David Bowie, Aladdin Sane (Sinestesias)

David Bowie, Aladdin Sane (Sinestesias)

Carlos Garcia
Brian Duffy

A capa ultra icónica de “Aladdin Sane”, de Bowie, será a maior expressão de um percurso em que estética visual não pode ser separada da sonora.

Todas as nacionalidades têm um rol de estereótipos ao seu dispor, uma espécie de retrato distorcido das suas características peculiares. Correspondam ou não a uma realidade, eles compõem o pano de fundo do imaginário colectivo…

As Portuguesas vestem-se de preto e têm buço, os Gregos não pagam impostos, os Ingleses têm maus dentes. David Bowie é inglês. David Bowie tem maus dentes. Ou melhor, tinha. A alva e alinhada arcada dentária que passou a exibir é um produto da sua transladação para os Estados Unidos, algures nos anos oitenta, país onde falhas, “amarelecimentos”, assimetrias, conclusões, etc, são muito menos perdoadas que deste lado do Atlântico.

O sorriso plástico prevalece sobre a assimetria genuína. No entanto, na fase inicial e fulcral da sua carreira, Bowie possuía todos os seus característicos 32 exemplares de “Englicidade”. Um sorriso de carácter, emoldurado por um rosto particular, com maçãs do rosto salientes e um olho de cada cor. Para quem tivesse vivido num ilha deserta, durante os últimos cinquenta anos, seria talvez estranho (ou fútil) que se falasse tanto do rosto de um artista cujo domínio seria supostamente a música. Mas no caso de Bowie a imagem, e, principalmente, a constante transmutação da mesma, é a metade indissociável da construção do seu edifício artístico. E a capa ultra icónica de “Aladdin Sane” será a maior expressão de um percurso em que estética visual não pode ser separada da sonora.

De todas as individualidades que contribuíram para criar o cânone do pop rock durante a segunda metade do século XX, David Bowie ocupa um lugar muito particular. Isto porque para além do muito mérito musical, o camaleão do rock criou, de certa forma, a noção de um visual rock. Não é que antes dele a criação de um visual único e distinto tenha sido descurado por quem fez de subir a um palco a sua vida. Mas antes deles nunca atingiu este nível. Nunca com esta intensidade.

Bowie recebeu da sua terra natal o rico património folk de lendas, baladas, magia ancestral e excentricidade que compõem as ilhas britânicas. E por correio, vindo do outro lado do Atlântico, a força do emergente rock n’ roll de Presley e Berry. Ao ouvir “Tutti Futti”, de Little Richards, pela primeira vez jurou ter ouvido a voz de deus. E ao ver uma prima sua dançar e movimentar o corpo como nunca o havia feito, percebeu que os velhos deuses transladados à força para as Américas, haviam-se instalado, adaptado, e regressavam agora com som e fúria. O som negro electrizado do novo mundo capturou uma grande parte da juventude do velho, especialmente na velha Albion. A junção deste novo futuro com o velho repositório de lore presente nas pedras, nos riachos e nas pontes criou uma leva de música que transformou as ilhas e o mundo. John Lennon, Syd Barret, Robert Plant, Peter Tosh e tantos outros são o produto desta hibridização. Bowie também o é, mas nele existe um algo mais.

Como se fosse um Fernando Pessoa extrovertido.

Sentindo-se desde sempre preso, um alienígena residente na banalidade suburbana, Bowie viu nas artes, especialmente nas artes performativas, uma saída para a alienação. Ser um vulgar David Jones de Brixton nunca o satisfez. Como satisfação nunca poderia haver em ser uma só coisa. Bowie era múltiplo e é na apresentação contínua e sucessiva da sua multiplicidade ao mundo que reside o segredo e a pedra de toque de uma carreira que atravessa as décadas.

Como se fosse um Fernando Pessoa extrovertido, numa heteronomia em ácidos, Bowie percebeu que mudar de visual é bem mais de que uma simples representação estética. Ou mesmo que vestir uma outra pele. É uma metamorfose. É deixar que os muitos eus, que compõem este aparente uno que somos, se despeguem e desdobrem, criando pele e rosto e vida e roupa e acções no mundo externo. É soltar anjos e demónios, é criação de golems vivos no próprio corpo. Mais do que um grande músico (o que é inegável) ou actor (e as pernas que foi fazendo ao longo dos anos em “Labirinto” ou “Feliz Natal Mr. Lawrence” mostram que poderia ter havido uma carreira só nesta área), Bowie é o alquimista de si mesmo, utilizando os recursos do teatro Kabuki, da dança contemporânea, da comédia del arte, para criar o corpo dos seus eus.

A persona que surge nesta imagem e neste álbum não será tanto um ente autónomo, mas sim um derivado, quiçá uma evolução, de Ziggy Stardust. Ziggy foi talvez o mais visível e deslumbrante resultado da alquimia interna de Bowie. Fruto do desejo de criar a suprema estrela de rock, Ziggy surgiu conceptualmente como uma fusão de Iggy Pop e Lou Reed. Imaginado como a encarnação humana de um alienígena que vem à terra promover a mensagem de sexo, drogas e paz entre os homens e as mulheres de boa vontade, Ziggy será talvez o extraterrestre que Bowie sempre sentiu ser.

De rosto e corpo magros e pálidos, cabelo vermelho, ausência de sobrancelhas, maquilhagem garrida, roupas alegóricas, toda uma iconografia que hoje nos parece tão familiar, existia pela primeira vez numa expressão sintetizada de correntes diversas. Está ali o herói japonês efeminado, o mimo de Marceau e Lindsay Kemp, um George Jetson que largou a vida burguesa, o duende celta no fim do arco irís, a pitonisa de Delfos, o demónio das encruzilhadas do sul profundo: Ziggy é também um produto da globalização e do século XX, um juntar de culturas e mitos, um sincretismo à boa maneira do antigo mundo clássico.

Ao libertar esta expressão do seu eu profundo e ao dar-lhe o sopro da vida, Bowie cria o primeiro semi deus pagão do mundo moderno. E este retorno de algo como Hermes ou Dionísio à terra fez ressonância no consciente e inconsciente colectivos. A cultura glam tinha sido criada num passe de mágica. Algures em Londres, Vivienne Westwood e Macolm Maclaren tomavam notas, e a lição seria bem estudada e aplicada no look punk. Desde a moda ao transformismo, da pop descartável de Lady Gaga ao visual Boschiano de Marilyn Mason (sem sombra de dúvida, dois filhos da curta estadia de Ziggy neste planeta), do hair metal aos hipsters, todos os que tiveram como mote “weird is beautiful” têm como santo padroeiro a figura de São Stardust. É ele que preside e melhor encarna o renascimento dionisíaco que foi o final da década de sessenta, princípio de setenta.

A  lad insane?

Ziggy Stardust (pois Aladdin Sane é ele transladado para a América) fecha os olhos e tem a boca ligeiramente aberta quando o flash da câmara dispara e captura a efemeridade da sua breve existência. O fotógrafo é Brian Duffy. A directora de produção é Celia Philo. Ambos parecem convencidos de que foi com David Bowie que trabalharam nessa noite de 1973, no estúdio de Duffy. Os detalhes do mais icónico dos detalhes, o relâmpago colorido que atravessa o rosto pálido de Ziggy, permanece no contraditório: Duffy afirmou que foi inspirado num símbolo de um fogão eléctrico presente no estúdio; Philo recorda-se de a coisa ter evoluído mais organicamente, tendo sido o maquilhador de serviço, Pierre La Roche, que, ao olhar para várias fotografias de palco e reparado que o símbolo do relâmpago aparecia em várias roupas, sugeriu que este deveria aparecer no rosto.

O aspecto geral da pose e o tronco nu evoluem da letra de “The Jean Genie”. Descrevendo um Ziggy alucinado sobre os néon de Nova York, o single de “Aladdin Sane” é, talvez, Bowie no auge do seu deslumbre pela cultura americana. Sendo assim, a figura final que surge como capa de álbum é um produto de sucessivas transmutações alquímicas. David Jones é transmutado em David Bowie e este Ziggy Stardust e este em Aladdin Sane. O génio está fora da garrafa. E tal como na criação do golem é preciso uma fagulha divina, para insuflar o sopro da vida. E nada melhor que utilizar a técnica do Dr. Frankenstein, especialista na criação de golems no mundo pós industrial, e ser o relâmpago o elemento final que anima as células e provoca a primeira inspiração. Segundos depois do flash, nos momentos que aqui não se vêem, a nova criatura abre os olhos e está pronto a sair a rua. O relâmpago foi a vermelho e azul, as cores da stars & stripes, pois este é um renascimento americano. As discotecas e as galerias de Greenwich Village esperam por ele. Ziggy Stardust 2.0 chegou a casa e a neve branca que atapeta a cidade no Inverno é demasiado tentadora. A loucura e a boémia serão intensas. A ressaca duradoura. A lad insane? Nas ruas de mel e ouro da cidade numa colina brilhante?

Um rapaz de Brixton, aborrecido até à morte com a paisagem de tijolo escurecido da Inglaterra pós guerra, alimentado por lendas folk de potes de ouro no fim do arco-íris e e ritmos negros sexuais, sonha com a transfiguração, sonha em dar vazão à multiplicidade dentro de si, sonha com dentes brancos e perfilados. É o seu rosto que vemos na fotografia. Dentro de segundos vai acordar, e o mundo será fitado por um olho de cada cor.