As origens de Radio Moscow

As origens de Radio Moscow

Tiago da Bernarda

O feiticeiro dos Radio Moscow, o guitarrista Parker Griggs, fala-nos do início da banda e da sua paixão pelo psicadelismo.

O feiticeiro dos Radio Moscow, Parker Griggs, é um autêntico zelota, um dos guitarristas mais apaixonados e intensos que existe por estes dias. Há algo de Ritchie Blackmore em Griggs, a forma como a construção do seu som o projecta para a frente de cada tema e de como, nos solos, não tem qualquer receio de expor os seus erros técnicos à intensa fúria eléctrica com que a banda o cerca. Há muito egocentrismo na sua exposição com a Stratocaster, mas de uma forma homérica e não narcisista (como recorrentemente acontece com os shredders). No fundo, a sua técnica é submissa ao groove, em detrimento do auto deslumbramento. Isso torna os Radio Moscow um dos tesouros mais bem guardados no universo do rock.

A cena psych rock autêntica desapareceu demasiado depressa e não esteve suficientemente activa. Essencialmente, deu-se entre 1966-69.

Como foi crescer no Iowa a desejar tornares-te um feiticeiro do rock?
Cresci numa cidade muito pequena, Story City, e era um dos únicos miúdos que gostavam mesmo de música e queriam tocar. Por isso, era um pouco pária. Mesmo assim, desde os 12 anos que sempre tive bandas, usualmente conhecia malta de cidades maiores para fazer umas jam. Tive uma banda punk no liceu e tocámos, inclusivamente, num espectáculo de variedades, para descobrir talentos [risos]. Lembro-me de, no liceu, fazer um trabalho sobre bandas garage dos anos 60 e penso que toda a gente me achou um tipo estranho por gostar de música dessa. Também me recordo de ser um dos poucos miúdos com cabelo longo… A bófia local chateava-me um pouco com isso. Quando tentei começar Radio Moscow, mudei-me mesmo para o Colorado, mas não consegui encontrar as pessoas certas com quem tocar e acabei por regressar ao Iowa. Acabei por encontrar o Luke McDuff para baixista e para a bateria recrutei o meu único amigo, o Keith Rich. Ele havia tocado comigo na banda punk que referi. Foi mesmo difícil encontrar pessoas que quisessem tocar este estilo. Foi por isso que, no início, escrevia e gravava todas as partes de bateria e baixo. Durante um tempo, safámo-nos bem a nível local, mas sabíamos que, provavelmente, havia um sítio melhor para estar. Nesse momento, o lineup mais tardio do Iowa, eu com o Paul Marrone [ainda na banda] e o Zach Anderson, mudou-se para o norte da Califórnia.

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Sendo uma celebração de rock psicadélico puro, um género que tem vindo, lentamente, a desaparecer, sentes que os Radio Moscow carregam um fardo pesado?
Sinto que a cena psych rock autêntica desapareceu demasiado depressa e não esteve suficientemente activa. Essencialmente, deu-se entre 1966-69. Penso que foi um período fabuloso na música e criatividade e queria, simplesmente, tocar esse estilo. Apenas tocamos o que adoramos e quando começámos não havia, realmente, outras bandas a fazer algo similar. Na verdade, a partir daí, penso que cresceu um pouco mais no underground. Especialmente em San Diego, onde estamos agora. Há montes de bandas locais a voltar aos velhos sons psych e hard rock.

Após ouvir “Magical Dirt, é agradável ouvir e perceber que vocês não mudaram o vosso som primordial. Nesta altura, ainda precisas de dizer aos teus pais que o rock psicadélico não é apenas uma fase? E aos críticos?
Os meus pais cresceram na era original daquilo que nos influencia, na verdade gostam do que fazemos. Digo muitas vezes ao meu pai sobre discos antigos que ele deve investigar e ele, normalmente, aprecia bastante. A última vez que estive em casa ele estava com o primeiro álbum de Wishbone Ash no máximo. Quanto aos críticos, parece que tem vindo a correr bem. Mas isso não nos preocupa muito… Queremos tocar o que sentimos e divertir-nos.

Há algum instrumento a que te sintas, emocionalmente, mais apegado?
Toco guitarra, baixo e bateria, e aprecio qualquer um. Mas gosto mais de tocar guitarra e bateria. Passo imenso do meu tempo em jam de volta de qualquer um dos dois, não há muitos mais o que fazer em minha casa. Só gear.

A capa de “Magical Dirt” tem uma versão amarela e uma variação azul. É suposto dar um vibe tipo dia e noite? Qual era a ideia?
Simplesmente, gostámos de ambas e não queríamos/conseguíamos escolher apenas uma. Mas também gosto da tua ideia… Faz sentido, com as cores.