meus, fico contente que isto aconteça.

ERGON GUITARS

Mencionaste a nova Ergon acústica. E de resto, o que é que anda na forja?
Estou super satisfeito com o que está a acontecer com a Ergon. Está a crescer. Quero tentar crescer devagar, ao meu ritmo, estou bastante sólido, tenho bastantes encomendas. Este ano o que vai acontecer… Criei um grupo, com o Michael Spalt e o Ulrich Teuffel, para ir à NAMM 2020 que se vai chamar The Club of Complications. Vou ter o meu próprio espaço com essas duas pessoas e temos um convidado especial, todos os anos vamos ter um convidado especial, este ano vai ser um construtor japonês. Teremos um conceito de exposição que terei que manter em segredo. No fundo estou a libertar-me um bocado das mesas, de expôr as guitarras com as mesas como vocês viram. É um conceito de que comecei a ficar um bocado fora daquilo… E também vejo o nível das pessoas que começam a ficar ao meu lado e esse nivel está baixar, porque as pessoas querem fazer mais e depois descuram um bocado a qualidade.

Cada um já tem a sua madeira. Tivemos o apoio do Guita para fazer um filme-documentário (…) são coisas que demoram tempo. Não é fácil, mas pronto o projecto está de pé.

E além da NAMM?
Outra coisa que está a acontecer com a Ergon e está numa fase muito embrionária é que estou a pensar criar uma aldeia de construtores. Para pessoas que virão da Alemanha, da Áustria, de Itália. Aqui na zona de Lisboa, não é muito longe de Lisboa. Estou à procura de uma aldeia que, no fundo, seja um Luthier Village. Já ando há procura do sítio há algum tempo, só quando encontrar o sítio certo é que vou pôr as coisas em prática. E também é um investimento a longo prazo, é capaz de ser assim o meu último projecto grande. Será suposto fazer workshops com construtores internacionais e tudo isso. Mas ainda é tudo muito prematuro.

No curto prazo, as Guitarras do Marquês?
As Guitarras do Marquês era suposto ser apresentado agora em Setembro e tivemos que adiar isso, em principio para Maio. Arranjámos um músico inglês grande  interessado em tocar as guitarras [Adriano Sérgio quis manter segredo, apenas nos confirmou que, como sugerimos, de facto, contactou Jimmy Page, mas que este respondeu já não tocar]. O Álvaro Covões era suposto andar com isto para a frente, numa reunião disse que sim, estava interessado, mas que nós é que tinhamos de entrar em contacto com os músicos. Conseguimos entrar em contacto com um músico que aceitou, o gajo curtiu imenso o projeto e depois o Álvaro Covões nunca mais disse nada. Portanto, estou um bocado chateado de trabalhar com essa gente. É dificil trabalhar com estruturas grandes. Se não forem elas a ter a ideia, dificultam as ideias dos outros, querem ter protagonismo. Eu não quero ter protagonismo, toda a gente sabe que fui eu que tive essa ideia, fui eu que arranquei com o projecto. Cada um já tem a sua madeira. Tivemos o apoio do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) para fazer um filme-documentário em que o produtor é a força maior, o João Fonseca, e o realizador é o Filipe Rosa com o Hélder Faria, isso está confirmadíssimo. Só que são coisas que demoram tempo. Não é fácil, mas pronto o projecto está de pé, o site oficial  continua mais ou menos actualizado, e a minha guitarra está pronta para começar quando a equipa de filmagem estiver cá. Está toda a gente pronta, toda a gente tem a madeira, alguns já têm a guitarra completamente definida na cabeça. Mas não é fácil, é muita gente, é muito dinheiro envolvido também, arranjar apoios não para a nossa construção, mas para o filme e para o concerto. Mas sim vaão ver as Guitarras do Marquês, garantidamente. Em princípio para Maio de 2020.