Camões, Um Possível Itinerário Musical

Camões, Um Possível Itinerário Musical

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Columbano Bordalo Pinheiro

No dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebramos o dia da morte de Luís Vaz De Camões. Propomos ilustrar o ambiente musical da sua época e especular um roteiro possível da música com que, nas suas viagens, terá convivido. A nossa homenagem ao génio poético de Camões.

A sua vida não se compadece da precisão factual da história. A grande maioria dos seus dados biográficos não pode ser confirmada. Nasceu por volta do ano de 1524 e a tradição romanceada descreve-nos a alma livre de estudante indisciplinado e um dedicado boémio, o próprio se confessa inflamado paixões e fúrias tão ferozes como fugazes, «em várias flamas variamente ardia».

Entre excessos que o conduziam amiúde aos calabouços de Lisboa, quiçá insuflado por um lírico sentido heróico, fez-se soldado e rumou ao Oriente – numa mão a pena e na outra a espada – de onde regressou para escrever a epopeia portuguesa.

E que música ouvia Luís Vaz de Camões? Sem qualquer pretensão de academismo histórico, apenas para celebrar o poeta, apresentamos um possível ambiente musical a que Camões esteve exposto. Os principais compositores portugueses de música renascentista produziram principalmente peças de música sacra. Foi um período fértil na composição musical no nosso país, reflexo da pujança económica e cultural dos reinados de Dom Manuel I e Dom João III.

Muitos destes compositores foram contemporâneos de Luís Vaz de Camões que, certamente, foi exposto ambientes musicais além das canções brejeiras de marinheiros e soldados. Imaginando que a sua sensibilidade poética seria alargada a outras artes, seria um atento ouvinte da solenidade da música sacra e palaciana do Ocidente? Teria sido cativado pelo exotismo dos sons do Oriente? Que melodias o animavam nas noites de folia, de Lisboa à Índia?

Imaginamos o poeta na sua juventude a cortejar donzelas ao som de canções como “Pássame, Por Dios, Barquero”, composição de Pedro de Escobar, um dos maiores nomes da polifonia Ibérica. Autor de peças sublimes, como o primeiro Requiem escrito por um ibérico, o compositor entrou em decadência, numa espiral de alcoolismo e pobreza, até morrer em Évora.

A ars nova, antecedente da polifonia, vinda da França do século XIV ainda vigoraria nas formas profanas da ballata e, principalmente, do madrigal, o canto popular libertino que evocava o amor, a natureza e o mundo e os heróis do povo.

De Espanha vinha um crescente repertório para a viola de mão, aliás, o castelhano Luis de Milán, em 1536, viria mesmo a compilar uma colecção de composições no Libro de música de vihuela de mano intitulado El maestro, que ofereceu a Dom João III, Rei de Portugal.

Nos seus erráticos estudos, poderá ter focado a atenção pelas obras contemplativas do venerável Heliodoro de Paiva. Nascido em Lisboa, Heliodoro de Paiva fez-se monge no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, tornando-se filósofo, teólogo, notável classicista e um exímio compositor e multi-instrumentista, destacou-se nas obras para teclas ou órgão e o seu trabalho tornou-se referência para António Carreira, que viria a tornar-se Mestre da Capela Real e cuja música Camões terá ouvido quando, tendo finalizado “Os Lusíadas”, passou a frequentar a corte de D. Sebastião, depois de regressar da Índia.

Nas suas viagens e no Oriente, numa geografia e cronologia menos precisas, podemos imaginar a reacção a sons e estruturas musicais. O fascínio por algo totalmente novo para si, tão distinto da música ocidental, mas impelido pela mesma vontade de contemplação religiosa. Como os mantras dos Vedas, os antigos textos sagrados hindu escritos um milénio antes de Cristo, cuja música foi passada oralmente, de geração em geração, sem registos teóricos de escalas, ritmo ou instrumentos.

Hoje em dia ouvimos, para dar um exemplo bem radical, o post doom dos Om a buscar essas raízes e o fascínio que continuam a exercer no mundo ocidental e podemos pensar no impacto que tiveram em Camões, ouvindo esses sons pela primeira vez…

Talvez tenha escutado já a influência do islamismo e da música sufi nessas terras? De regresso à pátria, passou por Moçambique, onde retocou “Os Lusíadas”. Terá sido a pujança narrativa inspirada ao ouvir a visceralidade rítmica de percussões tribais, dessa essência espiritual do groove? Navegando ao longo da costa norte-africana teria ainda ouvido o tradicional gnawa marroquino, cujos sons chegaram a inspirar Robert Plant e Jimmy Page.

Arriscando o disparate excessivo, lá bem no fundo, Camões poderia não vir a ser um admirador dos Led Zeppelin, mas é bem possível que tenha tido contacto com esta sonoridade cordofónica que, séculos depois atravessaria o Atlântico para ser uma das fontes de transmutação do blues e do rock ‘n’ roll!

Camões haveria de regressar a Lisboa, como referido, com o favor do rei (expresso numa pensão anual de, diz-se, uns 15 mil réis) e terminar os seus dias para os lados do Convento de Sant’Anna, onde hoje, na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, se atarefam estudantes, espera-se, mais determinados que o Poeta de Portugal.

Ali, no fim dos seus dias, frequentando alguma missa em busca de aconchego de alma, terá escutado obras vindas de Coimbra, assinadas pelo emergente polifonista Pedro de Cristo.