Gibson, Como Tombou o Gigante?

Gibson, Como Tombou o Gigante?

Nero

Revemos o percurso da Gibson, que acompanhámos na última década. A procura de inovações na guitarra eléctrica e os derradeiros momentos que conduziram à crise na empresa.

De certa forma, a fundação da Arte Sonora está umbilicalmente ligada aos anos que viram a crise na Gibson acentuar-se até se tornar insustentável. Tudo terá começado a agudizar-se com o aumento de controlo das leis de protecção ambiental de 2008, que teria um enorme impacto negativo na marca fundada por Orville Gibson em 1902.

Poderá apontar-se, em certa medida, a queda de popularidade da guitarra eléctrica entre as novas gerações, mas essa parece ser uma falsa questão, porque a Gibson procurando reagir a isso, tomou conta de várias outras marcas de utilizador e a Fender, espécie de rival simbólico, está a viver um dos seus melhores períodos, de acordo com o seu próprio CEO, que culpa a Gibson pelos seus próprios problemas.

Para lá do dinheiro enterrado nas marcas de aparelhos electrónicos dedicados ao utilizador, como a Philips e a TASCAM à cabeça, a quebra acentuada na qualidade das guitarras fora da égide Custom Shop e a manutenção de preços bastante elevados e o enorme desinteresse nas relações com media e distribuidores locais, um dos maiores problemas da Gibson tem sido a sua estranha política no Departamento de Research & Development. As inovações que a marca procurou introduzir foram sempre bastante criticadas pela comunidade de guitarristas e parecem nunca ter sido verdadeiramente estratégicas.

GIBSON ROBOT GUITAR & G-FORCE

A AS estava no seu primeiro ano editorial (o primeiro número surgiu em Março de 2008) e viu a Gibson encetar uma enorme actualização à sua linha de Les Paul Standard. No meio dessas actualizações estava a Gibson Robot Guitar, guitarra que testámos na sua primeira versão (uma “Original 1st Production” no acabamento Blue Silverburst, que a marca jurou nunca mais utilizar) e cuja avaliação podem consultar se possuirem um arqueológico número AS de 2008. As GOR estiveram em produção entre 2008 e 2012 e usavam um computador no seu circuito que afinava automaticamente a guitarra – não era a primeira vez que surgia um modelo com essa capacidade, mas era a primeira vez que um modelo destes eram tão pouco invasivo.

O sistema não pesava muito na guitarra, eram três afinadores robóticos Powerhead Locking em cada lado do headstock, ponte tune-o-matic Powertune, com o respectivo design na tailpiece e um knob adicional que controlava as acções de afinação da guitarra. Cada saddle tinha um piezo que microprocessava a vibração de cada corda, o computador analizava essa informação e afinava automaticamente (se assim estivesse definido) a corda através de um pequeno servomecanismo. Podia determinar-se vários tipos de afinação. Era algo com pernas para andar, mas o preço nunca foi muito atraente e a Gibson abandonou este design, presumivelmente por vendas baixas.

Gibson Robot Guitar (GOR) “Original 1st Production”

Gibson Robot Guitar (GOR) “Original 1st Production”

No entanto, as propostas de inovação continuaram a surgir, consumindo recursos e não obtendo grandes vendas. Os produtos propostos, em muitos casos, pareciam conceitos inócuos ou algo confusos, como em 2014 com o sistema P-90 Sidewinder nas Gibson Futura. Já no ano passado, por exemplo, teve lugar a estreia da Burstdriver Les Paul, que também conseguiu granjear bastante antipatia. E, ao longo destes anos, a Gibson não abandonou totalmente a ideia de afinação automática. Logo em 2012, surgiu o sistema Min-ETune e, em 2015, surgiu o infame sistema G-Force. Esta inovação foi ainda mais criticada e, na verdade, afectava mais o equilíbrio das guitarras, tornando o headstock bem mais pesado.

MÁ FAMA

No início do milénio e ao longo dos anos mais recentes foi-se intensificando o controlo no uso de madeiras protegidas, através da revisão de 2008 do Lacey Act (de 1900), que estipula várias normas com o objectivo de protecção da vida selvagem, tanto animal como vegetal. A Gibson era uma das marcas sob maior suspeita de uso indevido dessas madeiras e, em 2009 foi alvo de uma rusga que detectou várias ilegalidades. Novamente, em 2011, uma rusga feita às suas instalações em Nashville e Memphis descobriu vários blocos de ébano e rosewood obtidos ilegalmente, o que resultou na sua apreensão. Isto resultou em várias multas, derivadas de um acordo judicial (para impedir multas ainda maiores). Todavia, os danos de imagem da marca nunca mais desapareceram.

As dívidas da marca terão começado a ganhar contornos mais gravosos a partir desse momento, até pela perda de stock e necessidade de ter que adquirir mais. Tudo isto teve naturais reflexos no preço final das guitarras de gama mais elevada ou nos modelos Custom Shop. Ao mesmo tempo, a comunidade de guitarristas passou a olhar com suspeita cada vez que a especificações de um modelo referiam materiais com o ébano – fosse devido à sua origem ou fosse devido à sua integridade e “pureza”. Mais recentemente, outro caso que criou algum mal-estar deve-se à estreia dos modelos Gibson Modern Flying V, acusados de serem cópias das Jackson Roswell Rhoads

Corpo dos modelos Gibson Modern Flying V, edição limitada de 2017.

CAOS GALOPANTE

A crise acentuada da Gibson foi tornada abertamente pública quando, a 26 de Outubro de 2017, um jornal local deu conta de que a lendária marca de guitarras estava a vender a icónica fábrica em Memphis. Nessa altura, não foram assumidos os enormes problemas financeiros da marca, tendo um comunicado oficial justificado a decisão com a mudança para um novo espaço (mais pequeno, imagine-se) adequado às necessidades actuais de produção. Mas, a partir daí, sucederam-se as notícias do caos.

No mês de Outubro de 2017, data em que celebrou 115 anos, a Gibson implodiu…

No início de 2018, a marca confirmou que iria abdicar da presença na Winter NAMM, optando por estar em Las Vegas no Consumer Electronics Show, numa decisão que visava reforçar a aposta nos produtos de utilizador, como a Philips, que agora vão ser completamente descartados no plano de reestruturação e refinanciamento da marca. O “desgoverno” foi-se tornando evidente e começou a colocar-se em causa a direcção de Henry Juszkiewicz. Ficou a saber-se claramente que a Gibson necessitava de saldar um valor total de dívidas na ordem dos 375 milhões de dólares até 23 de Julho de 2018 ou, falhando esse pagamento, as coimas fariam o montante aumentar em mais 145 milhões.

A falha do pagamento da dívida deveria ter consequências na direcção da marca, implicando a queda de Henry Juszkiewicz, actual CEO. De acordo com Kevin Cassidy, da Moody’s Investor Services (uma das três maiores agências de classificação de risco de crédito nos Estados Unidos): «Se esta situação terminar em bancarrota, ele (Juszkiewicz) irá abdicar totalmente da marca. Será necessário algum tipo de reestruturação. O negocio nuclear é estável e sustentável. Mas há um problema na folha de despesas e um problema operacional». Um cenário que apenas se confirmou parcialmente.

CHAPTER 11

A marca iniciou despedimentos e Juszkiewicz assumiu erros. A Gibson vai mesmo dedicar-se ao seu negócio nuclear. Contudo, no novo plano da marca, o CEO irá manter o seu lugar, conduzindo a Gibson Brands durante a intervenção do Chapter 11. O Título 11 do Código de Falência dos Estados Unidos permite que empresas no país com problemas financeiros possam reorganizar-se sob apertada vigilância judicial, mas mantendo o controlo das operações.

Mas o ressurgimento enfrenta ainda um grande obstáculo: o afastamento dos distribuidores da marca. Num artigo anterior, são citados vários agentes da indústria, como George Gruhn, dono da loja de Nashville Gruhn Guitars, por exemplo, que refere: «É preciso suportar tanto lixo para ser um distribuidor Gibson que, simplesmente, não vale a pena». Uma ideia que, sabe a AS, faz eco entre distribuidores e lojistas portugueses. As exigências financeiras da marca, as margens de lucro reduzidas e a forma como tudo isto se reflecte nos preços finais, que afastam o consumidor, têm afastado as guitarras do nosso mercado.

Veremos o que o futuro nos trará… #MakeGibsonGreatAgain