ENTREVISTA | Hélio Morais Pinta MURAIS, Um Universo Paralelo e Pessoal

ENTREVISTA | Hélio Morais Pinta MURAIS, Um Universo Paralelo e Pessoal

Nuno Sarafa
Ana Viotti

Hélio Morais, músico dos Linda Martini e dos Paus, troca a bateria pelo teclado, assume-se como vocalista e frontman e pinta MURAIS, um universo muito seu, distante das suas bandas. E tomou-lhe tanto o gosto que já não consegue parar de compor.

A primeira viagem a solo de Hélio Morais tardou, mas chegou. E ainda bem que chegou. O éter agradece. A estreia é auspiciosa, sem ser totalmente surpreendente, mas suficientemente inventiva e refrescante para quebrar algumas das eventuais barreiras ao abrigo de uma certa identidade musical daquele que nos acostumámos a ver, há já muitos anos,  sentado atrás da bateria em Paus ou em Linda Martini.

Fazendo fé nas palavras que ouvimos do agora teclista e vocalista em MURAIS, o que é bom é para continuar a acontecer. E Hélio, que começou a compor as suas músicas num piano que um dia foi de Sufjan Stevens, apaixonou-se tanto pelo processo de composição que agora já não quer parar.

Com um sentido crítico sempre presente e com os “Dentes Afiados”, nesta entrevista, o músico fala-nos de tudo um pouco: de música, claro, da sua música, das suas inspirações, da identidade de género – temática que atravessa pontualmente a componente lírica do disco -, dos seus dilemas de composição, do frio da barriga de ser um verdadeiro frontman, do difícil processo de descolagem em relação às suas bandas, do crítico momento da composição de baterias sem a sua marca habitual, dos companheiros que o apoiaram, dos que gravaram e daqueles a quem preferiu mostrar apenas o resultado final.

Assumindo forte apelo político, Hélio também aborda a actual situação do sector cultural em Portugal e as dificuldades que os artistas têm em pagar contas. Certo que deixa críticas aos governantes, mas não deixa de traçar caminhos para uma comunidade artística mais saudável e com valores essenciais como a justiça e a igualdade.

Desassombrado, fala também da morte do pai, em 2012, e como reviver esse episódio trágico o inspirou a escrever uma canção. Um ano depois do previsto, «mas ainda a fazer todo o sentido» – a culpa, garante, é do produtor Benke Ferraz, dos Boogarins -, o disco de Hélio Morais, “Murais”, vai ter agora a estrada que merece. Para ver e ouvir já no dia 1 de Junho, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

Foi muito difícil afastares-te da tua identidade enquanto músico de Paus e Linda Martini?
Pensei muito, muito nisso. Foi, talvez, o maior desafio que enfrentei, especialmente nas baterias, precisamente a última coisa que fiz para este disco. Sentia sempre que já tinha feito aquele beat, mas em melhor. Então pensei que não queria fazer baterias demasiado rítmicas, na onda de Paus, onde é tudo muito pulsante, nem uma rockalhada a puxar para a frente, como em Linda Martini. Mas ouvi muito Portugal. The Man, tenho um carinho muito grande por essa banda e durante muitos anos tinha a sensação de que só eu é que ouvia [risos]. Nos segundo e terceiro discos, os gajos iam buscar muita coisa à soul, mas sempre com aquele toque indie, ou seja, as baterias sempre com groove. Misturei isso com os silêncios das baterias dos Grizzly Bear. Comecei a misturar essas duas referências e fui por aí.

Tiveste de resistir à tentação de convidar os músicos com quem trabalhas há tantos anos?
Sim, tive de resistir um pouco a isso. Quando comecei a gravar as demos, pensei em convidar o [André] Geraldes para gravar uma guitarra, a Cláudia [Guerreiro] para gravar um ou outro baixo, gostava que o Quim [Albergaria] entrasse nem que fosse a fazer uns coros ou a cantar uma música comigo, mas na verdade acabei por me afastar dessa ideia. Mas foi por acaso. O Makoto [Yagyu] e o Fábio [Jevelim] acabaram por gravar coisas no “Até de Manhã”. A verdade é que toco mal guitarra e compus essa música na guitarra, mas uma coisa é tocar para compor, outra é para ficar registado. Então pedi-lhe [ao Jevelim] para me gravar essa guitarra, que quase nem se percebe que é uma guitarra, porque o Benke [Ferraz] depois destruiu aquilo. O Makoto também gravou um baixo nessa música por acaso, nem foi porque lhe pedi, foi porque ele estava no estúdio a gravar e um dia cheguei lá e ele disse-me: «Gravei aqui uns baixos em duas músicas». Numa delas, o Benke não usou, acabou por fazer ele um synth bass, também porque eu queria uma cena mais baseada em synth bass do que em baixo eléctrico, queria ter mais teclados ao vivo em vez desses instrumentos, baixos e guitarras. O outro baixo que o Makoto gravou, para o “Até de Manhã”, o Benke sacou para synth bass e utilizou aquilo cheio de efeitos e teclados todos tortos. E o Fábio tem também uns teclados no “Marialva”. De resto, da malta das minhas bandas, mais ninguém entrou.

Quando é que lhes mostraste as tuas canções?
As últimas pessoas a quem mostrei as canções foi o pessoal que me é mais próximo. Da malta que toca comigo, o primeiro a ouvir foi o Fábio. O primeiro disco de Paus em que escrevi mais letras foi o “Mitra”, porque o Fábio tinha ouvido os meus temas a solo e disse que curtia que eu escrevesse letras para o disco de Paus. O feedback dele foi fixe, apesar de ele ter achado aquilo muito mais pop, porque não ouviu tudo destruído como o Benke viria, depois, a destruir. O Makoto foi o segundo a ouvir. Depois, lembro-me de mostrar o “Marialva” ao André [Geraldes] e de ele também curtir. E acho que ao resto da malta já só mostrei as canções produzidas, porque quando tens as demos, sabes o que queres, imaginas como vai soar, mas as outras pessoas não, por isso preferi mostrar os temas mais finalizados.

Optaste por convidar o João Cabrita e a Catarina Munhá, que são mais fora do teu círculo habitual.
O [João] Cabrita entrou porque eu tinha feito muitos arranjos de sopros em MIDI, à excepção do solo do “Dentes Afiados”, que é Cabrita em freestyle. Tinha feito arranjos de sopros mas a ideia não era ter sopros, era mais para vincar a intenção, as dinâmicas, para depois passar tudo ao Benke, só que ele curtiu tanto que disse logo que fixe era ter mesmo sopros gravados à séria. Mandei o mail ao Cabrita e em dois dias já tinha tudo gravado. A Catarina Munhá, com quem trabalho, já gravei coisas para o disco dela, foi porque já estava no Recife com o Benke e ele disse que ficava fixe uns arranjos de cordas no “Catatua” e um coro em “O Outono”. A Catarina não só é mega generosa, como muito talentosa, e gravou tudo num dia. Este disco foi gravado em muitos sítios diferentes: sala de ensaios de Linda Martini, estúdio do Haus, em casa do Benke, do Giovani [Cidreira], do Pais e do Cabrita. A Xana gravou “Até de Manhã” no Haus.

Quando é que sentiste que o disco estava a ganhar uma linguagem própria?
Senti que conseguia justificar e defender aquelas canções no final de 2018, no Haus, quando gravei Rhodes, baterias e vozes. O Fábio e o Makoto também disseram que estava fixe e foi aí que ganhei consciência de que tinha de fazer qualquer coisa com os temas. Não sabia com quem havia de produzir, pensei no [Filipe] Sambado e falei com ele, mas ele tinha muita coisa a acontecer naquele momento; pensei no Nuno Rafael e em mais pessoas, mas senti que tinha de me afastar. Quando fui com os Paus, em 2019, gravar um EP na Red Bull Station, em São Paulo, o Dinho [Almeida], vocalista de Boogarins, veio gravar uma música connosco na mesma altura em que saiu o primeiro single do disco de Boogarins “Sombrou Dúvida”. Adorei o som daquela música… e fiquei: «Caraças, é isto que eu quero!» E liguei logo ao Benke, que me pediu as músicas. Quando fomos tocar a Goiânia, a cidade natal deles, tocámos no mesmo dia que os Boogarins. O Benke já me tinha pedido para levar uma pen com tudo gravado como deve ser e foi aí que acordámos que ele é que gravava o disco. Ou seja, só em Agosto de 2019 é que decidi que este disco ia acontecer com o Benke. Quando ele mandou a primeira música, “Dentes Afiados”, estava na mouche, era mesmo aquilo. Deixei-o mesmo à vontade para fazer o que quisesse, enviei baterias, Rhodes e vozes e disse-lhe que podia tirar ou fazer o que quisesse… Ele até ficou meio assoberbado, no início, com o meu desapego. Mas como não me valorizo assim tanto como compositor, ou não me valorizava, estava mesmo nessa de nada ser intocável, nada ser definitivo.

MURAIS é para correr em paralelo com as tuas outras bandas ou é algo que estás a criar para preparar um futuro a solo?
[risos] Não, só em 2018 é que assumi que ia fazer um disco. Até aí fazia canções só porque sim e aconteceu tudo por acaso. Hoje em dia, tenho tido muita vontade de compor e tenho escrito bastante e composto bastante para MURAIS. Mas não só para MURAIS. Recentemente, fiz uma canção com o Quim para uma campanha da Jameson. Há também uma música que tinha feito há uns tempos e que entretanto entrou no lote das que os Linda Martini têm estado a trabalhar. De repente, compor passou a ser uma coisa comum e estou sempre a pensar nos temas. Não tinha nada essa rotina, de todo. Para este disco, não pensava nas músicas, nem todos os dias, nem todas as semanas, nem todos os meses. De vez em quando, lá me lembrava e ia trabalhando. Agora estou todos os dias a pensar nisto. Todos os dias escrevo, todos os dias toco.

Perdi o preconceito sobre a simplicidade. E ganhei um bocadinho mais de fé em mim

E tudo começou com um piano do Sufjan Stevens…
Verdade. Foi mais um acaso. Está todo escafiado por baixo, mas tem uma história engraçada. Tínhamos um tour manager em Linda Martini, o Nuno Geraldes, que fez imensas tours europeias, por exemplo, com Grizzly Bear antes de eles rebentarem, Au Revoir Simone, etc. Quando o Sufjan Stevens veio em tour pela Europa, comprou um piano para fazer os concertos. A última data da tour foi no Coliseu de Lisboa e alguns dos músicos que o acompanhavam nessa altura tinham feito parte de algumas bandas com quem o Nuno tinha trabalhado. No final, perguntaram-lhe se ele queria um piano, porque, ou ia ficar abandonado ou ia para o lixo. E ele aceitou. Mas não fazia ideia de que piano se tratava, então foi lá com um amigo carregar o piano para um carro pequeno, nem sei como é que o conseguiram enfiar no carro. O piano ficou todo escafiado por baixo, mas lá foi parar à nossa sala de ensaios. Depois fui à net ver se o piano era mesmo dele. E era, estava cheio de fita cola verde, com um coração, bué confettis e purpurinas do concerto dele…

Tens de lhe enviar o teu disco.
Se ele ler a mensagem… Mas tem piada! Gostava pelo menos de lhe mandar uma fotografia. Foi no piano dele que fiz o meu primeiro disco.

Falando da composição de MURAIS, meteste a mão no processo de produção?
Sim. Aliás, comecei a mexer mais nessa área por causa deste disco. Fui tendo a necessidade de preencher as coisas e para isso tive que me desem*rdar, tive começar a gravar as coisas, mexer nos programas. Sempre fui curioso, sabia mexer razoavelmente num programa de edição, mas nunca tinha mexido a fundo, nunca me tinha aventurado a fazer sozinho. Fui comprando material aos poucos, uma placa de som, comprei o programa em vez de ter uma cena ‘ratada’; depois uns monitores; um compressor daqui, um equalizador dali, uns micros.. Hoje em dia, para um disco meu, não preciso de ir a um estúdio gravar. Ainda por cima o Benke saturou tudo. Há baterias que gravei sozinho na sala de Linda, com um kit de micros que comprei entretanto. Mas gosto da cena meio trash e por isso é que curti muito o trabalho do Benke, ele é mega punk. Houve momentos em que fizemos estruturas dos temas em cima da cama, com umas colunas antigas de computador. O gajo é mesmo bom a fazer isto.

Aprendeste muito com este disco, não?
Muito! Perdi o preconceito sobre a simplicidade. Por exemplo, tanto em Linda Martini como em Paus, sempre houve uma grande preocupação com a parte instrumental, de não ser expectável, previsível, e tinha esse estigma na cabeça. Como tinha bastantes limitações do ponto de vista técnico, aprendi a fazer as pazes com isso e, ao compor arranjos, fui percebendo que à medida que vais acrescentando camadas, se a camada fizer o seu papel, podes criar um corpo complexo, mas em que cada coisa individualmente é simples. Esse foi talvez o maior ensinamento: a simplicidade. E também um bocadinho mais de fé em mim [risos].

Vais levar coisas daqui para os Linda Martini e para os Paus?
Acho que sim! Até já começámos a falar sobre o próximo disco de Paus, não sabemos se vai ser exactamente assim, mas planeámos cada um fazer dois temas.

Oito já estão garantidos…
[risos] Exacto. Mais duas que façamos em conjunto e está bom. Cada um vai fazer duas músicas sem preocupações se encaixam ou não em Paus. Depois, com o trabalho em conjunto, tornamo-las de Paus. Vamos fazer esse exercício colectivo. Portanto, já levo para a banda a experiência de ter composto o meu disco.

O pessoal está sempre a dizer-me: ‘Devias era falar mais sobre música e menos sobre política’

Este disco está carregado de palavras profundas, abordas assuntos como a identidade de género, as relações humanas, mas não tanto os temas políticos, sendo tu um músico bastante interventivo nessas questões. Quiseste proteger-te de alguma forma?
Fiz um tema para o Festival da Canção de 2020, “Cubismo Enviesado”, que era sobre a identidade e expressão de género, mas como a usei nesse contexto, optei por não a meter no disco. Ainda gravei uma versão muito mais lenta, muito mais na onda de Portugal. The Man, quase, quase hip-hop, mas não quis repetir. Nem sei se tinha espaço neste disco. Acabo por ter temas que são mais crítica social, como “Até de Manhã”, que fala sobre as posições de força nas relações, as expectativas, os compromissos. Para mim é mais: «Deixa ir, curte a cena e depois vês em que é que se torna». Mas, na realidade, a temática que atravessa o disco são as relações, sejam elas amorosas, de amizade, de trabalho, etc.

E depois tens “Oi Velho”, essa canção sim, bastante pessoal.
O “Oi Velho” é, talvez, a mais íntima, pois fala do meu pai, que morreu de cancro em 2012 e foi fulminante. Comecei a pensar que devia perceber melhor o que realmente aconteceu, porque ele morreu sem sequer saber exactamente o que tinha. Isso foi, para mim, chocante. Fiquei muito zangado com a instituição. Como nem sequer soube que tipo de cancro foi, tinha de perceber se era uma cena hereditária ou não… Fui ao Curry Cabral, em 2019, mesmo antes de ter ido ter com o Benke ao Brasil, e foi muito bizarro. Não consegui obter informações nenhumas, mas o cheiro era o mesmo, a disposição de tudo era a mesma, foi um déjà vu tremendo, só as caras é que eram diferentes. Achei que tinha feito as pazes com a morte do meu pai muito rapidamente. Tive uma relação complicada com ele, então senti um misto de estar zangado com perdoar. Mas achava que estava tranquilo e se calhar não estava, porque esse episódio mandou-me um estalo. Então escrevi umas cenas, nem sequer foi em forma de verso, mas o que me inspirou a escrever essa canção foi uma palavra que um segurança que estava lá na porta do hospital me disse. Ele não sabia se eu tinha lá ido visitar alguém ou outra coisa qualquer, mas assumiu que eu tinha ido fazer uma visita e quando estava mesmo a sair disse-me: «Coragem!» Aquilo bateu. Fiquei com isso na cabeça e comecei a escrever a canção por causa disso. Essa canção é a mais íntima de todas e a última que escrevi.

Nem tudo é autobiográfico, então.
Este disco fala muito sobre relações, mas nem sempre são relações minhas. Algumas são sensações que já tive, mas nem tudo são histórias minhas. As únicas histórias minhas são “O Outono”, a música mais antiga de todas, feita em 2011, e o “Oi Velho”. O “Manobra de Heimlich” é sobre um amigo cheio de talento e de coisas bonitas dentro dele, mas que parece estar sempre no meio da escuridão. O “Dentes Afiados” é sobre mim, mas também pode não ser [risos]. O pessoal está sempre a dizer-me: «Devias era falar mais sobre música e menos sobre política. ‘Vão-se lixar! Deixem-me paz. Eu falo sobre o que eu quiser [risos]’». O “Marialva” também não… Aliás, esse tema é um ‘bife’. Fiz numa Roland MC-505 Groovebox, na altura estava a ouvir muito Adult Jazz e achava o primeiro disco muito bom, cheio de espaço. Então fiz uma cena só com dois acordes e fui pondo coisas em cima. Como a música tinha uma matriz próxima da forma de produzir do hip-hop, pensei fazer uma letra tipo ‘bife’, mas não foi para ninguém em particular. Se pensares, na indie pop há pouco disso, talvez o B Fachada e os Cafetras, mas até são amigos, é uma cena saudável. E gosto disso. Escrevo sobre um gajo que acha que chega a qualquer sítio e que é tudo dele e que se esquece que antes já lá estavam outras pessoas. O “Catatua” é mais um ‘bife’. Começou com um refrão sobre uma pessoa do nosso grupo de amigos que está sempre a ver o Instagram para saber quem fez likes a quem, quem anda enrolado com quem. Mega chata! Mas não lhe quis dar o prazer de fazer uma música sobre ela, então fiz uma analogia com a Penélope [da “Odisseia”, de Homero]. Por fim, “Não Sou Pablo, Nada Muda”, que quando escrevi não era autobiográfico, mas entretanto já senti que pode ser. O disco fala, sobretudo, de cenas que um gajo vai observando.

Há uns tempos disseste que se o sector da Cultura continuar assim, ias ter de arranjar um trabalho das “9 às 5”. Ainda pensas assim?
Ainda não sei se vou conseguir manter-me. Estamos todos na mesma luta. Tenho 41 anos e não sei que capacidade o mercado de trabalho tem para incorporar uma pessoa que nunca trabalhou noutra coisa que não na música. Já tive vários trabalhos para completar o meu trabalho enquanto músico, mas não uma carreira. Apesar de ter estudado Engenharia Electrotécnica, nunca trabalhei como engenheiro. Isso preocupa-me, porque não sei quando é que a nossa indústria vai voltar. Agora, está nas lonas. Ainda por cima, além de ser músico, sou agente, ou seja, os meus rendimentos vêm sempre da mesma actividade: concertos. Antes da pandemia, numa conversa com a minha namorada, disse-lhe que não gramava a sensação de ter as fichas todas no mesmo sítio e como tinha juntado um dinheirito andava activamente a pensar numa cena onde pudesse investir.

Olha, uma esplanada…
[risos] Uma esplanada agora dava, sim, sem dúvida. Mas tapada e aquecida [risos]. Andava a pensar nisso e ela disse-me que era preciso uma catástrofe para ir tudo abaixo… E pronto, aí a temos. E isto acontece e sentes-te completamente abandonado pelo Estado, que nem sequer reconhece o tecido da nossa indústria. Isto tem muito que ver com a forma como as pessoas se relacionam socialmente com a Cultura, que é um ‘hobbie’, um privilégio, um capricho, não é um trabalho sério. Toda a gente acha que os artistas são ricos, porque aparecem na rádio ou na televisão, como se todos aparecessem e, mesmo aparecendo, como se isso fosse sinónimo de estarem muito bem financeiramente. Mal sabem as pessoas que temos de nos desmultiplicar por várias bandas para conseguir pagar a renda e pôr comida na mesa. Depois, há aquela narrativa de merda destes populismos da caca que nem vou mencionar de que os artistas são subsídio-dependentes. Posso afirmar com todos os dentes que nunca recebi um tostão do Estado por ser artista. Nunca! Uma coisa é fazer um concerto para uma Câmara Municipal… Mas as autarquias também compram papel higiénico e não vejo ninguém a acusar o Estado de subsidiar a indústria do papel higiénico. É um serviço que estamos a prestar, como outro qualquer. No meio da pandemia, se já sabíamos, agora mais certezas temos de que o Estado não quer saber da Cultura.

Sinto-me amorfo, quase sem energia para reagir. Sinto que já é quase inútil dizer alguma coisa.

Achas que é um problema de ter à frente do Ministério mais tecnocratas do que pessoas da Cultura?
Talvez. Mas mesmo que tenhas lá alguém da Cultura, vai depender muito de que meio é que veio essa pessoa. Por exemplo, com todo o respeito, mas peguemos no exemplo do Carlos Moedas, que estava na Fundação Calouste Gulbenkian. A Gulbenkian não espelha, nem um décimo, o que é o tecido cultural em Portugal. Que noção é que um Carlos Moedas, se acabasse por ir para o Ministério da Cultura, tem acerca do sector? Não tem. Tem uma noção elitista da Cultura. Portanto, depende muito de onde é que a pessoa vem. Julgo que se meteres alguém que venha da EGEAC talvez tenha um bocado mais de noção. Há dois anos, estive à mesa com o Pedro Azevedo e com o responsável do departamento de exportação musical belga e fiquei tão triste, tão triste… Ele tanto apoiava uma banda super pop em tour nos Estados Unidos, como a artista mais independente, era uma pessoa que tinha noção da transversalidade da Cultura, noção do quanto tudo é válido e necessário. Tens de apoiar um pouco de tudo e não vejo nada disso em Portugal. Sinto-me muito desiludido com este Governo. É muita manchete de jornal a dizer que apoia a Cultura, mas depois desanda-se! Pouca acção concreta. Isso choca-me. É desonesto. Passa uma ideia de muito apoio à Cultura e depois vais a ver e os obstáculos todos com que te deparas, como estas questões com os CAE principais e secundários. Este ano desiludi-me imenso, fiquei muito triste com isto tudo. Nestas merdas, nunca fico calado e dou por mim calado nos últimos tempos. Sinto-me amorfo, quase sem energia para reagir. Penso: «Estou a gritar para quem?» Sinto que já é quase inútil dizer alguma coisa.

No meio deste cenário, o que é que ainda te motiva?
Em 2008, decidi ser músico e procurei trabalhos com a consciência de que estava a traçar um destino para a minha vida, um destino muito menos seguro do que se tivesse seguido Engenharia. Teve que ver com paixão, com drive, com felicidade. Nunca quis ser rico e se há coisa fixe de ter sido sempre de classe média baixa foi não ter um standard gigante, não ter querido uma televisão gigante no quarto, nunca fui dessas merdas e aprendi desde sempre a viver com pouco. Isso fez-me ter menos apego a esta coisa de ter de fazer dinheiro. Lancei-me sem medo. Comecei a procurar trabalho em agências de booking, foi assim que fui parar à Lisboa Agência. E o que me motiva hoje em dia é o mesmo que me motivou nessa altura, sei que ser músico é o que me faz feliz. Vou fazer tudo para continuar a ser músico. Até ao dia em que perceber que vou ter de arranjar outro trabalho qualquer.

Sou o primeiro a rir quando dou um prego na bateria. A tocar teclas, não, um prego para mim era catastrófico

Voltemos a “Murais”. Achas que os sucessivos atrasos no lançamento do teu disco fizeram-no perder o timing?
Tinha muito medo disso, mas as reacções das pessoas têm-me feito sentir que o disco ainda tem vida pela frente, tem estrada para fazer. Lá está, o Benke fez um trabalho do caraças, porque estas músicas podiam ser só canções simples e datadas e ele deu uma plasticidade muito actual aos temas. Ele é de Boogarins, que é rock psicadélico, mas o gajo adora Frank Ocean e Kanye West, portanto… Se ele ler isto manda-me à merda [risos], mas sei que ele gosta muito dessas cenas, pelo menos do ponto de vista plástico, da forma como os sons sons usados, a forma como se distorce e manipula sons orgânicos. Acho que o melhor que fiz foi dar-lho a produzir.

Quando imaginas o concerto de MURAIS, à frente, atrás do teclado em vez de sentado atrás da bateria, sentes aquele frio na barriga?
Fiz as pazes com isso no dia 16 de Abril, no dia em que editei o meu disco. Estava a fazer o showcase da FNAC e pensei: «Vou fazer isto bué bem». Senti mesmo que conseguia estar muito contente a fazer isto. Não estava apenas consciente se estava a fazer bem ou mal, estava mesmo a curtir, já me ria se dava pregos. Na bateria, não quero saber se dou pregos, não tenho nada a provar a ninguém enquanto baterista, por isso não quero saber. Sou o primeiro a rir quando dou um prego. A tocar teclas, não, um prego para mim era catastrófico.

Pensei que ia ser trucidado pelos fãs dos Moonspell. Ainda por cima fui metaleiro

A estreia ao vivo foi em 2020, no Lisboa ao Palco. Como é que correu?
Nesse concerto, houve um momento em que dei mesmo um prego e lembro-me de pensar: «Puto, foi só uma nota ao lado, calma!» Chegou a segunda volta e ‘pumba’, o mesmo prego.

Mas assim até pareceu arranjo…
Ya… [risos] Por acaso, o André Geraldes estava a ver o concerto e no final disse-me que tinha sentido uma cena estranha, mas como na segunda volta fiz o mesmo pensou que era mesmo assim. Lá está, não foi prego, foi arranjo. Mas o concerto foi muito fixe. Quando recebi o convite, pensei que ia ser trucidado pelos fãs dos Moonspell. Ainda por cima fui metaleiro, comecei no metal. Lembro-me de como era, não ouvia mais nada. Mas depois achei que era uma boa oportunidade para experimentar isto ao vivo, porque ninguém iria esperar nada de mim. Achei que ia estar mega nervoso, mas não estava, e depois correu muito bem. Malta a abanar o pé, a curtir. Aí ainda estava com merdas, pus-me à esquerda no palco, o baterista [João Vairinhos] no meio e o Miguel Ferrador [sintetizadores e sampling] à direita, mas agora já troquei, eles chatearam-me a cabeça e pus-me ao meio.

Levas para o palco o disco exactamente como é ou há abertura para o improviso?
Não. Por exemplo, o Vairinhos tem uma forma de tocar diferente da minha e ia ser muito egoísta da minha parte exigir-lhe que tocasse igual a mim, porque não toca nem melhor nem pior, toca diferente, portanto, deixei-o sempre à vontade para fazer uma interpretação pessoal das músicas. Prefiro que ele sustente muito bem ao vivo o que está a fazer do que estar preocupado em fazer igual, porque não vai soar natural. Depois tenho o Ferrador, um músico muito bom, brutal, faz os synth bass todos com a mão esquerda e às vezes está a disparar os loops ao mesmo tempo com a mão direita.

O disco tem muitos samples e muito marados. Foste tu que os fizeste?
A maior parte foi o Benke. Ao vivo disparo eu ou o Miguel, depende do que cada um está a fazer no momento. O Miguel também dispara algumas guitarras através da MPC. Os violinos da Catarina são a única coisa que disparamos em backing track e os sopros do Cabrita, quando ele não pode ir, também são disparados, porque são muito importantes nos temas.

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