AS10, Melhores Álbuns Nacionais em 2016

AS10, Melhores Álbuns Nacionais em 2016

Redacção

Para ignorar, concordar ou detestar. Os dez melhores discos nacionais que ouvimos este ano.

As coisas são o que são e está na hora de mais uma lista de melhores do ano. Felizmente, já é chavão dizer que «este foi um grande ano para a música portuguesa». Mas foi mesmo! Miguel Nicolau fez regressar Memória de Peixe com um disco que confirmou todas as expectativas, temos a sorte de poder listar um músico de elite mundial, como o baterista norte-americano Michael Lauren, que escolheu o nosso país para residir e trabalhar (e sim, o disco é do final de 2015, mas entrou por cá em 2016, como o álbum de sPiLL vai ser editado em 2017, mas estreou na AS também este ano), e ainda músicos de criatividade ímpar que estão na lista assinando par de edições, como André Fernandes ou Fernando Matias.

Entre as várias expressões musicais, do mainstream ao underground, sucedem-se excelentes álbuns na música nacional. Claro, há álbuns que não se destacam e nem presumimos sequer afirmar que ouvimos todos os discos editados este ano. Entre os muitos que tivemos oportunidade de ouvir, para ignorar, concordar ou detestar, esta é a nossa lista dos 10 melhores álbuns nacionais de 2016…

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Desde a abertura, “Supercollider”, Miguel Nicolau e Marco Franco desenvolvem em “Himiko Cloud” uma radioactividade polifónica, multifónica, superfónica, quase cacofónica. Um disco vibrante que cria um mundo nefelibata onde, independentemente da matemática mais rock (“Midnight Hero”) ou mais jazz (“Haverö’s Dream”), há peso e subtileza, extravagância e simplicidade. “Himiko Cloud” é apresentado pela banda como um disco de canções em forma de pequenas bandas-sonoras; desde cavalos mágicos a transportarem aviões, a odes aos videojogos. Um parque de diversões no cosmos, em que as histórias se cruzam e se interligam entre si. E depois o exuberante humor demonstrado em momentos como “(The Mighty Forest Of) Tragic Sans” e a demonstração, tema após tema, de uma criatividade ímpar. Marco Franco divide o protagonismo das seis cordas com uma prestação triunfal de bateria. Capaz de padrões que tanto acompanham a fuga esquizofrénica dos loops de guitarra, como de poder rítmico a solidificar riffs tão marcantes como os que estruturam “Lazeria Maps” ou batidas simples e propulsivas tão pop como “Horsepedia” ou suaves como no lullaby que encerra o álbum, “Herbig – Haro”. No final, “Himiko Cloud” é um álbum cuja espera valeu cada minuto. Para figurar, para lá dos melhores do ano, entre os melhores de sempre da música nacional!

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Em “Bonfim Blues”, original de Michael Lauren, ouvimos de forma bastante clara a generosidade desta lenda do jazz que, numa condução tão sólida quanto livre, se recosta numa execução subtil e aberta às manifestações de destreza de cada um dos músicos, individualmente e de todos no seu recruzar sónico. Aliás, exceptuando Carlos Barretto, cada um dos músicos possui uma composição sua aqui gravada. Mas apesar de Barretto não estar presente como autor, a sua prestação, com “Outras Viagens” como estandarte, é suficiente assinatura no disco. Depois, a ferocidade técnica dos All Stars nunca soa como exibição gratuita e circense, apresentando sempre um charme cujo zénite está registado na soberba “Seven Ties Corp.”, de Hugo Alves. A percorrer todo o álbum está aquela suavidade com que o grupo reunido por Michael Lauren, logo a abrir o disco, parece ilustrar “Minor Strain”, original de Bobby Timmons, como algo feito sem esforço. Mas transpor alma com tal coolness para a impulsividade excitante do lendário pianista nova-iorquino é coisa, de facto de All Stars. Hugo Alves (Trompete), Carlos Barretto (Contrabaixo), Jeffery Davis (Vibrafone), Nuno Ferreira (Guitarra), José Menezes (Saxofone) e Diogo Vida (Piano), soam portentosos a acompanhar a propulsividade poli-rítmica do baterista.

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André Fernandes voa com a guitarra sobre um quarteto vibrante, composto pelos pianos de Alexi Tuomarila (exuberante em “Rabbit Hole” e “Anti Hero”), os saxofones e flautas de Perico Sambeat, a batida de Iago Fernandez e o cúmplice baixo de Demian Cabaud. “Chifre”, com as dobragens de guitarra, clarinete (Paulo Gaspar) e saxofone, abre de forma arrasadora um disco extremamente conciso e musicalmente objectivo. E se o início nos dá uma ideia “Methenyesca”, em “Snakes And Lizzards” já nos descobrimos imersos em fusões rítmicas latinas e ante um sentido rocker bem “Chick Coreano”, com cruzamento de riffs e uma crescente complexidade até um final que parece servir de interlúdio à soberba “Anti-Hero”. “Abarat” e “Dream Keeper” (esta uma composição de Sambeat) revelam bem a capacidade de Fernandes em pegar em ideias simples e desenvolver-lhes uma linguagem jazz aberta a todos. Aliás, este último tema poderia figurar em qualquer respeitável álbum krautrock. E se neste álbum, o compositor até abdicou da presença vocal que faz do anterior “Wonder Wheel” um trabalho de beleza sublime, no final o resultado é o mesmo, “Dream Keeper” é um dos melhores álbuns para as listas de 2016.

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Na sua própria mistura de desert rock com elementos blues, jazz e pop, os Souq descobriram a pólvora. Mas a sua inspiração não bebe apenas da música. A componente cinematográfica deixou uma marca na composição conceptual da banda de Aveiro. Ouvimos perseguições de fazer subir os níveis de adrenalina a partir do trio de sopros, sente-se o reverb meio psicadélico nas pontas dos dedos, e, de alguma forma, consegue-se montar uma narrativa quase noir a partir destas peças bizarras. Logo a partir de “The White Angles & Doll Sqaud” instala-se a descrição do guitarrista Jorge Loura: «Na minha cabeça, era uma coisa muito estranha. Uma mistura de Captain Beefheart com Frank Zappa, com Pantera, com… Fosse o que fosse! Nunca houve uma ideia concreta do que iria sair dali, mas sabia que ia ser uma coisa “polifónica”. Muitas vozes, muito contraponto e muitas possibilidades em aberto». Álbum com um tremendo backslap de bateria e baixo, num som gigante e extravagante (“The Bishop & The King”) pejado de riffs titânicos (“Penglai Tower”, “M.A.S.K.”). E se, por exemplo, o single “Dynamite Sisters” ou “Jillucia” nos remete para Tool, o funk de “Duel” é uma bomba com uma assinatura sónica singular. Discão!

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O primeiro parágrafo de apresentação do álbum de Cut Slack diz que “Lovers On The Line” «remete-nos para o passado, presente e futuro… São 13 faixas de nostalgia futurista, de produção apurada, com “ambientes” que relembram Prince ou Fleetwood Mac». A essas referências devemos acrescentar o tremendo balanço e groove dos beats, tal como o imenso corpo de graves da sintetização. E a solidificar tudo, sempre lá no fundo, sente-se uma alma bem Motown! “Lovers On The Line” é cativante pela forma como soa directo e imediato, como consegue ser “orelhudo” e como até um pouco de azeite dá mais sabor ao álbum – ouça-se o solo de guitarra logo em “Kickstart” ou o solo de saxofone em “Walking Away”. Isto para nem falar daquele açúcar à Wham! que se escuta em “Fill Me” ou “Grand Canal”, por exemplo. “How I Feel About U”, sem ponta de nacionalismo brega, estaria como leading single em qualquer coisa de MGMT. Tudo num álbum que não tem canções que se destaquem excessivamente de outras, antes se ouve de uma ponta à outra. E se o Johnny Jewel pode ser um “synthimentalão” com os 80s, porque não pode o Fred, que nos lembra neste disco quão divertida pode ser a música, sê-lo também?

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Negro e luminoso, opressivo e catártico. Desde o primeiro álbum (homónimo), nada nos Sinistro é feito para ser exuberante individualmente, portanto a banda soa massiva e orgânica na soma das partes, o que torna “Semente” um álbum carregado de poder e dramatismo no balanço entre o tremendo corpo e ambiente instrumental e a voz de Patrícia Andrade. Aliás, “Semente” possui uma produção sonora exímia, na qual os efeitos e sintetização (e até programações, como no tema título) não subtraem dimensão à parede de amplificação. O metodismo de construção melódica e dinâmica (com o zénite em “Estrada”) vai além das tendências do mundo moderno da fusão do post, com o doom e o sludge, procurando, efectivamente o sentido de canção, em vez duma mera busca por “peso” que, todavia, não deixa de ser constante no álbum, mesmo em momentos new wave como “Reliquia”. Assim, o grande triunfo de “Semente” é a elegância das composições, a sua violência e esquizofrenia charmosa. O álbum é encerrado de forma esmagadora, com o riff megalítico no final de “Fragmento”.

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Guitarras cheias de twang, baterias demolidoras e a novidade da voz de Sara Badalo, carregada de poder eloquente, frenética e provocante, assumindo despudorada o protagonismo como frontwoman da banda. Há canções de teor experimental, cruzando estruturas rítmicas complexas e oscilações de intensidade. E há canções que são simples porrada rock. André Fernandes não faz qualquer questão de negar Queens Of The Stone Age como uma referência nas composições de “Super Sexy Fight Songs”. Em “Break Up Song”, ritmicamente, surgem as primeiras pistas disso. Contudo, as raízes jazz dos músicos acrescentam um factor de diferenciação e divergência aos sPiLL, a banda soa com sofisticação em vez de irascível. Mas em “Homme” está tudo às claras (o título inclusive, obviamente). Um instrumental carregado de peso e propulsão, com o corpo sonoro da guitarra colado ao de “Songs For the Deaf”. É em “All The Little Things” que se dá o cruzamento e congregação de todas as personalidades e correntes estéticas na base dos sPiLL e do disco. Espontaneidade jazz, verticalidade electrónica e agressividade rocker.

 

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Em “Sonic Debris”, os Miss Lava têm, finalmente, um disco com um corpo sonoro e um peso temíveis. Além do paredão sonoro, a banda soa regenerada… Redimensionada. É certo que Kyuss permanece a divindade maior diante da qual os Miss Lava se prostram, mas aqui e ali vai surgindo o maior balanceamento de uns Clutch, por exemplo. Além disso, “Sonic Debris” tem um carácter muito mais atmosférico que os trabalhos anteriores, ao mesmo tempo que revela um maior desenvolvimento nos arranjos, redimensionando as composições da banda. Logo a abrir, “Another Beast Is Born” chega a ser épico. Há maior amplitude vocal, com um trabalho cuidado de background vocals, e mais cores no processamento sonoro dos instrumentos que criam maior diversidade de ambientes, inclusive acústicos mescalinos como “In A Sonic We Shall Burn”. Os riffs continuam directos e simples mas, com maior interacção entre a guitarra e a secção rítmica, algo perfeitamente ilustrado em “Symptomatic”, advém uma coesão que permite ao quarteto “segurar”, além dos momentos de velocidade (“The Silent Ghost Of Doom”) em que sempre se destacou, midtempos como a grungy “Pilgrims Of Decay”. Tudo isto traduz-se em maior dinâmica e no melhor álbum dos Miss Lava.

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A parceria entre Ricardo Martins e Rui Carvalho daria uma bela adaptação de “Papuça e Dentuça”. Duas crias que brincaram na mesma fazenda, – o hardcore – e que seguiram caminhos divergentes. Rui, aka Filho da Mãe, tornou-se lobo solitário que divaga pela folk com indícios devotional harmoniosos. Já Ricardo manteve-se colado ao hardcore e derivados como um dos percussionistas mais prolíferos em Portugal dentro do género (pense-se Adorno, Papaya, Lobster, Cangarra e afins). O resultado não é tanto uma reconciliação de ideias como é uma coreografia confrontante entre dois pesos pesados. Esta dança que ambos fazem joga perfeitamente com os pontos fortes de ambos. Neste caso, Filho da Mãe, pintor de paisagens, invocador nato de natureza, apresenta-nos uma ideia, uma imagem. Ricardo, na outra ponta, porta uma força antagónica que desfragmenta, reconstrói e abstratiza o quadro. Fica-nos esta pequena obra de arte, com uma duração de pouco mais de meia hora, com um traço quase invisível que impede de perceber a delineação do que é meticulosamente orquestrado e o que é o resultado de improvisações pós-jantaradas prolongadas entre os dois.

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Cerebralmente desenvolvido para prender a atenção do ouvinte a um disco maquinalmente orgânico. Não há baterias ou riffs de guitarra, mas através de programações e densidade de sintetização, no seu primeiro álbum a solo, a mente electrónica de Ricardo Remédio remete-nos para uma atmosfera familiar à de “Älma”, dos Löbo. No decurso de “Natureza Morta” os modos de paisagismo sónico de John Carpenter são evocados, com a produção de Daniel Sullivan a sobrecarregá-los com mais sombras. O zénite do álbum é “Caça”, que nos transporta para a sofisticação sci-fi da banda-sonora de “Blade Runner”. A cadência repetitiva, os anti-crescendos e a própria sintetização de “Natureza Morta” desenvolvem dinâmicas estranhas e, simultaneamente, cativantes.