Anna Von Hausswolff, A Cor das Sombras

Anna Von Hausswolff, A Cor das Sombras

Timóteo Azevedo

Anna Von Hausswolff sobre “Ceremony”. Erguido com o poder de órgão de tubos, o seu segundo álbum é uma obra negra, melancólica e emocionalmente arrasadora.

Já capaz de uma extrema densidade emocional através de condução a piano, a sueca Anna Von Hausswolff aumentou o peso e poder da sua sonoridade quando construiu o seu segundo álbum, de 2013, partindo de um instrumento massivo como o órgão. Ao misturar e harmonizar fontes tão extremas como o drone e o funeral doom com a pop avant-garde de Kate Bush ou o experimentalismo de Diamanda Galás, tudo sob a imponência de um grande órgão de igreja e alguns princípios de composição clássica e minimalista do instrumento.

Senti a curiosidade de encontrar um som mais orgânico e foi quando o órgão de igreja surgiu no quadro

A presentação do álbum surgia envolta em lirismo: «O início dá-se com o som de um órgão de catedral, um arpeggio nas notas mais graves e uma melodia a provocar os registos mais altos, antes da entrada de uma tarola sinistra como uma impressão balbuciada. Após três minutos, as guitarras começam a ressoar como nuvens aglomerando-se no horizonte, a melodia a aumentar lentamente e a ameaçar rasgar o céu. Este é o “Epitaph of Theodor” de Anna Von Hausswolff, e dentro do que são as dramáticas introduções instrumentais de álbuns, esta é esmagadora. E depois é seguida por algo ainda mais intenso: “Deathbed”, que ruge e ressoa sinistramente antes de farpas metálicas de trovão estremecerem esse zumbido e uma batida fúnebre forçar a canção a balancear-se em frente. Só após uns 4 minutos e meio desta ferocidade ouvimos uma voz humana, desencadeada através de um clamor feroz, ascendendo e mergulhando, uma ave imensa caçando a sua presa, até a canção atingir um inesperado e triunfal clímax».

A jovem compositora sueca, um dos destaques no cartaz do Amplifest 2016, falou-nos num tom íntimo da sua reverência ao órgão, do som e da estética de “Ceremony”, álbum axiomático na sua expansão sonora, e do seu próprio percurso.

anna von hausswolff ceremony cover

“Ceremony”, lírica e sonicamente, é um álbum muito mais ritualista que “Singing From the Grave”. A ideia de usar um órgão de igreja surgiu antes ou após o conceito para o álbum?
Diria que o som e o conceito estiveram de mãos dadas desde o início. Tinha algumas canções que pensei estarem interligadas e tinha uma ideia abstracta de como queria que o álbum se desenvolvesse. Quando comecei a compor para órgão (em casa, no meu sintetizador) nunca havia tocado em algum, portanto pensei bastante no som e ambiente. Criei um guião de ambiente para todo o disco, o qual o meu produtor, o Filip Leyman, me ajudou a seguir. Após termos estabelecido uma ideia clara de como deveria ser a atmosfera e a estrutura, tornou-se bastante fácil escrever o resto das canções para o “Ceremony”.

Naturalmente, devido à sua enorme ressonância harmónica, o órgão retira muito espaço aos outros instrumentos. Considerando isso, como desenvolveram os arranjos?
Mapeei todas as estruturas e decidi em que ordem as canções deviam surgir, mas muitos dos arranjos foram gerados espontânea e instintivamente na igreja. Nem eu nem o Filip sabíamos exactamente como o órgão se iria comportar na gravação e queríamos que os músicos tivessem muita liberdade na sua interpretação das canções. É aí que reside a magia de uma gravação – entre a tua visão e as suas interpretações. Trazer mais pessoas para o projecto significa que não irá haver uma forma unidimensional de criação.

A capacidade do órgão é incomparável com qualquer outro instrumento.

E, afinal, como foi o processo de descoberta do instrumento?
Mudei-me para Copenhaga e não tinha um piano, então, em vez disso, comecei a compor as canções no meu sintetizador. Descobri um banco sonoro, chamado “St. Peters Organ”, do qual gostei realmente. Após um tempo senti a curiosidade de encontrar um som mais orgânico e foi quando o órgão de igreja surgiu no quadro. Apenas havia brincado com a ideia de tocar num órgão de igreja até aí, mas quando (após alguns estudos) percebi que o órgão me podia oferecer algo orgânico, fresco e novo, abrir um novo mundo sonoro, decidi experimentar. Certamente afectou a minha forma de compor. Gostei tanto do som do instrumento que decidi dar-lhe mais espaço em “Ceremony”, através de partes instrumentais e drones mais longos. Não encontrarias isto numa gravação minha anterior.

Ao gravar numa igreja, que diferenças sentiste entre as gravações de “Singing From the Grave” e “Ceremony”?
Duas experiências completamente diferentes. Gravámos o “Singing From the Grave” no fantástico estúdio Music a Matic, em Gotemburgo, com Henryk Lipp, um veterano da música, como produtor. Estava super nervosa. Não fazia ideia de como se trabalhava em estúdio. Não sabia se conseguiria sequer gravar, de tão nervosa que estava. Foi uma viagem intensa entre o céu e o inferno, a qual acredito ter-me tornado uma música mais forte e confiante do que era até aí. Inesquecível. Aprendi muito no Music a Matic. Em “Ceremony” tinha uma visão bastante clara de como queria trabalhar. Queria dar à produção o tempo que necessitasse e ter um controlo total sobre o processo. Queria experimentar e “brincar” bastante na produção. Foi por isso que quis o Filip Leyman, um velho amigo do liceu, como produtor. Ele tem vindo a produzir há vários anos e possuía o talento e a curiosidade para experimentar algo diferente. Nunca havia tocado num órgão e ele nunca havia gravado um. Estávamos juntos, numa plataforma estranha, com as mesmas qualificações. Foi extremamente excitante para ambos e no primeiro dia que entrámos na igreja explodimos de inspiração. Tínhamos o espaço para nós, durante 5 dias, e nunca havia sentido tamanha harmonia e liberdade durante uma gravação.

As temáticas litúrgicas, a simbologia e características algo diabólicas que encontramos nas igrejas permitem criar uma certa tensão, medo e respeito.

Há esse som etéreo através do álbum. Quão determinante foi a igreja para o produto final?
Annedals Kyrkan, a igreja onde gravámos, é uma grande igreja construída em pedra, com uma grande sala vazia e o órgão. O som dos instrumentos conseguia viajar de uma parede para outra durante muito tempo e criar estes “zumbidos” e reverberação. Não necessitámos de usar quaisquer efeitos e quase todos os reverbs ouvidos são criados pela própria sala. Portanto, creio que a igreja adicionou uma textura mais orgânica e íntima a “Ceremony”. As temáticas litúrgicas, a simbologia e características algo diabólicas que encontramos nas igrejas permitem criar uma certa tensão, medo e respeito, e é fácil relacionarmo-nos com estes símbolos, pois todos os conhecemos da nossa infância e história. Durante uma gravação podes pegar nessa tensão e transformá-la numa energia interessante que, claro, tem efeito em toda a performance e no resultado final.

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Envolveste-te na música bastante nova, como foram esses anos? Tens noção de como e quando descobriste a tua assinatura sonora?
Tinha 9 anos quando comecei a tocar flauta. Gostava, mas pensava que tinha dedos demasiado pequenos para o instrumento e o professor não era suficientemente inteligente para me explicar que não importa quão longos são os teus dedos, então desisti. Aos 13 anos comecei a ter aulas de piano, era mais fácil e mais divertido. Também comecei a ter lições de canto com uma professora particular e achava fantástico. Penso que disfrutei bastante da música, enquanto criança, mas ao ficar mais velha e iniciar o liceu passei a experienciar o espírito de competitividade institucional entre os estudantes e isso fez-me sentir posta de parte e insegura. Durante este período cantava muito em casa e o meu estilo vocal era altissonante, um pouco falso e esquisito, mas nunca me atrevi a cantar para alguém, além da minha mãe e da minha irmã. Só quando o meu amigo Karl Vento [agora guitarrista na banda de Hausswolff] me convidou para a sua banda, em 2004, é que, finalmente, consegui sair da minha zona de conforto e começar a actuar diante de uma plateia. Cantar para uma assistência ajudou-me a desenvolver e explorar a minha voz na sua totalidade. Não sei se alguma vez conseguirei atingir a minha assinatura vocal e sonora. Há dois anos atrás passei a ter aulas de canto profissionais e a minha voz tem mudado drasticamente, desde aí, e irei continuar a ter aulas e a expandir a minha voz enquanto puder. As cordas vocais também mudam com a idade, portanto para quê colar-me a uma assinatura quando posso não conseguir fazê-la daqui a 30 anos?

Não existe algo como prisão estética, desde que sigas o teu coração e intuição.

Já referiste, em entrevista, que ouves bandas de drone, como os Earth ou os Barn Owl. Que outras influências assumes na tua carreira?
Também Jan Welmers, compositor clássico minimalista de órgão, e muitas bandas-sonoras de filmes, especialmente “Suspiria” [Goblin], “Angst” [Klaus Schulze] e “The Brothers Lionheart” [Björn Isfält]. As minhas influências não-musicais surgem, principalmente, da natureza. Há um local na Suécia, chamado Kisa, onde a minha avó vive, que vou visitar frequentemente. Quando era criança tínhamos uma casa profundamente embrenhada na floresta de Kisa e a natureza nessa área é simplesmente de uma beleza arrebatadora. Tenho muitas memórias aí e quando necessito de inspiração regresso. “Ceremony” é, aos meus olhos, um álbum sobre a relação entre o humano e a natureza e acredito e que esta floresta influenciou a minha forma de pensar e compor.

Sentes algum tipo de perigo, no sentido em que a especificidade sonora deste álbum acaba por tornar-se numa prisão estética?
Nem pensar! Acredito que este álbum está a escancarar-me novas portas. Não existe algo como prisão estética, desde que sigas o teu coração e intuição.

No Hard Club, Porto, na edição de 2016 do Amplifest, Anna Von Hausswolff fará estremecer-nos as fibras da alma com o poder arrasador que descobriu em “Ceremony” e que transportou para “The Miraculous”. Um concerto obrigatório!

Fotos de Anders Nydam.