Bowie. As lições da trilogia de Berlim

Bowie. As lições da trilogia de Berlim

Tiago da Bernarda

No dia de lançamento de “Blackstar”, a celebrada colaboração com Eno ainda se faz ressoar.

Na eterna discussão de café sobre quem foi o primeiro punk, há sempre alguém que enfia o nome de David Bowie dentro do saco. Não confessando nem desmentido que possa ser eu essa pessoa, o argumento comum é a sua postura perpétua de anti-estrela, “Blackstar” por assim dizer, a sua necessidade de reconstrução, dos heterónimos, da cultura de choque sempre com aquele toque pessoal cósmico e dançante que se faz ressoar pela sua discografia.

Mas mesmo encontrando um ponto comum entre todos os seus discos, há uma certa importância na trilogia de Berlim, os três álbuns que Bowie lançou, em parceria com Brian Eno e Tony Visconti.

Não de uma perspectiva crítica. Isoladamente, até se pode dizer que “Low” estaria no pódio de melhores álbuns de Bowie, enquanto “Heroes” e “Lodger” ficariam algures no meio. Fala-se antes de um ponto crucial na sua vida que acaba por, de certa forma, deixar um cunho genuíno na sua música.

Ashes to Ashes, funk to funky / We know Major Tom’s a junkie / Strung out on heaven’s high / Hitting an all-time low

A “Ashes to Ashes”, do álbum “Scary Monsters” (and Super Creeps)”, precede a sua colaboração com Eno mas retrata a condição de vida do artista em 1976. Com dez álbuns no bolso e alguns singles importantes lançados, grande parte reeditado na recente colectânea “Five Years 1969-1973”, a fama já era imensa, mas musicalmente o camaleão tinha estagnado.

Muito se deve ao seu estilo de vida boémio e auto-destrutivo que nutria em Los Angeles. Independentemente se decidisse mudar de visual, Bowie tinha atingido, por falta de melhores palavras, “a new low”.

A decisão de sair daquela “cidade tóxica” e mudar-se para a Europa, em 1977, foi uma tentativa desesperada de redescobrir-se, não como músico, mas como pessoa. Escolheu viver num bairro étnico, por cima de uma loja de partes de automóveis, onde pôde experienciar algum anonimato e um estilo de vida mais modesto. Eno e Visconti juntaram-se a ele e, durante um tempo, Iggy Pop, que por sua vez tinha o seus problemas com drogas, também.

O primeiro álbum a sair dessa colaboração foi “Low” que ainda com vestígios do seu pop estupefaciente, era bastante mais sóbrio e ambiental, pesado no free jazz, com algumas nesgas de krautrock. O próprio confessou em entrevista que se tratava de um álbum que o ajudou a ver a vida de uma nova forma.

Mas não deixa de ser um álbum espontâneo. Eno com o seu sintetizador EMS Synthi A, Visconti com um Eventide Harmonizer para alterar a percussão, conseguiram transformar o cosmos de Bowie em algo menos Arthur C. Clarke para algo mais Carl Sagan. E apesar de explorarem caminhos pouco explorados dentro da sua discografia, “Low” é o resultado de muita improvisação em que grande parte das faixas foram gravadas no primeiro take. Eno confessou até que voltaram a fazer novos takes mas que «não soavam tão bem como o primeiro».

“Heroes”, apesar de portar alguma espontaneidade, já foi um pouco mais calculado. Isto é, grande parte das músicas já tinham sido compostas , contando também com a ajuda em estúdio de Robert Fripp, dos King Crimson, na guitarra. Reflectem, de alguma forma, a vida de Bowie pré-Berlim. O próprio single homónimo não foi um êxito imediato. Era um single dedicado a um casal que viram encostado no muro de Berlim. Mais tarde, veio-se a saber que esse casal era Visconti e uma rapariga alemã com quem namorava na altura.

Foi, segundo Eno, a fase em que Bowie, de uma forma quase reabilitativa, se mostrava mais dedicado em estúdio.  Surpreendia-se até como chegava a casa às seis da manhã, punha um ovo cru à boca e regressava ao trabalho. Aquele ovo dava-lhe para o dia todo. E no final, saíram trabalhos que fogem às colectâneas de grandes êxitos mas cuja importância é indiscutível.

“Lodger” só saiu anos depois, já Bowie tinha andado em digressão pelo mundo com “Low” e “Heroes”. Foi um álbum que Visconti considerou «não tão bem conseguido». Foi a despedida agridoce a Berlim, já Bowie tinha uma mentalidade diferente, de volta a velhos hábitos, deixando de lado os extensos instrumentais e rendido à cena New Wave.

Mas foi durante aqueles dois anos em que vivia por cima de uma loja de partes de automóveis, que o camaleão se rendeu ao seu lado mais humano.