Um ao Molhe e fé em Deus

Um ao Molhe e fé em Deus

Tiago da Bernarda

Intitula-se como o “primeiro festival nacional itinerante de one-man-bands” e começou em Fevereiro, na Madeira, mas a música portuguesa está em viagem até Maio.

O que acontece quando se consegue juntar um carro e alguns dos melhores músicos nacionais com projectos a solo? – é esta a premissa de “Um Ao Molhe”, um festival nacional que está a percorrer cidades como o Funchal, Porto, Vale de Cambra, Guimarães, Aveiro, Vila Real, Oliveira de Azeméis, Braga, Bueu (Espanha), Viana do Castelo, Monção, Cascais, Évora, Lisboa, Coimbra, Póvoa de Varzim e Cartaxo. Falámos com Pedro Pestana [Tren Go! Sound System e 10.000 Russos] e Manuel Molarinho [O Manipulador], que meteram a música portuguesa na estrada.

A interdependência é a palavra de ordem deste festival de homens sós

Como é que isto tudo começou?
Pedro Pestana: Tudo começou numa bela noite em que dissertávamos sobre one-man-bands e o quanto gostávamos de as meter todas a andar pela estrada e a tocar. A ideia foi tomando forma e está com as proporções que agora vemos. Nada como umas cervejinhas e uns cafés.

Em palco só se vê uma pessoa, mas quantos são necessários para organizar o “Um ao Molhe”?
Pestana: Bom, já repetimos isto algumas vezes, o grande paradoxo do festival é que ninguém faz nada sozinho. Na organização estamos cinco pessoas, eu e o Manuel (Molarinho) na programação, a Maria Manuel Ribeiro e a Mariana Volz, que formam a Mooh – Biscates Transmedia, na comunicação e o André Catarino no design.
Manuel Molarinho: Para além disso, contamos com a ajuda preciosa dos nossos parceiros que são muitos, incansáveis e têm mostrado um enorme entusiasmo pelo festival e pelo seu conceito. Sem eles o festival não poderia acontecer. Estamos, sensivelmente, a meio da primeira edição e já organizámos mais de 70 concertos, entre cerca de 20 datas em 15 cidades. Estaríamos a mentir se disséssemos que conseguíamos dar conta do recado sozinhos. Estou com o Pedro (Pestana), acho que a interdependência é a palavra de ordem deste festival de homens sós.

Deve ser fantástico não ter de carregar tantos instrumentos, não?
Molarinho: Isso nem sempre é uma regra. Se pegarmos no conceito tradicional do multi-instrumentista, muitos levam mais material que uma banda. Mas este ano fizemos questão de ter um conceito alargado de one-man-bands. Achámos que era mais interessante mostrar ao público as 1001 formas de se apresentar música a solo ao vivo. Entre loopers, cantautores, projectos de electrónica, etc., há um sem número de possibilidades e de projectos em Portugal de inegável qualidade.
Pestana: Ainda bem que há muitas one-man-bands sem bateria, se não não dava para nos metermos todos dentro de um carro. Há dias olhei para a mala e estava bastante vazia para o que estou habituado. Havia dois laptopers lá pelo meio e assim vale a pena viajar, levezinho.

VÊ AQUI A PROGRAMAÇÃO DE ABRIL.

Porquê fazer de “Um ao Molhe” um evento itinerante?
Pestana: Várias coisas, entre elas agrada-nos a ideia de continuidade, já há imensos festivais focados em poucos dias com muitas bandas. Outra é descentralizar do eixo Porto-Lisboa.
Molarinho: Este último ponto é central para nós. É obviamente mais fácil arranjar mais datas para o Porto e Lisboa que é onde há mais pessoas e uma cena cultural mais activa. Mas queremos muito que o festival vá a sítios que ainda não estejam no ‘circuito’, porque um dos nossos objectivos é, exactamente, o de ajudar a criar mais possibilidades para o crescente número de músicos com qualidade em Portugal poderem tocar.

Quais são alguns dos nomes de artistas que deveríamos ficar de olho?
P.P: Todos. Seríamos injustos se nomeássemos apenas alguns. Gostamos deles todos.

Vamos estar mais atentos a one-woman-bands

Quais foram os maiores obstáculos na organização do evento?
Molarinho: É uma primeira edição de um festival que queremos que dure. Estamos à espera de obstáculos no início. O principal, e que nesta altura se sente com muita intensidade, é a falta de dinheiro. E quem mais sofre são os músicos. Mas estamos esperançosos e seguros que um festival com estas características atrairá a atenção necessária para que progressivamente consigamos melhores condições para as edições futuras. Uma carrinha maior também nos dava imenso jeito.

Já têm planos para uma próxima digressão? O que é que podem adiantar?
Molarinho: Temos alguns em mente, mas queremos maturá-los melhor antes de dizer publicamente que os vamos pôr em prática. Podemos adiantar que queremos ir mais ao interior (e quiçá ao exterior) e que vamos estar mais atentos a one-woman-bands. Nesse aspecto, temos um desnível muito grande na nossa programação do qual não nos orgulhamos nada. Esse desnível pode ser, em parte, explicado pelo facto de haver mais homens do que mulheres a fazer música em Portugal, mas parte tem certamente a ver com falta de atenção nossa e temos muita vontade de inverter esta questão.