Viajar Nas Nuvens dos Galgo

Viajar Nas Nuvens dos Galgo

António Maurício

Os Galgo estiveram na Arte Sonora para uma conversa sobre o novo álbum, processos de produção, gear, história insólitas e ascensão profissional.

Os Galgo são uma banda que acompanhamos desde as suas origens e na qual, enquanto parte de um júri, votámos como vencedora do concurso Aporfest que os levaria ao festival húngaro Sziget. Pouco depois vimos a sua conquista do palco secundário no NOS Alive. Ainda nesse ano de 2015, a banda editou o seu EP de estreia, ao qual se seguiu o álbum de estreia. Este ano chegou um novo LP.

O novo álbum dos Galgo, “Quebra Nuvens”, foi editado dia 16 de Abril. Um novo capítulo na biografia da banda e simultaneamente na narrativa do próprio Galgo, mascote que enfrente mais uma aventura. A AS esteve à conversa com João Figueiras (baixo e teclas) e Alexandre Sousa (guitarra, teclas e voz), para uma dissertação sobre as ideias presentes em “Quebra Nuvens”, processos e evoluções musicais, gear, ascensão profissional e histórias insólitas.

Após a digressão do álbum “Pensar Faz Emagrecer”, editaram agora o “Quebra Nuvens”. Em primeiro lugar, de onde surgiu o nome?
João Figueiras: Para este álbum queríamos uma espécie de conceito, história por trás. Nesta história, o Galgo como personagem, passa por várias cenas. O Galgo está no seu mundo, o sistema “Goya”, que faz alusão a uma música do outro álbum e defronta-se com uma tempestade que vem atacar esse mundo e quer converter toda a gente em seres dançantes. O Galgo está contra isso, então vai à luta. Existe uma luta e ele resiste, mas eventualmente falha nesse combate. É a primeira parte deste “Quebra Nuvens” O novo vídeo da faixa “Bambaré” relaciona-se com esta narrativa.

O Galgo tem estado sempre presente em todos os vossos álbuns. É uma ideia que vai estar presente no futuro, com continuidade?
Alexandre Sousa: É uma possibilidade, sim. É como se a banda também fosse o galgo. Ou seja, quando estamos os quatro em palco não somos os quatro, somos um. E assim também se transforma, a arte visual vem complementar isso. Não sei o que vai acontecer no futuro mas é possível que continuemos.

Já estamos a fazer demos para um novo álbum que há-de sair, e a ideia neste caso é um projecto de duas partes em que o “Quebra Nuvens” é a primeira.

Sobre a vossa evolução desde o primeiro EP até agora, sentem que é mais difícil fazer nova música? As ideias esgotam-se ou estão sempre a fluir? Basicamente como é o vosso processo de criação?
João Figueiras: É no momento, é ensaio, estamos todos lá. Tipo uma jam. O bloqueio criativo às vezes surge, mas não sei se está ligado com a quantidade de música que já fizemos. Não sentimos que a nossa produção esteja a esgotar ou a cansar a parte criativa. Por exemplo, agora estamos a fazer demos para um novo álbum que há-de sair e a ideia, neste caso, é um projecto de duas partes em que o “Quebra Nuvens” é a primeira. Está a correr bem, estamos com ideias e as jam têm sido produtivas. O bloqueio criativo não sei se é linear, digamos.

HAUS/PAUS

Tal como na gravação do “Pensar faz Emagrecer”, escolheram o estúdio HAUS aqui em Lisboa para a gravação do novo álbum. Porquê a repetição?
Alexandre Sousa: Já conhecemos as pessoas e a primeira experiência foi boa. Correu bem e gostámos da sonoridade do primeiro álbum. Se bem que a sonoridade aqui do segundo está um bocadinho diferente. Estávamos à vontade e acho que isso é bastante importante quando estamos num processo tão cansativo, tão trabalhoso e às vezes tão repetitivo.

Há muita gente que compara o vosso som com o som dos PAUS. Acham que é uma coisa boa ou má? É uma influência?
Alexandre Sousa: É uma coisa natural. Quando começamos nem conhecíamos bem PAUS, só depois é que começamos a conhecer. É uma influência, mas na verdade, se calhar nem é a maior influência. Já gostámos e gostamos, mas não digo que seja mau nem bom, às vezes é um bocadinho chato. Porque não somos os PAUS, somos os Galgo.
João Figueiras: Pode ser mau se existir essa associação e, para algumas pessoas, for uma cena depreciativa. De certa maneira também é bom, porque acho que faz sentido a música relacionar-se.

Existem sempre bandas que soam a outras. As influências estão em todo o lado, não consegues fugir…
Alexandre Sousa: É exactamente isso. É impossível fugir a influências, mesmo que sejam inconscientes. Quando começamos a criar isto não pensámos: «Os PAUS são muita fixes, ‘bora fazer uma cena igual aos PAUS». Fomos tocando. E as cenas que estão na nossa cabeça vão aparecendo. É um bocado difícil fugir a influências, porque é impossível encontrares uma coisa que seja completamente nova. Mesmo que seja inconscientemente, a tua cabeça já foi buscar a informação a outro sítio e teve de juntar pelo menos duas coisinhas…

Quando tocaram na Hungria, sentiram alguma pressão? E sentiram diferenças em tocar num território internacional em comparação com Portugal?
João Figueiras: Acho que íamos num estado vulnerável e ingénuo. Aquela cena de sermos jovem e nem pensarmos muito, ir só e fazer. Se calhar, se acontecesse agora já estávamos com uma mentalidade diferente, do tipo «lá fora vamos ter que adaptar a setlist de maneira diferente». Tocámos em dois sítios. No Sziget e, antes, tocámos num bar que é o A38. Nunca falo nos concertos, não curto, fico muito nervoso. Mas lá até fui eu que falei, como era a cena do inglês era o que estava mais confortável.

GEAR

Qual é o vosso equipamento, especificamente? Em estúdio e ao vivo?
Alexandre Sousa: Gravamos em take directo, portanto utilizamos as mesmas cenas. Eu utilizo uma Fender Squire Classic Vibe Telecaster, um Fender HotRod Deluxe e um teclado PortaSound Yamaha. Ao vivo depende, utilizamos o que existir. Em Lisboa, normalmente é na boa, mas para outros sítios às vezes depende do espaço.
João Figueiras: O meu baixo é um Squire Precision, não sei se é uma série especifica. Tenho um MicroKORG normal e uso um Roland Gaia. Temos um MicroBrute, mas está meio marado, então foi para arranjar [risos]. Tenho um amp, mas raramente o uso porque na sala de ensaios há outro e em concertos é difícil levar. É um Fender Rumble 250.
Alexandre Sousa: O Miguel Figueiredo tem uma guitarra igual à minha, uma Squire Classic Vibe Telecaster e utiliza um VOX AC30. A Joana Batista (bateria) tinha uma Pearl Target branca, no início, e os pratos eram Zildjian ZBT, que comprámos a meias. Também utiliza Devotion e agora tá a comprar Groove. Comprou uma tarola e pratos da Groove It Up e tem um prato de choque Devotion Groove.

E os pedais?
Alexandre Sousa: Utilizo um Whammy, o Polytune, um Line 6 Del4, um Reverb da Mooer que é o Mooer Shimverb Pro, tem dois footswitches. Um Fuzz Face, o Memory Boy e o PS3 da Boss, que é um harmonist pitch shifter com delay.
João Figueiras: Tenho quatro. Uso o DD3 digital delay da Boss,; um pedal de distorção Smallsound/bigsound, o MINI; um tremolo da Line6 e um preamp da Behringer, que é uns 30 paus, mas é o meu pedal favorito [risos]. Não faz nada de especial, é  um preamp para modular um bocadinho o som. Estraguei um, uma vez, porque alimentei-o mal e tive logo que ir comprar outro. Utilizo ainda dois pedais MicroKorg. Um é só um afinador para cortar o sinal, porque às vezes está um arpeggio a dar a música toda, mas só quero que entre em certas partes e, como estou a tocar baixo dá mais jeito ligá-lo e desligá-lo com o pé. Depois tenho uma espécie de Whammy, da Digitech…
Alexandre Sousa: É tipo um antecessor do Whammy, mas digital e de plástico! Já o utilizei uma vez e isso é que foi insólito! Estava com esse pedal antes de ter o Whammy vermelho e estávamos a tocar no Verão, no jardim da Feira da Ladra. Estava um calor enorme. Estávamos a curtir, mas estava mesmo calor! A certa altura a minha guitarra parecia que estava desafinada, mas na realidade não estava desafinada. Tivemos que parar o concerto durante algum tempo, para tentar perceber o que se passava com a minha cena, porque não estava a conseguir tocar. Estava-me a dar outras notas completamente diferentes. Depois percebi que foi esse pedal! Como é de plástico, o calor todo deve ter interferido com um chip qualquer. E o pedal nem era nosso, era de um amigo do Miguel. É do amigo do Miguel ainda, mas já o temos há 10 anos. É um pedal fixe. É diferente do Whammy. O tracking do Whammy está melhorado, então é tudo muito mais clean, consegues perceber e ouvir todas as notas. Neste, como era mais antigo e menos evoluído, o tracking estava um bocado mau. Mas ao mesmo tempo era fixe, criava uma espécie de glitch, porque não fazia o tracking de todas as cordas e o som ficava meio esquisito. Criava um som mesmo bacano.
João FigueirasMiguel tem uma pedaleira de BOSS GT80 ou 70, multi-efeitos, que já tem desde o início. Depois tem o DL4 e tem Whammy.
Alexandre Sousa: Tem um Strymon Blue Sky Reverberator, um dos melhores reverbs do mercado e um Red Particle Panda. Tinha o Fuzz Face, mas vendeu e utiliza a distorção da pedaleira. Mas o Red Particle é bastante importante.

Usam muita distorção nas vossas faixas? Na vossa música, no geral, não se nota muito.
João Figueiras: Uso bué, ya. É mais overdrivese calhar.
Alexandre Sousa: O Miguel usa distorção, mas usa muito mais compressor. O meu Fuzz Face é bue sensível, reage de maneiras diferentes dependendo do sítio onde está no circuito. Se estiver no início, é muito mais suave do que no final. Coloco no início agora, por exemplo. Não é distorção, é uma cena mais quentinha. Pode ser um bocado de jarda, mas o que faz mais a jarda são os pitches todos em cima.
João FigueirasA minha distorção é mais pesada, mas também não uso aquele pedal no máximo.

CUNHAS vs. UNHAS

Acreditam que é possível uma banda sem editora, sem apoios, sem nada, mas com grande sucesso na internet começar a tocar em festivais/casas?
João Figueiras: No nosso género musical, se calhar não. Estou a pensar em sucessos da internet e associo mais a outros tipos de música. No nosso género ganhas mais reconhecimento a fazer estrada, andar a passear pelo país e a fazer várias tours.
Alexandre Sousa: Portugal funciona muito por contactos. Conheces aquele e este, e depois são as agências. As bandas vivem muito de agências pequenas.
João Figueiras: Primeiro consegues os contactos e depois é que consegues as tours. Por ti próprio é difícil arrancar. Quando começas não tens noção nenhuma, digamos. Podes ser um gajo que já tem contactos de alguns amigos, mas nós não conhecíamos ninguém. Os únicos concertos que arranjámos a sério foi à pala de concursos.
Rute Soares: Parte um bocado da tua posição social. Se és um gajo social e tens muitos amigos, mais facilmente chegas a uma pessoa que está encarregue de salas de concertos…
João Figueiras: É mais dinâmico do que isso. Imagina que tinhas uma sonoridade mais grungese calhar conseguias impor-te no mapa de uma maneira diferente. É isso que quero dizer com ser dinâmico. Se fizer determinado tipo de música, o melhor é ir a determinadas festas e dar-me com determinado pessoal, e arranjo gigs assim. Enquanto que com outra sonoridade, se calhar, isso nem interessa, tenho é que fazer concursos.
Alexandre Sousa: Os contactos são muito mais importantes que isso, em Portugal. Para nós foi a cena dos concursos, porque não conhecíamos ninguém, não foi por causa da nossa sonoridade. Também, mas principalmente porque estávamos completamente sozinhos no mundo, em Portugal inteiro. No início não tínhamos concertos, então decidimos ir para o Bairro Alto, com o Excel no telemóvel, falar com os sítios todos.

Portugal funciona muito por contactos. Conheces aquele e este, e depois são as agências. As bandas vivem muito de agências pequenas.

E resultou?
Alexandre Sousa: Não resultou lá muito bem [risos]. Mas a cena é que já tínhamos enviados e-mails para outros sítios e ninguém nos dizia nada. Nunca tivemos esse feedback porque a nossa sonoridade também era estranha e diferente. Não conhecíamos ninguém e falávamos com uma pessoa desconhecida e diziam-nos «está bem». Agora se fosse o amigo do dono do bar a dizer «temos aqui uma banda que é fixe»o gajo se calhar já ia ouvir… Os contactos podiam não ser a cena mais importante, mas são. E não estávamos mesmo a conseguir nada dessa maneira até ao concurso que nos levou ao festival Sziget. Não tínhamos muitos concertos, estávamos desanimados e dissemos: «’bora lá fazer isto a sério, ‘bora a concursos, ‘bora fazer tudo o que aparecer à frente». Concorremos a todos os concursos que aconteceram naquela altura e, pronto, foi à pala disso.
João Figueiras:  dissemos isto em várias entrevistas. Os concursos são uma boa iniciativa. Para nós funcionou.

Já tiveram o sonho de tocar em Paredes de Coura, entretanto esse sonho já se concretizou. Qual é o próximo?
João Figueiras: Era fixe ter um concerto no Lux, só para fechar as salas todas de Lisboa. Assim das principais é a que falta.
Alexandre Sousa: Nós agora vamos a dois sítios novos em Lisboa que nunca fomos! Mas não posso dizer, fica só no ar [risos].