A Porta Colorida dos Alt-j

A Porta Colorida dos Alt-j

António Maurício

Em entrevista à AS, Gus Unger-Hamilton deixa “Relaxer” aberto à interpretação dos ouvintes.

O teclista Gus Unger-Hamilton atendeu-nos os telefone, nos dias que antecederam a edição de “Relaxer”, para nos falar do terceiro álbum dos Alt-J. O músico desmistifica questões como o recurso a um velho Casiotone, dos anos 80, no setup e nas canções da banda, e admite que o convite a Iggy Pop foi uma sugestão exterior à banda, que não conhece pessoalmente a lenda do punk, ainda que seja sua fã. Recusou responder à, já recorrente, questão sobre “House Of Rising Sun”, negando tratar-se de uma cover dos Animals, afinal trata-se de uma velha canção popular, com as origens traçadas até ao século XVI e de autoria incerta.

No dia 06 de Julho, o trio actua no NOS Alive 2017, regressando a Lisboa. Gus Unger-Hamilton deixa os tradicionais elogios ao público português e salientando a sua hospitalidade: «Já nos levaram a comer em sítios mesmo muito bons em Portugal e sempre nos divertimos muito. Ainda me lembro de uma vez, quando compramos um monte de haxixe enquanto estivemos por aí e foi mesmo muito barato e agradável».

Se alimentares o teu cérebro com coisas interessantes e estimulantes, vais produzir boas músicas.

O processo inicial de produção para o álbum “Relaxer”, foi um brainstorming de ideias e sons ou tinham algum conceito que queriam seguir?
Em todos os nossos álbuns, a banda apenas vai fazendo música a música. Não nos juntamos e fazemos um álbum, em vez disso escrevemos músicas e, a partir daí, criamos um álbum. Acho que é essa a melhor maneira de pensar sobre um projecto. Não fizemos o álbum a partir de um conceito desse género, só gostámos de estar todos juntos outra a vez a escrever músicas.

Sabemos que gostam de filmes como “Leon, The Professional” devido à música “Matilda”… Os filmes influenciam a vossa música?
Sim, muito mesmo! Gostamos de ver montes de filmes e, frequentemente, descobrimos que se um filme que nos inspira ou move consegue chegar até às nossas letras. Se tu ouvires uma boa história isso vai acabar por acontecer… A história acaba por te ficar na cabeça e depois acaba por se misturar nas coisas que estás a escrever. Do género, se tu alimentares um animal muito bem, com comida muito boa, então a carne desse animal vai saber bem também. Acho que acontece o mesmo ao escrever música, se tu alimentares o teu cérebro com coisas interessantes e estimulantes, vais produzir boas músicas.

E o jogo LSD DREAM EMULATOR foi uma influência neste novo álbum, além de contribuir para a imagem de capa do álbum e dos singles?
Basicamente, encontramos a imagem no Twiter, a imagem do jogo, mas nem sabíamos de onde era… E acabamos por gostar imenso da imagem. Então, fomos falar com o criador do jogo e perguntar se podíamos usá-la. Pensámos que encaixaria perfeitamente no álbum e começamos também a fazer as imagens dos singles a partir daí…

A capa para o “Relaxer” é muito diferente das capas dos álbuns anteriores, sentes que a música também mudou?
Um pouco sim. Acho que o álbum está estruturado de maneira diferente, sentimos que este é um álbum mais directo, ao contrário de uma viagem ou uma certa visão do mundo. Não vemos este álbum como algo que tens que ouvir a partir da maneira que é apresentado, o pessoal pode ouvir consoante a ordem que desejar, como se fosse uma porta colorida, uma série de porta diferentes que podes abrir como quiseres e entrar em mundos diferentes.

Trabalharem com Charlie Andrew teve como objetivo estabelecerem continuidade ou usar o seu conhecimento do vosso trabalho para criar abordagens diferentes?
Trabalhámos com Charlie em todos os álbuns que já fizemos, portanto, nunca é uma questão se vamos ou não trabalhar com ele. Continuamos juntos, temos uma grande relação e ele percebe o nosso som e o que estamos a tentar alcançar. Consideramos a gravação como sendo a etapa final de composição e gostamos de fazer isso com o Charlie.

O Iggy Pop narra o vosso vídeo da música “In Cold Blood”. Como é que isso aconteceu?
Não o conhecemos pessoalmente. A editora é que tratou de tudo. Alguém o sugeriu e a nossa reacção foi imediata: «Sim, ele tem uma voz extraordinária»! Ele também tem um programa na rádio britânica que oiço e gosto mesmo muito. Por isso… sim foi muito fixe.

O Casiotone usado na “In Cold Blood” (o tal que custou 1,05 libras) foi uma compra aleatória, no eBay, ou queriam algo específico, a partir daquele tipo de sonoridade, no álbum?
Adoro a sonoridade desse teclado. Transmite uma sensação muito boa do analógico dos anos 80. Tem uma espessura que aprecio imenso. Uso esse teclado em todos os álbuns que já fizemos e aparece na maioria das faixas. É apenas um teclado muito fixe que se tornou nuclear no meu som enquanto teclista.

É um luxo ir a Abbey Road, sem dúvida, mas adicionou mesmo muito ao álbum, ao dar aquela sonoridade específica das cordas.

Contrariamente, gravar sons orquestrais no estúdio Abbey Road é um luxo. Os arranjos deram muito trabalho?Sim, montes de esforço. Sabes, felizmente a Kirsty [Mangan], que é casada com o Charlie, é nossa amiga e é uma compositora fantástica. Ela pegou nas nossas músicas e escreveu-lhes peças de corda brilhantes, que nos deixaram super felizes com isso. Tens razão, é mesmo um luxo ir a Abbey Road, sem dúvida, e gostámos muito dos nossos dias lá, foram todos muitos profissionais e acho que adicionou mesmo muito ao álbum, ao dar aquela sonoridade específica das cordas.

Em tour, como se preparam para traduzir isso?
Temos um monte de ensaios e fomos a um estúdio especifico de ensaios para percebermos como tocar as músicas. Porque, geralmente, é bastante complexo e com várias camadas, não é só guitarra, baixo e bateria. Dámesmo muito trabalho, mas também é excitante fazê-lo.

O que é que estão a ouvir agora?
Ando a ouvir muitos podcasts, actualmente não ando a ouvir muita música. Os podcasts são muito bons para ouvir em viagens, porque é como ler, mas não tens que usar os teus olhos.