ENTREVISTA | Andreas Kisser: Os 25 Anos de “Roots”, O Majestoso Vodum dos Sepultura

ENTREVISTA | Andreas Kisser: Os 25 Anos de “Roots”, O Majestoso Vodum dos Sepultura

Nero
Mick Hutson

Andreas Kisser recorda em entrevista a potência criativa dos Sepultura e da enorme e feliz convergência de factores que criaram “Roots” e o tornaram num dos mais importantes discos da década de 90.

De forma bastante genérica, na década de 90 o mundo do metal mantinha ainda alguma da atenção do mainstream, vinda dos 80s e suportada nos ombros do álbum “preto” dos Metallica. As sonoridades mais pesadas surgiam nos tops de vendas discográficas em vários países (Portugal incluído) e os Sepultura só eram ultrapassados pelo café, como maior fonte de riqueza através de exportação no Brasil. O thrash metal do quarteto havia atingido o seu zénite com “Arise”, em 1991, e o álbum seguinte, foi um estrondoso sucesso de vendas. Mas “Chaos A.D.” não era só um disco que ecoava por todo o lado, desde os corredores liceais às transmissões da RTP1, esse disco começou a firmar um tremendo som, que se começou a apelidar de groove metal, e a misturar guitarras em afinações baixas e amplificadores no “estalo” com as raízes da cultura indígena brasileira.

Paralelamente, estava a emergir outra sonoridade. Uma manifestação já algo pós-grunge e que estava a reinventar a expressividade da guitarra, através da afirmação das afinações drop D (caramba, tão influente foi Eddie Van Halen) e dos modelos de sete cordas. O peso de usar um B grave ou mesmo um Drop A, tornou-se uma tendência cada vez maior, havia chegado a era da new wave of metal. Nenhuma banda foi tão determinante nesta nova era como os Korn. Os Korn e o homem que os inventou, Ross Robinson. Aqueles que procuravam menorizar este novo som, com o famoso pejorativo “nu metal”, acabaram silenciados no dia 20 de Fevereiro de 1996, quando a Roadrunner Records editou o sexto álbum dos Sepultura.

O disco foi, precisamente, produzido por Ross Robinson nos estúdios Indigo Ranch, na Califórnia. E se decidir qual o melhor álbum dos Sepultura é uma discussão sem resolução aparente, em termos de importância sonora, nenhum se equipara a “Roots”. Não se trata apenas de groove metal, thrash metal ou nu metal, mas de uma das maiores assinaturas sónicas que uma banda foi capaz de fazer depois das eras clássicas do rock, com aquelas guitarras a soarem quase como instrumentos não temperados, juntando-se a berimbaus em enormes curvas sinusoidais, capazes de alargar a sensação de peso sónico.

É um disco muito vivo, muito orgânico, muito real. É muito bom saber que, depois desses anos, é um disco que ainda influencia e tem esse poder de mexer com as pessoas

O som de “Roots” é arrasador e ter trabalhado nele é algo que motiva nostalgia em Andreas Kisser: «É óbvio que o “Roots” teve mais impacto pela sua época, pelo momento em que saiu. Estava a começar uma nova onda, o nu-metal. Esse estilo que realmente conquistou muito dessa geração nova, que começou a surgir naquela época. Mas todos os discos de Sepultura são muito importantes para mim. Todos os discos têm uma característica diferente. Têm um objectivo, conquistaram algo novo na nossa carreira. O “Roots” foi um disco fantástico. Foi um privilégio ter feito parte de um projecto tão especial, tão maravilhoso. É uma reflexão e uma pesquisa sobre as nossas próprias raízes musicais, desde os índios xavantes, da influência dos escravos, com os percussionistas, a nossa própria influência da cidade de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte… É um disco em que fomos ao fundo das nossas raízes».

Ao mesmo tempo, “Roots”marcou o final de uma era na maior banda de metal no Hemisfério Sul do globo. Talvez isso tenha ajudado a criar a noção de que o trabalho resultou de uma tempestade perfeita, de uma espantosa convergência de factores e que é algo irrepetível. Algo que o guitarrista reconhece, ainda que defenda o trabalho posterior da banda. «Foi um disco em que a banda estava muito desunida. Fora dos ensaios, fora dos palcos. O Max acabou saíndo, mandámos embora a nossa empresária. E foi tudo através desse processo do “Roots”. Por isso, acho que o “Against” é o disco mais importante da nossa carreira. Depois da saída do Max, foi o que manteve a banda unida, manteve a banda junta. Também o “Nation” e o “Kairo” são discos muito importantes. Para mim, cada um tem a sua vida e a sua história. Claro, o “Roots” foi um dos discos mais populares da história dos Sepultura. Até hoje, se pegares no “Roots”, parece que foi feito ontem. É um disco muito vivo, muito orgânico, muito real. É muito bom saber que, depois desses anos, é um disco que ainda influencia e tem esse poder de mexer com as pessoas».

Andreas Kisser recorda também o trabalho de mistura de Andy Wallace e a produção de Ross Robinson e a sua influência incontornável no álbum, ao ponto de dizer que este «foi o quinto membro de estúdio. O nome dele e a participação dele foi fundamental para essa sonoridade do “Roots”. Tanto a nossa intenção de fazer as coisas acontecer daquela maneira e a ajuda do know how e do equipamento que o Ross escolheu e tudo. Então, foi um processo conjunto, mesmo. Ele no estúdio era realmente parte da banda, com toda a liberdade de trazer as suas opiniões e as suas intenções, que trabalhávamos juntos. Foi um disco realmente maravilhoso, de tanto efeito, que influenciou tanta gente. E o Ross foi, sem dúvida, um dos factores principais para que o tenhamos conseguido. O Ross e o Andy Wallace. Foi o Andy Wallace que mixou o disco. Acho que essa dupla foi fantástica, foi fundamental para conseguir essa sonoridade».

Estávamos num momento com condições e confiança de todos, para fazer o que bem se entendesse. Se quiséssemos ir para Marte gravar a música, conseguiríamos

Essa equipa é uma das coisas que mais nos faz ter noção da dimensão que as sonoridades mais pesadas tinham na indústria discográfica na época. Ross Robinson foi um nome, como já dissemos, determinante na história do rock. Depois, Andy Wallace…

O seu currículo é um dos mais assombrosos dos últimos 40 anos. Vão encontrar a sua assinatura (e para não descontextualizar muito) na sagrada trilogia dos Slayer, “Reign In Blood”/”South Of Heaven”/”Season In The Abyss”, em “Nevermind” (Nirvana), “Dirty” (Sonic Youth) ou no homónimo de estreia dos Rage Against The Machine, além claro de “Arise” e “Chaos A.D.” dos Sepultura. Mais recentemente, pensem nos Ghost ou nos Gojira. Portanto, um dream team sentava-se atrás das consolas e uma banda no apogeu das suas capacidades fazia o resto, mesmo que tenha sido difícil o trabalho de finalização, de mistura, de compressão, de pós-produção, tendo captado e harmonizado coisas tão díspares como amplificadores com distorção em sala ou uma tribo a fazer música no meio da selva e depois harmonizar todos estes elementos.

«Estávamos num momento com condições e confiança de todos, para fazer o que bem se entendesse. Se quiséssemos ir para Marte gravar a música, conseguiríamos. Era um momento muito fértil, muito fantástico. Tudo o que se imaginava ou pudesse imaginar era possível. Havia o apoio total de todos. O “Chaos A.D.” foi um grande sucesso, o disco anterior ao “Roots”. É um disco que realmente mostrou um som mais original, mais característico dos Sepultura. E o “Roots” foi a procissão e a condição que qualquer banda sonha ter. Com o apoio total da editora. Com os músicos super criativos e pensando em coisas que antes podiam ser absurdas, como ir ter com uma tribo e fazer música juntos. Enfim, conseguimos fazer tudo isso através desse apoio e daquele momento especial que vivemos naqueles anos 90».

Favela Garagem Biboca, Porra!

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