Os Xutos & Pontapés à Maneira de Ana Ventura

Os Xutos & Pontapés à Maneira de Ana Ventura

Nero

A autobiografia dos Xutos é a resposta da jornalista Ana Ventura a um desafio do Zé Pedro. Os dois volumes de “À Minha Maneira” são um precioso documento histórico para fãs da banda e da música nacional, particularmente do rock luso. A autora conversou connosco sobre como foi colocar em livro os testemunhos, sem filtros, da carreira dos músicos e do percurso de vida dos homens.

“À Minha Maneira” é a autobiografia dos Xutos & Pontapés. Pela primeira vez, os cinco músicos contam, na primeira pessoa, as histórias que os tornaram a mais importante instituição do rock português. Em discurso directo com a jornalista Ana Teresa Ventura, Gui, João Cabeleira, Kalú, Tim e Zé Pedro traçam o seu percurso mas também descrevem o país onde cresceram, que os moldou e tornou um ímpar caso de sucesso.

Tudo isto faz desta obra um testemunho histórico da cultura musical contemporânea em Portugal. “À Minha Maneira Vol. I – 1979-1999”, lançado em Outubro de 2019, marcou o arranque desta obra. Um ano depois, surge “À Minha Maneira Vol. II – 2000-2020”. E se no primeiro volume se narrava a escalada rumo ao sucesso, no segundo assiste-se à consagração da banda, começando nas comemorações dos 20 anos de carreira e caminhando rumo a uma aventura que, há muito, se tornou inigualável.

Esta é a história dos Xutos & Pontapés, com todos os altos e baixos, as derrotas e as conquistas, o passado e o presente, com os olhos postos no futuro. Há muitos risos e outras tantas lágrimas, há momentos nunca antes contados e há acontecimentos que vão ficar, para sempre, guardados na memória do que é ser Portugal – e há as canções, aquelas que se tornaram património de uma cultura e de um país. Em discurso directo, porque é assim que as melhores vidas se tornam lenda.

A autora, com currículo no Blitz, naqueles tempos em que todos líamos religiosamente o jornal às 3ças, no M de Música e na SIC, entre outros, conversou com a AS sobre os livros.

O melhor é sempre começar pelo início, mas aqui o início está revestido, de alguma forma, de fim. Tendo isto nascido de conversas com o Zé Pedro, ele chegou ainda a ver manuscritos?
Nos dois volumes segui, mais ou menos, o mesmo processo. Que foi: à medida que ia tendo capítulos prontos ia-lhes entregando, para eles irem lendo. Portanto, o primeiro volume, o Zé Pedro leu-o praticamente todo. E, curiosamente, leu e guardou o manuscrito e a mulher dele continua a tê-lo. Ainda no outro dia nós estávamos a falar e ela dizia-me que ainda tinha em casa as coisas todas do primeiro volume. Há algumas declarações, ainda do Zé Pedro, no primeiro volume, que ele já não leu em livro, porque não as tinha acabado quando o perdemos fisicamente, mas de resto…

E depois, a morte dele determinou muita coisa?
A morte do Zé acabou por catapultar a edição do primeiro volume, isto porque para este “À Minha Maneira” existir, a ideia teve que vir do Zé Pedro. Porém para que estes volumes do “À Minha Maneira” efectivamente chegassem aos escaparates, digamos assim, foi preciso o empurrão final do Kalú. Primeiro, no velório do Zé Pedro, o Kalú diz-me: «Então agora é que o livro não sai…». E um ano depois, quando foi a missa do primeiro aniversário da morte do Zé, o Kalú vem, outra vez, falar comigo e dizer-me: «Já viste? São as últimas declarações do Zé, ainda nunca ninguém leu aquilo e temos aqui um tesouro tão importante». E aí pensei que, efectivamente, o Kalú tinha toda a razão. Já tinha havido um grande investimento, não só por parte deles os cinco, mas meu também, na concretização daquele que depois viria a ser o primeiro volume. E depois foi muito rápido. Porque o primeiro volume estava basicamente construído na altura em que o Zé desapareceu. Para o segundo volume… Achava que isto seria um só volume. Aí foram determinantes o Kalú e o Tim, sobretudo, que me chamaram à Terra, e disseram: «lsto não vai ser ‘fazível’ num só volume, portanto vamos dividir em dois e fazemos 20 anos/20 anos, em cada um».

Mas no segundo já não tínhamos connosco o Zé…
Era a grande dificuldade para este volume que editámos agora. É que, efectivamente, já não tinha qualquer tipo de declaração do Zé em relação a este período; e uma coisa que os 4 Xutos e eu, portanto, os cinco autores, queríamos era que o Zé Pedro se mantivesse no diálogo, exactamente como estava no primeiro volume. Passei dois meses na Hemeroteca de Lisboa, a ver tudo o que foram entrevistas de imprensa. A maioria das publicações em Portugal não tem os seus arquivos em formato PDF. Teve que ser à unha, para ver tudo o que eram entrevistas de imprensa dele e depois fiz também a pesquisa em rádios e televisões e aí transcrevi algumas declarações. Então tens o Zé Pedro em total diálogo neste segundo volume. A única diferença é que a cada entrada do Zé, a seguir está não só o orgão de comunicação social, ao qual ele deu a declaração, mas também a data daquelas entrevistas, para que os meus pares que receberam aquelas declarações estejam lá também. Curiosamente, houve determinadas declarações do Zé Pedro que encontrei e que me guiaram para as entrevistas com os restantes que, à partida, não estava a pensar em abordar. Dou-te um exemplo muito específico: há um capítulo em que se fala muito da evolução das auto-estradas e das infra-estruturas em Portugal e, isso, por exemplo, foi uma ideia que me surgiu depois de ver uma entrevista do Zé.  Portanto, aquilo que à partida poderia parecer uma dificuldade, se calhar acabou por dar uma abrangência ainda maior ao livro.

Conseguiste ainda falar com o Zé Leonel ou o projecto arrancou já depois dele ter morrido?
O Zé Leonel é, evidentemente, muito referido. A sua morte também é referida no livro e é uma parte importante deste segundo volume, porque é, digamos assim, a primeira perda de músico. Aliás este segundo volume tem três perdas importantes: a Marta Ferreira (um capítulo dedicado à Marta); depois a perda do Zé Leonel, onde eles próprios referem até o estado em que estavam as relações, até ao ponto em que ele morre; e a perda do Zé Pedro. Mas a ideia nos dois volumes era ter apenas os Xutos actuais a falar ou já não seria uma auto-biografia. Repara, nem eu falo no livro. A única pessoa que fala no livro, além dos Xutos, e é neste segundo volume, é a Cristina. São dois depoimentos da mulher do Zé Pedro, a explicar dois momentos importantes que ele passou nestes 20 anos e que achei importante ser ela a contar, porque os próprios Xutos não tinham estado com ele.

Na primeira metade temos os Xutos em modo Mötley Crüe e nos últimos 20 anos a carreira mais pausada, há menos álbuns também. Isso teve influência na escrita?
Tens bastante razão naquilo que dizes. O primeiro, de facto, são os Xutos quase em versão Mötley Crüe. Tens ali não só a concretização da banda, a chegada da banda aos primeiros discos, o sucesso, aquelas dificuldades que dão alguma cor às histórias das bandas, o manager que lhes roubou dinheiro e os seis meses que estiveram sem falar uns com os outros e as drogas e o álcool. Todas essas coisas estão no primeiro volume. Depois, o segundo volume, e é isso que acho que torna este volume o meu preferido, já não tem só os cinco músicos, os álbuns e essas coisas todas, mas tens os cinco homens. Tens a vida desses cinco homens e compreendes que, além de cada um deles ser um elemento dos Xutos & Pontapés, também são filhos, também são pais, amigos, são maridos com todas essas dificuldades, nomeadamente as dificuldades entre eles, de amizades entre eles e acho que isso acaba por dar uma cor maior a este volume.

Eles sabiam que eram eles que estavam a contar a sua história

És fã da autobiografia dos Mötley Crüe, do Slash. Nessas e das estrelas rock no geral, há muito a procura do excesso, do escândalo. Em que obras te inspiraste para esta empreitada?
Em primeiro lugar, basicamente 98% dos livros que leio são biografias e o que, efectivamente, prefiro são autobiografias. Era isso que queria fazer. Convenhamos, o dos Mötley Crüe, eles são aquilo. Se tivesses um livro que não fosse como o “Dirt”, não dava, tinha de ser aquilo. No do Slash tens muita javardice, mas tens ali um lado soft. Tens de aplicar esses princípios, que lemos nessas biografias desse tipo de estrelas, a cada uma das realidades. A realidade portuguesa não é a mesma. Para a realidade portuguesa e dos Xutos, até acho que eles se revelam bastante. É importante pensarmos que o Zé Pedro casou uma vez e foi só em 2011. O Zé Pedro, ao longo do livro, vai falando das suas namoradas, claro que sim, ele teve uma relação durante muito tempo com outra rocker e toda a gente sabia, é uma relação pública e essa relação, por exemplo, é relação abordada. Aliás, o Zé Pedro acaba por ser o que tem o percurso com mais excessos. A certa altura, o próprio Zé diz que até 2001 a vida dele era sexo drogas e rock ‘n’ roll e a partir dali as drogas tinham ficado para trás, o rock mantinha-se e o sexo tinha sido substituído por amor. Mas se formos pensar… O Gui e o Tim estão casados desde meados da década de 80; o João é o único que já foi casado várias vezes, porque o Kalú também está há mais de 20 anos casado com a segunda mulher; depois, claro que tens os percursos das drogas, que são todos completamente assumidos no livro. As situações mais graves são as do Zé Pedro e do João e são completamente assumidas. Não me senti melindrada por lhes fazer determinadas perguntas, por exemplo, por ser muito mais nova do que eles, eles são todos quase 20 anos mais velhos, mesmo em termos geracionais há uma diferença grande. Mas não senti isso, nem por ser de um género diferente do deles, nem por ser mais nova e isso é uma coisa que se nota do primeiro para o segundo volume, em que eles estão muito mais soltos. Facilitou muito isto estar desde logo assumido como uma autobiografia. Eles sabiam que eram eles que estavam a contar a sua história e, eventualmente, podem ter decidido que histórias suas é que queriam contar. Mas acho que sabiam que eram eles que estavam a contar as suas próprias histórias.

Para os músicos e para a malta do gear, mergulhaste nessa vertente?
Uma das coisas que tentei fazer num dos capítulos, foi uma narração um bocadinho mais explicativa de como é o funcionamento dos Xutos em estúdio, todos esses passos. Escolhi um dos álbuns que acabou por marcar estas duas décadas, aquele que acabou por dar origem ao concerto no estádio do Restelo, o homónimo “Xutos e Pontapés”. Acompanhámos os vários passos da concretização desse disco. Desde a fase da sala de ensaios, onde as canções começam a ser construídas, em que aparecem os primeiros riffs ou as primeiras ideias, depois as letras, depois a pré-produção e depois a própria produção. Como é que eles trabalham com o produtor, o João Martins, que ainda hoje é o produtor deles, mas foi esse o primeiro disco de originais que produziu. O que é que eles procuram em estúdio, como é que depois é a parte das misturas… Eventualmente, para aqueles que gostam do que os Xutos são em palco, essa parte poderá ser um bocadinho mais maçuda. Mas achei que era importante que o público em geral compreendesse que aquilo que vemos no palco não aparece “assim”. Implica muito trabalho e queria que as pessoas percebessem o tipo de trabalho que existia. Tens, por exemplo, o João a explicar como é que os solos dele começam. Algumas curiosidades que até eu fiquei surpreendida na forma como as coisas surgem.

Surpreendida por achares que era um processo menos ou mais teórico?
Não. Por achar que havia um processo e afinal não há exactamente. Uma das coisas mais deliciosas, para mim, foi saber que, depois de gravarem um álbum, seja que álbum for, o João tem que ir para casa ouvir o disco, para aprender os seus próprios solos. Achava que as coisas quando… Sabes, pensei que fosse tudo trabalhado milimetricamente, mas não. Aquilo sai. Ele está no estúdio e vai fazendo isto, vai fazendo aquilo. Isto soa bem, isto se calhar não soa bem. Ah! Isto soa bem, então está fixe, está gravado. E depois ele tem de ir para casa ouvir os solos para os poder replicar ao vivo. Depois em termos de concerto, se calhar o melhor exemplo é o do estádio do Restelo, porque é o maior concerto da carreira dos Xutos, também tens muito essa parte técnica. Tens todo o processo de construção do concerto, onde é que eles foram ver o palco que queriam trazer para Portugal, toda a logística necessária, os muitos camiões TIR para trazer o palco e tudo o resto, o que eles tiveram de mudar no estádio do Restelo, porque a grua que sustentava o palco não se adequava. Tentei ter essa parte, porque enquanto público, na maioria das vezes, não temos noção disso.

Os próprios Xutos, e eles dizem-no sem quaisquer problemas, a partir de uma determinada altura já tinham atingido um estatuto em Portugal que não poderiam ter se fossem tentar lá fora.

Sem spoilers. Abordas a eterna questão da internacionalização?
É abordada sobretudo no primeiro volume, porque as primeiras tentativas grandes que os Xutos fazem em termos de internacionalização são no final dos anos 80/início dos anos 90, com muitos concertos em Espanha e em França; muitos concertos com os Mão Negra e assim… Muito rapidamente, os próprios Xutos, e eles dizem-no sem quaisquer problemas, a partir de uma determinada altura já tinham atingido um estatuto em Portugal que não poderiam ter se fossem tentar lá fora. E também têm muito a noção que o tipo de rock que fazem, um rock cantado em português que tem reflexo e consumidores em Portugal. O estatuto a que os Xutos chegaram cá é tão único que eles assumiram: «Para quê?” Para quê metermo-nos agora numas carrinhas mal amanhadas, para irmos tocar a uns clubes mal amanhados, outra vez, quando em Portugal temos todas as condições para fazer grandes concertos e com boas condições». Porque eles passaram por isso tudo em Portugal quando estavam a começar. Por exemplo, esse é um momento que é abordado neste segundo volume, em 2011 e 2012 os Xutos fizeram uma parceria com os Titãs. Em 2011 são os Xutos que vão ao Rock in Rio no Rio, participar no concerto dos Titãs. Em 2012 vêm os Titãs a Portugal. É evidente que esses concertos tiveram muito público lá e cá, mas porque o público dos Titãs no Rio foi ver os Xutos também e vice-versa. Se fosses ver um concerto em Portugal só dos Titãs não estava o mesmo número de pessoas e os Xutos já tinham tocado no Rio de Janeiro, sem ser com os Titãs, e não estava o mesmo número de pessoas.  E são bandas muito semelhantes; da mesma geração, com o mesmo tipo de rock, o mesmo tipo de mensagem.

Qual foi a maior dificuldade que tiveste para concretizar o trabalho?
Tive muitas dificuldades para concretizar o tal primeiro. Como jornalista, precisas de um deadline. Quando não tens um vais sempre colocando outras coisas à frente. Ou te aparece outro projecto e o livro fica para trás, ou porque eles estão a fazer um disco e o livro fica para trás, ou porque saiu outro livro deles e o livro fica para trás. Então adiava-se e adiava-se, porque metia-se a vida deles, a minha vida, metia-se tudo. Por isso digo que teve que ser a tal pergunta do Kalú, para me dar o empurrão final. Para o segundo volume foi tudo muito fácil e acabou por se tornar ainda mais fácil num aspecto: quando editámos o primeiro, no final do ano passado, comprometemo-nos que este ano sairia o segundo. Tinha a indicação por parte da editora de que, no início do mês de Setembro, o livro tinha de ser entregue. Isso fazia com que tivéssemos cerca de nove meses para o fazer. Todos eles “torceram um bocadinho o nariz”, acharam que não seria possível, e eu tinha alguma dúvidas também. Então fomos “bafejados” por uma coisa chamada coronavírus, que nos obrigou a parar e tudo se alinhou. Fui para a Hemeroteca em Janeiro e Fevereiro. Tudo aquilo que implicava ser feito fora, quando chegámos ao confinamento, já tinha tudo feito. Já tinha feito algumas entrevistas na viragem do ano, mas muito pouca coisa. Mas depois eles estavam em casa e eu estava em casa, eles não davam concertos, não podiam fazer nada. A quarentena acabou por nos ajudar.

Muito bem. Para terminar, qual é o teu álbum favorito dos Xutos?
É o “Cerco”, por todas as razões. Primeiro porque é um disco de luta, é um disco que, para eles, foi muito difícil de gravar. Eles gravam o álbum em condições tão más, tão más, que a primeira vez que o Kalú o ouve, atira-o pela janela. Tal não é a relação que a própria banda tem com o disco, ao ponto de, em 2008, terem voltado a gravar as canções, por considerarem que as canções eram demasiado importantes para estarem apenas registadas em más condições. Acabam por regravá-lo e depois adicionam-lhe mais quatro temas e editam como “O Cerco Continua”. Aquelas canções, para mim, as seis canções que fazem parte do “Cerco”, são particularmente incríveis porque estamos a falar de um álbum que saiu em ’85 e que ainda hoje tem actualidade. Uma canção como “Barcos Gregos” podia ter sido escrita hoje. O “Homem do Leme” é desse disco, o “Conta-me Histórias” é desse disco… Se quisesses mostrar a alguém que nunca tivesse ouvido falar dos Xutos & Pontapés, quem é que eles são, tinhas no “Cerco” todas as premissas da denúncia e da intervenção social, mas depois também tens o lado do amor.

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