ENTREVISTA | Lefty, Rock Para Suar do Bigode

ENTREVISTA | Lefty, Rock Para Suar do Bigode

Nuno Sarafa
Inês Barrau

Nova banda de João Nobre em entrevista à AS sobre álbum de estreia “Andrómeda”, um verdadeiro statement sobre enganos e desenganos, esperas e bezanas, amor, (muito) sexo e empoderamento no feminino.

Leonor Andrade (voz), João Nobre (baixo / Da Weasel), Pablo Banazol (guitarra / Annie Road) e Dani (bateria / Bandex, Bicho do Mato). São estes os nomes por detrás dos Lefty, uma nova banda de pop rock que assenta a sua identidade no espírito DIY característico da cena punk.

Pela conversa que tivemos com eles, foi fácil perceber que querem fazer-nos viajar até às garagens dos anos 1980 com o seu som directo e cru, embora encaixado numa produção actual e robusta, que querem mostrar que as mulheres também podem cantar sobre sexo de forma explícita, e que desejam, acima de tudo, “incendiar” os palcos por onde passem. «Queremos mesmo fazer essa cena punk de pegar no combo e ir para a estrada com a guitarra às costas. Queremos suar do bigode».

O primeiro disco, “Andrómeda“, já está disponível para quem o quiser absorver, com 10 temas autobiográficos escritos pela pena de uma Leonor Andrade sem receio de julgamentos. A composição é de João Nobre, que partilha também a produção com João Martins, dos estúdios Ponto Zurca. A masterização ficou a cargo de John Davis (De La Soul, Gorillaz, The Killers, Noel Gallagher, Dua Lipa) e foi realizada nos estúdios Metropolis, em Londres.

Barcarena (29 Outubro), Maus Hábitos, no Porto (4 Novembro) e Faro (4 Dezembro) são as próximas paragens dos Lefty, uma banda de destros cujo nome é uma homenagem a Maria da Luz, mãe de João Nobre, que em criança foi obrigada a contrariar a destreza inata em escrever com a mão esquerda.

Esta é para o João. Anunciam-se como praticantes de um som que remete para as bandas de garagem dos anos 1980. Quando começaste a pensar em criar os Lefty, em algum momento te vieram à cabeça os Braindead?
João Nobre: Não estava nada à espera que fizessem essa ligação. [risos seguidos de pausa] Naturalmente que está tudo ligado, porque são as minhas origens. Sim, tem um pouco que ver, até algumas músicas, como a “Chave”, que tem uns pozinhos desse tempo, porque tem reminiscências punk rock ou hardcore punk core, mais do que propriamente o trash ou o metal que definiu o início dos Braindead. Porque nos anos seguintes da banda houve uma evolução numa direcção mais rock e funk rock. Mas sim, é natural que, sendo eu o compositor dos Lefty, todas essas vivências e origens estejam presentes…

Como foi o processo de trabalho dos Lefty antes de se juntarem ao Dani e ao Paulo?
Leonor Andrade: Começámos por fazer música os dois, eu e o João, pois sentimos grande química criativa logo desde o início. Também por culpa da pandemia, o processo passou muito por ser o João a fazer os instrumentais e a enviar-mos. Depois, eu escrevia letras e gravava vozes em casa e enviava de volta para ele. Quando percebemos que resultava e que tínhamos uma cena, decidimos convidar o Paulo e o Dani.

Mas as coisas começaram a ganhar forma quando o Paulo e o Dani se juntaram à banda ou já tinham muitas canções estruturadas e/ou fechadas antes de serem um quarteto?
João Nobre: O processo criativo passou basicamente por nós os dois, pelo que quando eles se juntaram já tínhamos quase tudo estruturado. Obviamente que com a entrada deles ganhou-se a textura que faltava. Cada um deles deu o seu cunho pessoal aos temas e, como é evidente, as composições ganharam logo outro corpo. Ao interpretares dás sempre muito de ti e foi isso que aconteceu. Portanto, a partir do momento em que passámos a ser um quarteto é que se pode considerar que passou a haver banda, porque há muito da identidade de cada um dos quatro nas composições.

Vocês dizem que fazem um som cru e directo, no entanto, a produção soa bastante actual e robusta. Qual foi a importância do João Martins neste resultado final?
João Nobre: Foi absolutamente fundamental. Para além de ser um comparsa que amo de paixão – a primeira vez que entrei num estúdio, com 16 anos, foi num estúdio dele -, o João Martins é um exímio captador. Só se consegue produzir bem quando se tem um excelente engenheiro de som, que te compreenda, que saiba o que vai na tua cabeça. Ele é exímio a captar todos os instrumentos. Às vezes podes produzir muito bem, mas se não tiveres um engenheiro de som que dê aquele sumo, as coisas podem ficar mais magras, mais fracas e insípidas, pelo que o papel dele foi fundamental neste disco, desde a captação ao tratamento do som, na pós-produção… foi mesmo fundamental.

Se há característica que define o som deste disco é mesmo a sala de captação

Além do som ser gordinho, há sempre um grão de distorção, quer na guitarra, como no baixo e na voz. Querem partilhar que equipamento utilizaram e se, por exemplo, no caso da voz, captaram já com distorção ou só acrescentaram o efeito numa fase seguinte?
João Nobre: Hoje em dia, e por questões financeiras, a maior parte das distorções são digitais, mas utilizámos sempre distorções analógicas, tanto na voz da Leonor, como nos instrumentos. São efeitos muitíssimo mais caros, mais difíceis de trabalhar. Acertas uma vez e, no dia seguinte, já não vai ser exactamente igual… mas tivemos a felicidade de o estúdio do João ter esse tipo de equipamento analógico, desde os delays às distorções. Grande parte dos efeitos foram analógicos. Mas não utilizámos na fonte, apenas em pós-produção. No entanto, no caso da Leonor, como ela puxa muito, há sempre um grão natural na voz, sendo que muitas vezes até pode dar a entender que a distorção é proveniente de um efeito, mas não é, é própria da voz dela. Mas a maior parte é analógica e colocada a posteriori.

Que material foi indispensável para gravar este disco?
João Nobre: Diria que a nossa grande preocupação foi a captação. Fomos para o Algarve, para o ZipMix, o estúdio da Viviane e do Tó, dos Entre Aspas, que tem uma excelente sala de captação de bateria, com a reverberação certa. E se há característica que define o som deste disco é mesmo a sala de captação. Gravámos tudo por pistas, apesar de que sempre que gravávamos bateria, eu tocava baixo com o Dani, para ser tudo mais dinâmico.

Falemos do título do álbum, “Andrómeda”, personagem da mitologia grega, uma princesa da Etiópia salva dos braços de um monstro marinho por amor. No vosso disco têm um tema com o título “O Amor Chegou e Veio Para Nos Matar”. Expliquem-me lá este paradoxo.
Leonor Andrade: Precisamos do amor para viver! [risos] Não sendo propositado, este álbum foi totalmente autobiográfico e esse tema em específico tem muito que ver com a minha perspectiva das relações amorosas. São as minhas histórias, as minhas vivências e esse título, essa canção, foi o desabafo de um certo estado de espírito que me fez sentir que o amor chegou e veio para nos matar. Mas atenção: não sou uma pessoa dark [risos].

As letras parecem realmente muito pessoais e há vários relatos de episódios que envolvem amor, sexo, afectos e esperas em vão no Cais do Sodré. Que princípio, meio e fim, que narrativa é esta que os Lefty nos querem contar em “Andrómeda”?
Leonor Andrade: Tentei escrever como falo, como penso. As letras têm, de facto, um cariz sexual, são algo duras e cruas e talvez não seja muito expectável uma mulher dizer este tipo de coisas – apesar de hoje em dia já ser muito mais natural, felizmente -, não é muito usual ouvir uma mulher cantar sobre sexo, sobre bezanas e esperas no cais do Sodré às seis da manhã… Pode ser um bocado estranho ouvir uma mulher contar estas histórias, mas a verdade é que as mulheres fazem-no. E fazem bem pior que os homens [risos]! Mas, essencialmente, tentei ser genuína. Está lá tudo.

Há muito desejo, muito desejo não correspondido, muito desapego em relação ao amor e aos afectos e há dois paradoxos, principalmente se compararmos a narrativa de “Sede” com a de “Camel”. Se no primeiro tema há empoderamento feminino, no segundo há exactamente o oposto, há subserviência. O que é que te aconteceu para escreveres estas coisas?
Leonor Andrade: [risos] É giro dizeres isso. A maior parte das letras falam maioritariamente do meu desapego, do meu quase desistir e o “Camel” é o oposto. E é baseado numa história verídica, aconteceu-me aquilo, de facto. Apesar de este ser um disco autobiográfico, as letras não estão todas ligadas a um único momento. Inspirei-me em coisas que me aconteceram em diferentes momentos da minha vida, diferentes estados de espírito, com diversas pessoas. Sou uma pessoa que se apaixona com enorme facilidade e por isso também caio com muito mais facilidade. O “Camel” é sobre quando nos desprendemos da nossa dignidade, da nossa necessidade de agradar ao outro e nos despirmos daquilo que nos define enquanto pessoas para conseguirmos ter um bocadinho da atenção da outra pessoa.

A nossa ideia é fazer uma tour de clubes pequenos para ajudar a criar a nossa identidade e dar-nos rodagem

Quanto ao nome Lefty, li que foi inspirado na teimosia da mãe do João, que em criança foi obrigada a contrariar a destreza inata em escrever com a mão esquerda e se tornou destra por obrigação e ambidestra por teimosia. Terá sido uma história que ouviste muitas vezes em miúdo e da qual nunca te esqueceste?
João Nobre: Foi exactamente isso, lembro-me de ser muito criança quando ouvi a minha mãe falar nessa história. Ela relatou vários episódios em que levou vergastadas com um pau de cerejeira e chorava baba e ranho apenas porque escrevia com a mão esquerda. Isso foi de tal forma traumático que fiquei com essa nuvem para o resto da vida. Então, prometi à minha mãe que um dia lhe faria uma homenagem. E assim surgiu o nome para a banda. É uma homenagem à minha mãe e a todos os canhotos.

E há algum canhoto na banda?
João Nobre: Não [risos]. Mas temos recebido montes de agradecimentos por nos termos lembrado dos canhotos. Há uma família inteira em que todos são canhotos e que nos agradeceram. É muito engraçado isso.

Suponho que o próximo passo seja incendiar uns palcos por aí…
João Nobre: Claro! A nossa ideia agora é fazer uma tour de clubes pequenos de norte a sul do país para ajudar a criar a nossa identidade e dar-nos rodagem. Queremos mesmo fazer essa cena punk de pegar no combo e ir para a estrada com a guitarra às costas e se calhar nos próprios carros. Queremos suar do bigode. Apetece-nos imenso fazer isso.

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