Como o ADN de um hit mudou em 20 anos

Como o ADN de um hit mudou em 20 anos

Nuno Sarafa

Mais compositores, mais colaborações, canções mais curtas, intros mais curtas, menos géneros musicais, a ascensão do hip hop. Tudo a apontar para o aperfeiçoamento de uma fórmula, seguindo um plano de sucesso. Estas são as principais conclusões de um estudo agora publicado pela Midia Research.

De que forma evoluíram os hits nos últimos 20 anos? Esta foi a pergunta que o analista de meios de comunicação e tecnologia Mark Mulligan colocou para dar início a um estudo sobre a evolução da escrita de canções nas últimas duas décadas. As principais conclusões até podem parecer óbvias: as canções são agora mais curtas e mais instantâneas, fazendo parte de uma certa industrialização da composição, qual fábrica de sucessos. No entanto, há razões a sustentar estas conclusões.

Ao longo dos anos, a música gravada evoluiu para se ajustar ao formato dominante da época, desde canções de três minutos para caber em vinil de 7 polegadas, passando por álbuns de oito canções para caber em LP, até mais de 16  canções para encher CDs. A mudança de formato não é novidade, mas o impacto do streaming na criação da própria música é indiscutivelmente mais revolucionário do que o dos formatos anteriores, porque é tanto o formato de consumo como o de descoberta num só.

No auge do álbum, o foco seria não só o álbum em si mesmo, como as faixas que potencialmente funcionariam na rádio. E, mais tarde, na MTV, com a ascensão da indústria do videoclip. Agora, todas as considerações estão centradas na própria canção, a moeda central da era da transmissão. É o regresso ao single.

Para ilustrar como esta mudança é significativa, o analista Mark Mulligan fez um retrato do Top 10 da Billboard, de agora e de há 20 anos atrás. Não é, todavia, uma análise de dados abrangente, é tão somente uma visão do topo da pilha, dos megahits do dia-a-dia. No entanto, este retrato fornece uma ilustração clara de como o ADN de um single mudou ao longo de 20 anos.

Canções mais curtas, mais instantâneas

A duração média dos 10 primeiros êxitos caiu 16% para 3 minutos e 42 segundos (antes, a média era de 4 minutos e 22 segundos). Entretanto, as intros das canções caíram de 13,1 segundos para 7,4 segundos, quase metade. Na economia do streaming, em que os horários de lançamento são estrategicamente escolhidos em função do aumento do volume e da velocidade de lançamento, há frequentemente apenas uma hipótese de chamar a atenção do ouvinte. Com cada vez menos fãs de música mais jovens a ouvir rádio, há poucas oportunidades para o ouvinte voltar a ouvir a faixa se a deixar de ouvir na sua lista de reprodução em streaming.

O apogeu do Hip Hop

O top de 10 de Julho de 2000 era dividido uniformemente entre pop, rock e RnB, com os dois últimos a terem a vantagem. No top 10 de hoje em dia reina o hip hop, sendo responsável por seis das 10 melhores faixas. Começando com a ascensão da música de dança/electrónica e agora continuando com o hip hop, o negócio dos êxitos tornou-se mais concentrado, duplicando num dos géneros principais e, por sua vez, tornando-o ainda mais dominante.

A industrialização da composição de canções

As editoras estão a remodelar a escrita de canções, juntando equipas de compositores para criar êxitos geneticamente modificados. Quanto mais compositores de topo, maior é a probabilidade de um êxito. Por isso, o número médio de compositores aumentou de 2,4 por faixa em 2000 para 4 em 2020. O lado positivo para os compositores é, obviamente, terem mais trabalho, sendo o lado negativo terem de partilhar os direitos com um maior número de pessoas. Curiosamente, a idade média dos compositores aumentou de pouco menos de 27 para pouco mais de 31 anos. Aponta para carreiras mais longas para os compositores, mas levanta a questão de saber se isto significa que as experiências de vida dos compositores estão um pouco mais distantes das dos jovens fãs de música.

A ascensão das colaborações

Juntar superestrelas a outras superestrelas tornou-se uma estratégia para a obtenção de êxitos. No top 10 de Julho de 2000, nenhuma das faixas tinha um artista colaborador, o chamado featured, já em Julho de 2020 essa percentagem tinha escalado até aos 60%.

O tema dominante subjacente a estas mudanças no ADN dos êxitos é a redução do risco. Mais compositores, mais colaborações, canções mais curtas, intros mais curtas, menos géneros – tudo aponta para o aperfeiçoamento de uma fórmula, seguindo um plano de sucesso. Esta evolução continuará a ganhar ritmo até que a próxima mudança de formato reescreva as regras. Até lá, as editoras, os compositores e os artistas terão de se perguntar se estão a atingir o equilíbrio certo entre o negócio e a criatividade. Se não o estão a fazer bem, então parece inevitável que a pop venha a sofrer um processo de canibalização. E, se o fizer, terá de esperar e perceber que o público se afaste do topo, cada vez mais homogeneizado, para a cauda, que é sempre muito mais diversificada.


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