Coady Willis, 50-50

Coady Willis, 50-50

Redacção

Ser baterista de Big Business e Melvins é qualquer coisa. O músico fala do seu drumkit e sobre os seus heróis e destaca alguns momentos da sua carreira.

Não há ninguém na AS que não gostasse de trocar de vida com Coady Willis. Quer dizer, ser baterista de Big Business e Melvins? Os Big Business são um bandão. Dos Melvins nem se fala. Coady Willis faz o que muitos bateristas no mundo gostariam de fazer, toca nas duas bandas. Em duas bandas de integridade artística indisputada e, no caso dos Melvins, de uma credibilidade sem paralelo na indústria musical.

Sempre acreditei que tocar música tem que ver com a disponibilidade. Vejo bateristas super técnicos e é impressionante, mas pode ser uma seca.

Melvins em Portugal permanece um sonho por realizar, mas os Big Business vão passar por Lisboa, em digressão ao álbum que editaram em 2016, “Command Your Weather”. Dia 25 de Abril, em Lisboa fazem a sua data única no nosso país no Sabotage Club. Willis faz uma retrospectiva à experiência das duas bandas, sobre a coordenação com Dale Crover  e fala sobre os seus heróis na bateria e drumkit.

Recuando a “Battlefields Forever”. O que motivou criar a vossa própria editora e lançar o disco dessa forma?
A antiga editora [Hydra Records] passou por um momento difícil e estava meio “fora do jogo”. Já andámos as vezes suficientes na roda das editoras para saber aquilo que queremos. Vimos editoras rebentar dinheiro em coisas que não faziam sentido para o tipo de banda que somos. Colocar anúncios de meia página em revistas de thrash ou agendar presenças na rádio antes de um concerto não nos faz muito sentido. Prefiro surgir numa loja onde está a decorrer uma competição de braço-de-ferro ou speed-dating [risos]. Algo diferente, entendes? Decidimos que se as pessoas desejarem comprar os nossos discos podem fazê-lo num concerto ou on-line. Não necessitamos de grandes distribuidores e podemos usar antes o dinheiro da forma que achamos melhor. É mais fácil e mais divertido. Há menos cozinheiros na cozinha.

Já gravaste várias coisas com os Melvins. Mas como foi gravar aquele “ao vivo” da Third Man Records que estava a ser cortado directamente para acetato enquanto tocavam? Houve muita pressão?
Tens um take para fazer tudo bem. O mais difícil nessa sessão foi a temporização. A gravação tinha um limite de 20 minutos em cada lado, não havia qualquer possibilidade de ultrapassar esse limite. Havia um relógio em palco e tivemos que “partir” o set para o acomodar nos lados A e B do álbum. Se ouvires o disco, cada lado está no limite dos 20 minutos. Quando a gravação terminou, tocámos mais algumas canções para as pessoas no auditório, para que sentissem mais que estavam num concerto. O Buzz e o Dale percebem que qualquer pessoa erra, mas já estamos a tocar juntos há tanto tempo que já sabemos que eles apenas querem que exista a energia da actuação. É isso que é importante para eles. Além disso, o pessoal da Third Man sabe exactamente o que está a fazer. Fiquei mesmo muito impressionando com o complexo onde trabalham. Definitivamente, é resultado de amor pelo trabalho e é bastante especial tocar lá.

E o álbum, exclusivamente de baterias, que gravaste com o Dale Crover e o Joe Plummer [Modest Mouse]?
O “Hew Time”. Foi inspirado pelo álbum de Max Roach, “M’Boom”. O Joe adora esse álbum, então reunimos uma montanha de instrumentos de percussão e coisas capaz de fazer barulhos estranhos, percussões brasileiras, três baterias, etc. “Micámos” tudo e, basicamente, gravámos tudo em live take. Ficou com um som muito porreiro.

Falavas nessa devoção do Joe Plummer. Tu próprio és um grande fã do Keith Moon. Há algum baterista actual que te encha as medidas?
O Keith está sempre lá em cima. O seu nível de energia é um encanto de assistir. Sempre fiz colagens daquilo que vejo. Cada vez que vou ver uma banda, asseguro-me de que encontro algo no baterista que gosto realmente. Actualmente, o Ashton Bird de Tweak Bird é um baterista entusiasmante de ver e eles são uma grande banda. O John Sherman de Red Fang também é contagiante. Diverte-se enquanto toca e isso faz a diferença. Sempre acreditei que tocar música tem que ver com a disponibilidade. Vejo bateristas super técnicos e é impressionante, mas pode ser uma seca. Também vou mencionar a Hozoji Margullis de Helms Alee. Ela é um dos meus bateristas favoritos.

Willis usa o seguinte setup de pratos Paiste: 24″ Alpha Brilliant Rock Ride; 18″ Alpha Brilliant Rock Crash; 13″ Signature Mega Cup Chime; 20″ Alpha Brilliant Metal Crash; 15″ Formula 602 Classic Medium Hi-Hats

Estás a tocar com DW. Que tal?
Adoro a bateria. Funciona mesmo bem com os Melvins. No passado, passámos muito tempo a tentar que as baterias funcionassem como um kit gigantesco, em vez de dois kits. Agora que os tamanhos das peças e as madeiras são diferentes há um maior contraste e sobressaem mais. Com Big Business também funciona muito bem. Os shells são em madeira de cerejeira, possuem muito ataque e conseguem ter graves. Cortam muito bem através dos baixos do Jared (Warren). O kit que usava anteriormente tinha um timbalão de 14” e um timbalão de chão de 18”, perdia-se muito no meio dos sons de baixo. Este é mais pequeno, os timbalões conseguem “furar” e conseguem trazer definição sem sacrificar o som que desejamos.

Entrar para os Melvins seria, por si só, algo avassalador. Imagino com o acréscimo de responsabilidade de ter que, quase, reescrever as baterias para soarem em dois kits…
Limitamo-nos a ir descobrindo enquanto tocamos. O Jared e eu já sabíamos o catálogo deles de trás para a frente quando nos juntámos à banda, pelo menos o sentimento dos temas. E eles confiam em nós e encorajam-nos a tocar o que queremos. Gostam que façamos coisas novas em vez de replicar com exactidão os discos. Claro, no início estava nervoso por sentar-me ao lado do Dale e estar à altura dele, mas eles deixaram-nos sempre à vontade.

Entrevista publicada originalmente na revista DW The Edge. Fotos Kevin Ito.