ENTREVISTA | SAL: Honestidade à Flor da Pele

ENTREVISTA | SAL: Honestidade à Flor da Pele

Nuno Sarafa

Os SAL, formados a partir das cinzas dos Diabo na Cruz, editaram recentemente “Passo Forte”, um disco de estreia recheado de canções que fundem as raízes da música tradicional portuguesa com elementos electrónicos e cuja narrativa relata preocupações e convicções (surpreendentemente) universais. A AS conversou com João Pinheiro e Daniel Mestre, que nos contam como tudo começou.

Estávamos em Maio de 2019 quando tudo se precipitou com o anúncio do fim de Diabo na Cruz. Havia ainda cerca de 20 concertos agendados que era preciso levar até ao público, mas já sem o vocalista Jorge Cruz. E assim se fechava um ciclo de 10 anos de estrada. Mas, como em tudo na vida, um outro estaria para começar. Na altura, nenhum destes músicos imaginava vir a formar a banda que agora consideram de toda uma vida. Mas assim parece ter sido.

A decisão de manter a família por perto e a necessidade de fazer o luto da banda do passado foram apanhadas no meio de uma pandemia inesperada, mas proveitosa. E, como a vontade move montanhas, João Pinheiro (bateria, percussões, teclados, vibrafone, electrónica, voz), Sérgio Pires (voz, viola braguesa, shruti box, teclados, electrónica) e João Gil (baixo, teclados, piano, guitarra, voz) lançaram o apelo a Daniel Mestre (guitarras, bandolim, viola braguesa, voz), igualmente com um passado ligado aos extintos Diabo na Cruz, e a Vicente Santos (teclados, piano, voz). E assim, das cinzas de uma banda, nasceria uma outra. Os SAL.

Durante meses a fio partilharam ficheiros numa plataforma online, fazendo crescer as canções do disco de estreia, “Passo Forte”, no qual também participaram Manuel Pinheiro (electrónica, percussões, voz), Bernardo Barata (baixo, voz), Carlão, Lilia Esteves, Pedro Puppe e João Firmino (voz).

O disco já está disponível nas lojas e nas principais plataformas digitais e revela-nos uma banda rock com uma sonoridade requintada que mistura as raízes da música tradicional portuguesa com um lado mais electrónico e contemporâneo. Estes argumentos podem ser confirmados ao vivo já no próximo dia 27 de Novembro, em Faro, no Festival Siga.

Se não tivessem feito aqueles últimos concertos de Diabo na Cruz em 2019 teriam avançado para esta banda?
João Pinheiro: Faríamos sempre qualquer coisa juntos, mas o impulso decisivo para avançarmos foram aqueles concertos. Foi preciso ter alguma coragem, principalmente o Sérgio [Pires], que assumiu a voz principal de Diabo na Cruz na fase final. Provavelmente teríamos feito os Sal na mesma, mas talvez fôssemos arranjar outro vocalista, alguém de fora. Mas sem dúvida que tinha de acontecer alguma coisa. Sentíamo-nos família e não podíamos parar por ali. Diabo na Cruz chegou ao seu final de vida, era uma banda que já não podia continuar, mas havia uma química que não queríamos desperdiçar. O passo seguinte teria de ser criar uma banda nova. Mas os moldes para fazermos SAL foram definidos, em grande parte, por essa atitude do Sérgio em assumir-se como cara e voz de Diabo na Cruz quando o Jorge [Cruz] decidiu não continuar.

Alguns destes temas dos SAL foram feitos nessa fase final de Diabo na Cruz?
João Pinheiro: Não, apenas começámos a fazer canções novas quando terminámos a tour final de Diabo, mas durante esse período fomos cimentando a ideia de que iríamos continuar a fazer música juntos. Lembro-me que estávamos num quarto de hotel em Óbidos, depois do último concerto que demos com Diabo na Cruz, e sentimos esse apelo. Começámos a pensar no dia seguinte e no que iríamos fazer. Até aí estávamos concentrados nos concertos. A ideia de criar os SAL começou a surgir nos últimos meses de 2019.

Nem deu tempo para a nostalgia ou para fazer o luto…
Daniel Mestre: Cada um tomou o seu tempo a digerir o que tinha acontecido. O João [Pinheiro] foi talvez o que mais rapidamente se lançou para trabalhar em algo novo. Mas a maneira como cada um fez o luto foi diferente. Para o João Pinheiro e para o João Gil, que estavam nos Diabo praticamente desde o primeiro dia, o luto foi diferente do meu, por exemplo, que entrei para a banda já depois da saída do Jorge. A questão não era a iniciativa, porque toda a gente queria fazer uma banda nova. A solução foi avançar rapidamente para uma nova cena, para nem sequer dar tempo para ficar a lamentar…
João Pinheiro: O meu luto foi feito no momento em que o Sérgio foi para cima do palco sem medos e o Dani, menos surpreendentemente, foi também para cima do palco sem medos. A minha dor maior era termos uma série de concertos marcados e deixar de os fazer. Não queria perder o Verão que tinha perspectivado… A minha mãe tinha acabado de morrer… Então, era claro para mim que queria muito fazer os concertos, desse por onde desse. Queria ir para o palco, dar tudo e fechar um capítulo. Passámos por situações meio estranhas até percebermos que o Sérgio também compunha. Apesar de a primeira canção ser minha [“Mal Antigo”], o Sérgio, a partir desse momento, abriu a torneira, mas antes disso andámos perdidos, falamos com malta para que escrevessem canções para nós, inclusivamente o Pedro da Silva Martins, com quem chegámos a reunir. Até que percebemos que a solução estava dentro do grupo.

Naquela fase final, a banda parecia mais livre em palco. Verdade?
João Pinheiro: Sim. Nós sentíamos isso, de facto. Sentimos uma certa liberdade e uma felicidade que até aí andavam um pouco arredadas da banda… Mas não queremos falar do passado. No entanto, olhando para trás e vendo tudo o que aconteceu, a verdade é que foram tudo coisas inevitáveis, tinham de acontecer assim para agora estarmos aqui a falar de SAL.

Esta é uma banda bastante democrática e essa cena numa banda é sempre muito dúbia

Como é que foram sendo construídos estes temas de “Passo Forte”?
Daniel Mestre: Começa tudo antes da pandemia. A primeira ideia completa, o “Passo Forte”, surgiu como ideia no final de 2019. O João gravou uma demo com praticamente tudo, só a voz é que entrou mais tarde, e sentimos que havia qualquer coisa especial que podíamos agarrar. Depois, surgiu o “Morrer”, e essas duas foram gravadas em Março de 2020.

Mas então não gravaram o disco como um todo, só de uma vez?
João Pinheiro: Não, primeiro gravámos essa primeira fase, três temas, um dos quais ficou de fora, e a ideia era fazer um EP. Saímos do estúdio no dia anterior ao primeiro confinamento… A nossa cabeça estava noutro mundo. As ideias foram surgindo, mas há que salientar o papel do Manuel Pinheiro, que achava que devia haver uma plataforma que desse para todos contribuirmos sem estarmos dependentes uns dos outros. Aí ele descobriu o OHM, um software multipistas online, e essa ferramenta ajudou bastante durante aqueles meses, porque foi possível cada um ir somando pistas em cima do que os outros já tinham feito e o trabalho desenvolveu-se muito mais rapidamente. Algumas canções surgiram logo mais estruturadas, outras tiveram de ser mais trabalhadas, como foram os casos de “Não Sou da Paz” e “Fim do Mundo”, que começaram com uma linha de voz do Sérgio. Depois, tivemos de perceber como seria a parte harmónica e fizemos vários testes até chegar ao resultado final. Por exemplo, “De Que É Feito Este Chão” foi uma soma gigante de coisas, que depois tivemos de retirar também… Sim, foi uma forma muito diferente de fazer música em conjunto. Mas eu e o Sérgio fomos talvez os que mais trabalhámos juntos no início, a fazer aquela exploração no nada. Lembro-me de vir para o estúdio e gravar tudo e mais alguma coisa; shakers, agora uma pandeireta, de repente já tinha um monte de pistas… e pensava que tinha de ter calma… [risos] Depois, a fase mais fixe e mais acesa foi quando já estávamos todos a colaborar nessa plataforma. E aí é que se começa a sentir a forma como as ideias de cada um enriqueciam a coisa.

Cada um de vocês é um multi-instrumentista e por isso as canções também têm muitas camadas. Conseguem transportar essa massa acústica para o palco?
João Pinheiro: Acho que sim, porque esta é uma banda que quer que as canções gravadas sejam possíveis de serem tocadas ao vivo. É verdade que as músicas têm de facto muitas camadas e tem sido um esforço grande tentar cantar e tocar tudo, mas obviamente que algumas coisas têm de ficar de fora. Muitas percussões estão a ficar de fora, até porque não gostamos de lançar percussões acústicas ou vozes por via electrónica. O disco foi ambicioso e fruto do tal método de que falámos em que cada um foi acrescentando as suas ideias. Foi um método fixe, mas que também poderia ter-se virado contra nós. Felizmente, acho que correu bem. Quanto aos concertos, claro que não conseguimos levar tudo, mas conseguimos defender bem o disco ao vivo e julgo que não se perde a perspectiva daquilo que é a música gravada.

Ainda assim, a porta está aberta à entrada de novos elementos?
João Pinheiro: A liberdade é total nesta banda. Estamos sempre abertos a experimentar coisas. Mas estamos numa cena muito pacífica e agradável neste equilíbrio que existe entre os cinco. Tem que ser algo ou alguém que faça mesmo sentido. Aqui, tudo funciona muito bem em termos pessoais e profissionais, é uma banda bastante democrática e uma cena democrática numa banda é uma cena sempre muito dúbia. Tenho a experiência de bandas democráticas e foi sempre muito complexo. É difícil de funcionar. As coisas tendem a avançar devagar. Não estou a fazer a apologia da ditadura. Gosto muito mais deste balanço entre pessoas, que é muito mais enriquecedor do que uma banda onde há um líder. Há sempre momentos em que alguém tem de sobrepor a sua opinião, isso é normal, mas nesses momentos é que se vê a importância do equilíbrio. Mas a porta está sempre aberta.

Há liberdade de dizer o que vai na alma e não esconder as convicções interventivas. Isso não acontecia em Diabo na Cruz

Centrando agora na narrativa deste disco, há uma componente muito forte de intervenção e há letras com as quais qualquer pessoa facilmente se identifica. Esta é uma música muito mais interventiva e politizada do que a que haviam feito no passado, certo?
João Pinheiro: A contingência da pandemia ajudou muito, mas foi uma coisa bastante natural. Lembro-me de estar a falar com o Sérgio e de concluirmos que as bandas estão cada vez menos interventivas e não quero com isto dizer que essa conversa condicionou as letras de SAL, mas foi mais naquela perspectiva de sentir a liberdade de dizer o que vai na alma e não esconder as preocupações e convicções interventivas. Isso não acontecia em Diabo na Cruz, não havia uma tomada de partido.
Daniel Mestre: Parece-me que o pessoal da música tem um bocado de medo em assumir o que quer que seja. Quando ouvi pela primeira vez “Não Sou da Paz”, por exemplo, senti que poderia ser algo mais do que estava a ouvir naquele momento, ou seja, que a canção tem algo de maior em si mesma. Digo isto e não quero parecer pouco humilde, mas foi o que senti, que poderia ser uma canção para ficar mais além do que apenas no presente.

É quase como um novo hino do quotidiano…
Daniel Mestre: Percebo o que queres dizer. Pode ser arriscado tomar uma posição e colarem-te determinados rótulos. Mas não estamos nada preocupados com isso. Não costumo dizer isto, mas chateia-me que nas celebrações do 25 de Abril, por exemplo, quando se fala de liberdade vai buscar-se sempre o “Grândola Vila Morena” e parece que não existiu mais nada na música sinónimo de liberdade entre essa canção e o presente. Não há mais nada que tenha esse peso. É um espaço temporal demasiado grande para não surgir mais nada.
João Pinheiro: Eu talvez estivesse demasiado envolvido nos beats e nos arranjos e por isso só entretanto é que me apercebi do poder dessa canção, quando olhei para a letra com a devida atenção. A letra é clara, não há ali segundos sentidos, é contra a injustiça, a favor da liberdade e mexe um bocado com quem a ouve. É in your face. Só senti isto com esta letra, ou seja, ela há-de ter algo de especial. É uma letra sobre algo universal e isso é raro de se encontrar. Normalmente, as letras têm que ver com a experiência pessoal de quem as escreve. E nunca pensámos nessa música como single; tem 5 minutos e já houve rádios que estranharam e sugeriram fazer um radio edit. Nós não quisemos fazer isso. Não estamos a esconder o nosso legado de 10 anos em Diabo na Cruz, onde mantive uma ligação forte às raízes da música portuguesa. Fechar o disco com um rancho folclórico é quase como uma declaração de intenções, quase tanto como o “Passo Forte”. Em SAL, há mais transparência e mais honestidade. É uma coisa à flor da pele, uma coisa directa e honesta.

De quem é a voz de criança no final de “Fim do Mundo”?
João Pinheiro: É do meu filho [risos]. Essa canção até estava fora do alinhamento do disco. Mas o Sérgio achou que devíamos pegar no tema e, em vez de irmos para o Namouche outra vez, aproveitámos a pré-produção, regravaram-se guitarras, teclados e vozes. Um dos adufes foi gravado inclusivamente com o gravador Zoom e não está nada mau! Muito graças ao Pedro Gerardo, que misturou o disco. Mas esse tema tem essa história curiosa: quando estava mesmo a acabar de gravar um take, o meu puto entra aqui na sala e diz-me qualquer coisa tipo “eu vou para a sala tocar”… A malta adorou e achou por bem deixar a voz do meu filho. É também o retrato do momento em que tudo foi feito… toda a gente em casa a tentar fazer coisas, com a família por perto.

E quem é a criança sem dente que está na capa do álbum?
João Pinheiro: A criança na capa é filha de um fotógrafo amigo da banda, o Filipe Bonito. Um dia, abri o Instagram dele e a foto que me saltou à vista foi precisamente essa… uma criança a quem caiu o primeiro dente – e este é o nosso primeiro dente também – com uma expressão de garra… Podia ser o filho de qualquer um de nós, mas não é. Foi a primeira e única ideia que surgiu para capa.

Os temas mudaram muito na viagem entre a sala de ensaios e o estúdio?
João Pinheiro: Houve um grande trabalho de pré-produção, por isso as canções acabaram por não sofrer muitas alterações no estúdio. Quando fomos para estúdio levávamos tudo bastante fechado.

Outra coisa curiosa é serem uma banda que agarra nas raízes da música tradicional portuguesa e as mistura com elementos electrónicos e até com Auto-Tune…
João Pinheiro: A ideia de meter Auto-Tune foi muito fixe. O Sérgio apaixonou-se por aquilo e achamos que ficava muito bem. É uma ferramenta que se afasta do nosso som, mas uma das coisas que mais nos interessa é, não perdendo a raiz, levar as coisas para outros caminhos menos comuns. Usar efeitos como reverbs e delays nos cavaquinhos, nos bandolins, usar muitos sintetizadores. Usar coisas inesperadas. Esse é o mote.

SAL não é um produto, não é a visão de uma só pessoa, é uma banda!

Pode dizer-se que a identidade dos SAL é cunhada a partir dessa fusão de elementos teoricamente opostos?
João Pinheiro: Já tinha explorado isso bastante em Diabo na Cruz e aqui, como não tenho percussionista a tocar comigo, tenho de explorar um pouco mais e virar-me para três sítios diferentes. Mas não sou pioneiro a fazer isto. Ainda é um universo a explorar. Agora ando a pensar como tocar os dois bombos ao mesmo tempo, algo que nunca fiz na vida [risos].

E ao lado de bombos, shruti box, bandolins e viola braguesa há guitarras eléctricas abrasivas e industriais como em “Faz Por Merecer” ou uma entrada à Doors em “A Semente E O Pastor”…
João Pinheiro: Quando ouvi o disco, senti que a partir de “Faz Por Merecer” é que se percebe que não soamos exactamente como Diabo na Cruz, aliás, que é bastante diferente. Esse tema é bastante industrial, não há percussões acústicas, é tudo electrónico e, de repente, o Daniel enviou-nos umas guitarras pesadonas, abrasivas, assim a mandar uns Nine Inch Nails e a ocupar um espaço que não ocupa noutros temas. Esse é um dos meus temas preferidos. Mas, se pudesse voltar atrás, simplificava a minha parte, que são os beats e a parte electrónica. Fui demasiado ambicioso e egoísta porque não deixei grande espaço para eles. [risos].
Daniel Mestre: Quanto às guitarras de “Faz Por Merecer”, pensei em dois universos distintos: Chris Isaak e Nine Inch Nails.

Será esta a banda da vossa vida?
João Pinheiro: SAL não é um produto, não é a visão de uma só pessoa, é uma banda! Esta é a banda que, se nada correr diferente do que está a acontecer, vou ter até ao fim da minha vida! Não vejo esta banda a ter um fim, tal como outras em que estou, mas esta é uma banda muito mais minha, mais nossa, do que qualquer outra  que possamos ter.

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