Fandango: Tradição em Beats

Fandango: Tradição em Beats

Inês Barrau

Nos bastidores da tenda electrónica do Rock In Rio, Luis Varatojo e Gabriel Gomes falam-nos da contextualização da guitarra portuguesa e do acordeão em bases electrónicas.

São precisos dois para dançar o fandango. A amizade entre Luis Varatojo e Gabriel Gomes vem dançando já desde os tempos do terceiro álbum dos Peste & Sida, com o apropriado título “Eles Andam Aí”. Fandango surgiu, de forma espontânea, como reflexo do cruzamento mais frequente dos dois músicos em tempos mais recentes, como explica Varatojo: «Aqui há dois ou três anos tivemos num concurso de artes nos Açores, do qual fomos júri. Nessa altura, estivemos 3 dias na Ilha Terceira e fomos falando. E veio à tona esse interesse na música mais electrónica e a possibilidade de fazermos alguma coisa em conjunto».

A ideia foi aprofundada no Clube Naval, em Belém, com vista para o Tejo. «Definiu-se aí o ambiente que queríamos». Nos bastidores do Rock in Rio, a Arte Sonora conversou com os dois músicos, sobre o contexto do projecto: música que dançável, instrumental que juntasse ferramentas tão queridas à música tradicional portuguesa como guitarra portuguesa e acordeão, e que fosse instrumental.

Porquê o electrónico?
Gabriel Gomes: Estamos mais ligados ao acústico, mas somos apologistas de novas ferramentas, que são as digitais! E já fizemos outros trabalhos em electrónica, só que nunca tínhamos chegado a um compromisso como agora chegámos. Há muito tempo que gostaria de fazer qualquer coisa com o acordeão e com a electrónica, mas não sozinho. Quando falámos sobre isso, achei interessante que a guitarra e o acordeão preenchessem parte daquilo que gostava de fazer com a electrónica. E surgiu Fandango, um despique entre a guitarra e o acordeão neste ambiente.

A composição tem alguma regra? Fazem primeiro a melodia com a guitarra e o acordeão…
Luis Varatojo: Houve músicas no disco que saíram de uma melodia de guitarra, outras que saíram de uma melodia de acordeão e outras que saíram de uma base electrónica. Houve músicas que saíram de uma parte de uma melodia, mas depois foram compostas pelo outro com a parte electrónica, acrescentando mais alguma coisa ao tema que tinha sido feito… Portanto, não quisemos limitar muito as hipóteses, nem trabalhar com um método muito fechado. Fazia algumas coisas em casa, mandava para o Gabriel e ele também me mandava umas coisas. E o que fomos recebendo, um e outro, eram coisas muito diferentes e cada um depois completava. Isto, numa primeira fase! Depois juntámo-nos para acabar os arranjos e finalizar as músicas.

Que tipo de sintetização é que estão a usar? Alguma coisa vintage?
Gabriel Gomes: Vintage... Temos um Moog do Luís, que não é vintage porque é moderno… Mas é baseado.
Luis Varatojo: Há muitos sons no disco que têm outra máquina vintage, que é um E-mu Orbit – uma unidade rack só com sons de música de dança, e que reporta a 90/91. Neste momento já é uma máquina vintage, uma máquina analógica. Depois o Moog Sub Phatty, que foi bastante importante, naquelas músicas com a base de guitarra….
Gabriel Gomes: A composição, sobretudo, é no Ableton Live. É o que permite, de uma certa forma, conseguir uma estrutura sobre as músicas. E depois tudo o que seja trabalhar o som e os arranjos, é tudo feito no Logic, tal como as misturas finais. Houve mais sintetizadores e plugins, usámos desde o Stylus ao Omnisphere [ambos unidades Spectrasonics].

O plugin de percussão BreakTweaker, da iZotope, foi determinante no som do disco.

Luis Varatojo: Mas houve um plugin que foi bastante importante para o resultado do disco, que nem sequer é muito conhecido, que é o BreakTweaker, da iZotope. É um plugin só de percussão, de bateria, que nos veio dar um som muito específico a muitas coisas do disco, já quase no final da produção. A guitarra vai a um pré-amplificador Rane, dos anos 90, para acústico, com dois canais, que depois entra num circuito de pedais Eventide, pedais stereo – Delay e Harmonizer. Para finalizar, um TC Electronic com os reverbs e aí está o som da guitarra. Juntámos mais um microfone em estúdio, mais um ou dois microfones acústicos para complementar o som. Mas é assim que tenho conseguido aproximar o som da guitarra portuguesa, que é um som bastante frágil, a batidas fortes com bombos eléctricos e baixos eléctricos, sintetizadores, etc. Noutro caso, se não fosse assim, ela não conseguia estar, em termos de som, ao nível desses instrumentos todos.

E o acordeão?
Gabriel Gomes:
O acordeão é o Ballone Burini que é um acordeão que uso desde a altura dos Madredeus. Basicamente o que tem ao vivo é um efeito que é o delay. No estúdio teve mais algum processamento de som, que tem a ver com compressão, reverbs e delays, mas depende dos plugins que o engenheiro de som usou.

Optaram por fazer uma campanha de crowdfunding. Não recorreram a editoras porque não quiseram?
Gabriel Gomes: Também não houve ofertas! As editoras não se interessaram muito, excepto a Rastilho, que foi a que editou connosco. Mas o crowdfunding que nós fizemos, sobretudo serviu para promoção. Visto que o crowdfunding não teve finalidade, nós devolvemos o dinheiro. Embora, depois do crowdfunding, algumas pessoas quiseram contribuir para o disco, e foi isso que aconteceu. Contribuíram para o disco de uma forma directa e são essas pessoas que vêm no CD e no disco. Mas isso basicamente serviu para promoção, e acho que é uma boa estratégia para quem quiser promover o seu trabalho.

A banda irá passar a dia 12 de Agosto pelo BOOM Festival e a dia 14 do mesmo mês pelo festival Bons Sons.