Charlie Watts, O Baterista que Nunca Dobrava a Tarola com os Pratos de Choque

Charlie Watts, O Baterista que Nunca Dobrava a Tarola com os Pratos de Choque

Nuno Sarafa

Tranquilo, consistente, simples e eficaz, fiel à sua Gretsch, assim era Charlie Watts. O baterista que nunca dobrava a tarola com os pratos de choque.

Charles Robert Watts nasceu a 2 de Junho de 1941, em Bloomsbury, Londres. Filho de Charles Richard Watts e de Lillian Charlote, a primeira paixão de Charlie foi o jazz, logo aos 10 anos de idade. Recebeu a primeira bateria com 14 e não mais parou de tocar, tendo aprendido não pela via do ensino formal, mas antes a ver grandes bateristas de jazz em clubes nocturnos de Londres.

Depois de terminar a faculdade, Charlie trabalhava como designer gráfico, mas o seu amor era, obviamente, outro. Iniciou a sua viagem musical ao lado do amigo de infância e contrabaixista Dave Green, numa banda que dava pelo nome de Jo Jones All Stars.

Até que em 1962 tudo mudaria na vida de Watts. Passou a fazer parte dos Blues Incorporated e entretanto conheceu Brian Jones, Ian Stewart, Mick Jagger e Keith Richards, que haviam fundado, nesse mesmo ano, uma banda chamada Rolling Stones. Em 1963, Watts tornava-se o terceiro e último baterista do grupo, sucedendo a Carlo Little e Tony Chapman, que tiveram passagens curtas pela banda britânica.

Tal como Keith Richards e Mick Jagger, Watts tocou em todos os 25 álbuns dos Rolling Stones, banda cuja história se confunde com o homem atrás do kit, que foi, sem dúvida, pedra fundamental para o equilíbrio e para a longevidade da banda londrina.

Ao contrário de contemporâneos como John Bonham ou Keith Moon, Charlie Watts sempre foi um baterista muito discreto, não deixando por isso de ser uma verdadeira âncora para a sua banda ao longo da sua incomparável carreira de 58 anos.

Calmo, consistente, sem espalhafatos, sem recurso a grandes drum rolls ou fills de perder de vista, Watts tinha um groove muito próprio, utilizava os pratos com inteligência e mestria e tinha uma particularidade interessante: nunca dobrava a tarola com os pratos de choque. Este pormenor, de tocar uma peça de cada vez, sem atropelos, conferia-lhe um estilo único e peculiar e era determinante para o som que sacava, principalmente da tarola.

Charlie Watts era portanto um baterista sólido (como uma pedra) e cujo amor pelo jazz influenciou sobremaneira a sua forma de tocar. Não é por isso de estranhar que Watts tenha integrado uma banda de boogie-woogie, os Rocket 88, ao lado de Ian Stewart, no final dos anos 1970, e editado ainda uma série de álbuns com o seu Charlie Watts Quintet, entre 1986 e 1996, assim como “The Magic of Boogie Woogie”, do projecto The ABC&D of Boogie Woogie, em 2010.

FIDELIDADE À SUA GRETSCH

Em praticamente toda a carreira com os Rolling Stones, Watts utilizou uma Gretsch Round Badge Natural Maple de 1957. «Para o resto das minhas coisas de jazz uso um kit do mesmo modelo, mas de 1960, preto e mais pequeno. Chamo-lhe Tony Williams. É o kit que Tony usou. Era o seu kit de bateria de assinatura quando tocava com Miles [Davis]. E é por isso que toco com este kit. É por causa dele, na verdade».

Watts foi ainda o primeiro dos Stones a deixar o álcool e as drogas. De resto, o comportamento de Charlie quase sempre contrastou com o comportamento dos restantes elementos da banda dentro e fora de palco. Watts, que viveu durante mais de 50 anos com a sua mulher, Shirley Shepherd, numa zona rural em Devon, dizia que não correspondia ao estereótipo da estrela de rock.

«Nos anos 1970, o Bill Wyman e eu decidimos deixar crescer a barba e o esforço deixou-nos exaustos», disse à revista Rolling Stone, em 1994. O período mais conturbado da sua vida foi na década de 1980, quando teve de se tratar devido a abuso de consumo de álcool e heroína, conseguindo livrar-se do vício com sucesso e rapidez. «Foi algo muito curto para mim. Acabei por parar. Não combinava comigo», afirmou, em 2012, numa entrevista ao Mirror. «O rock and roll deu-me mais do que aquilo que me tirou», disse um dia.

“NUNCA MAIS ME CHAMES TEU BATERISTA”

Um dos episódios que retratam esse período está descrito em “Life”, o livro de memórias de Keith Richards, publicado em 2010. Decorria o ano de 1984 e os Rolling Stones estavam em Amesterdão, Países Baixos. Charlie Watts estava a dormir num quarto de hotel quando recebeu uma chamada telefónica de um muito alcoolizado Mick Jagger a perguntar onde estava o seu baterista. Watts levantou-se, vestiu um fato, foi ao quarto de Jagger, deu-lhe um murro e depois disse: «Nunca mais me chames o teu baterista. Tu é que és o meu vocalista!». Rezam as crónicas que Jagger levou um ano a convencer Watts a ultrapassar este episódio. Cinco anos depois, em 1989, Watts via o seu nome inscrito no Rock and Roll Hall of Fame ao lado dos colegas de banda.

Em 2004, Watts foi tratado com sucesso a um cancro na garganta após uma luta de quatro meses contra a doença, incluindo seis meses de radioterapia intensiva. Recentemente, a banda anunciou que Charlie Watts iria falhar a próxima digressão nos EUA após ter sido submetido a um procedimento médico não especificado.

Steve Jordan será, ao que tudo indica, o substituto de Watts – cujo último concerto foi em Miami, na Florida, a 30 de Agosto de 2019. Charlie Watts deixa-nos assim aos 80 anos de idade, deixando também como legado um manancial de pérolas musicais, sobre as quais quem gosta de música só pode mesmo dizer uma coisa: Obrigado, Charlie!

CINCO PÉROLAS QUE WATTS NOS DEIXA COMO LEGADO

Get Off of My Cloud |  Charlie Watts domina totalmente o segundo single nº 1 dos Rolling Stones, que apresenta uma das estruturas de bateria menos convencionais alguma vez empregadas num tema incluído no Top 40. Basicamente, Watts toca o mesmo padrão (beat 4/4, drum fill, beat 4/4, drum fill) durante toda a canção, mantendo a tensão durante três minutos sem quebras. Simples e eficaz.

Honky Tonk Women | Uma das melhores performances de sempre de Charlie Watts. Desde a introdução que parece que se vai desmontar – pormenor de assinatura de Watts – até à batida constante que conduz os versos em direcção ao crescendo dramático nos refrões, tudo neste tema está bem feito.

Paint It, Black | Mesmo no meio de todos os outros interessantes pormenores como a sitar, o Hammond B3 ou a estrutura stop-start perto do final da canção, a força de braços de Watts consegue destacar-se em “Paint It, Black”. Ao contrário das subtilezas com que nos foi brindando, aqui, a força, a ausência de pormenores técnicos e a linha recta que serve de condução são quem manda. Vistoso, robusto, simples mas extraordinariamente eficaz, como quase sempre.

(I Can’t Get No) Satisfaction | O primeiro n.º 1 dos Rolling Stones é justamente celebrado pelo seu riff de guitarra, sem dúvida, um dos melhores de todos os tempos. Mas não se subestime a contribuição de Watts para este clássico. O baterista vai aos seus recursos R&B para conduzir o tema, adicionando ocasionalmente pequenos preenchimentos, mas sempre direito ao assunto.

Gimme Shelter | O ameaçador lick inicial de guitarra parece anunciar uma tempestade, mas são os pormenores de Watts que vão trazendo o tema à vida. Uma entrada tranquila, a trabalhar com as percussões, instalando o ambiente que vai cavalgando à medida que a canção se desenvolve. E mesmo quando o resto da banda se atira para a perdição no final de “Gimme Shelter”, Watts permanece frio perante o perigo.

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