Gravar Um Bom Disco (E Preparar Tudo o Resto): A Sala de Ensaios

Gravar Um Bom Disco (E Preparar Tudo o Resto): A Sala de Ensaios

Fernando Matias

Fernando Matias, um dos mais entusiasmantes produtores no underground nacional, residente nos Pentagon Audio Manufacturers, criou uma série de artigos com os principais conceitos que devem dominar para criarem e gravarem o melhor disco possível.

Tenho uma boa notícia e uma má notícia: a má é que vos menti no último artigo, quando vos disse que nesta edição iria concluir a secção dos ensaios. A boa notícia é que vocês não são obrigados a ler isto (mas deviam!). A verdade é que senti necessidade de acrescentar mais informação e dificuldade em cortar texto (incluindo piadas foleiras). Infelizmente terão de me aturar por mais tempo. Chegado o momento em que temos músicos empenhados e com os trabalhos de casa feitos, vamos continuar, reflectindo um pouco sobre a sala de ensaios.

A sala de ensaios é o templo da banda e como tal merece todos os cuidados para que seja confortável e funcional. Para ensaios pontuais e para artistas com carências de backline o aluguer de sala à hora é a melhor opção, mas se precisarem de um ritmo de ensaios mais intenso, maior consistência entre sessões, ou se quiserem ter o vosso equipamento todo montado e ready to rock, então ter sala própria não só será mais prático como se tornará mais económico, uma vez ultrapassado o investimento inicial.

Há informação vastíssima espalhada pela rede com dicas sobre como a melhorar. Aqui na Arte Sonora também já se falou do assunto. Para evitar redundâncias, limito-me a enumerar uma lista de pré-requisitos essenciais a ter em conta – vocês desse lado terão de pôr a vossa sala de ensaios à prova e agir consoante as necessidades.

1) Não pode ser incómoda para a vizinhança. Se precisarem de fazer isolamento acústico para o exterior, lamento desiludir-vos mas a coisa não vai lá com corticite, carpetes e caixas de ovos. Apenas materiais densos ou múltiplas camadas de absorção separadas por caixas-de-ar conseguem reduções significativas. Mas há truques. Sabiam, por exemplo, que duas finas paredes de gesso cartonado recheadas a lã de rocha, quando bem instaladas, são mais eficientes do que uma de tijolo e cimento? E que duas paredes iguais duplicam a redução, ao passo que uma com o dobro da espessura é incapaz de o fazer?

A informação está toda online, procurem e metam mãos à obra. Escusado será dizer que se a vizinhança potencialmente incomodável estiver logo na parede ao lado, a probabilidade de chatice aumenta dramaticamente, por isso, não se ponham a jeito. «Vizinhos incomodados, ensaios arruinados», já dizia a minha avó, e irritar os vizinhos é bilhete garantido para falharem o pré-requisito que se segue.

2) Não pode ter vizinhança incómoda. Pessoalmente, gosto de pensar na sala de ensaios como uma espécie de bunker de alta segurança onde a única coisa que o liga do resto do mundo é a porta, quando aberta. Uma vez fechada: it’s all about the music, e se algum intruso precisar de a abrir, é bom que tenha razões muito fortes para o fazer. Também a interferência vinda do exterior da sala pode ser um problema. O serralheiro da garagem ao lado poderá não amedrontar uma banda de brutal death grind, mas uma cantora dream pop dificilmente terá a mesma opinião. É uma questão de foco e de concentração.

Ensaios tumultuosos são normalmente improdutivos, por isso, recomenda-se que dentro da sala, durante o ensaio, todas as atenções estejam centradas exclusivamente no que interessa – é tipo neuro-cirurgia em ambiente altamente susceptível a contágios ou, se preferirem, tipo comemoração de aniversário num quarto de hotel com uma cama redonda e espelhos no tecto: DO NOT DISTURB!

3) Tem de ser arrumada e organizada. Quer sejam os únicos ocupantes da sala, quer estejam numa sala partilhada, o espaço tem de ser organizado e funcional. Se perdem mais de ¼ do tempo do ensaio a ligar e desligar coisas é porque, definitivamente, estão a fazer algo errado. A sala e o equipamento têm de permitir montagens e desmontagens simples e rápidas, tanto nos dias de ensaio como nos dias em que é necessário levar o material para o exterior. Arranjem espaço para arrumações e evitem ter cabos, caixas e equipamentos espalhados pelo chão.

Definam bem o que deve ser considerado “instalação permanente” (o sistema de monição, por exemplo) e “instalação móvel” (instrumentos e backline). Planifiquem e esquematizem, meçam os equipamentos e ligações e desenhem uma planta de acordo com o espaço disponível, assentem ideias em papel, se tiverem um arquitecto à disposição, usem-no. Agendem dias de limpeza regulares e arrumem sempre depois de desarrumar. Fixem regras de boa conduta, se acharem necessário. Identifiquem, com fita e um marcador, o equipamento de cada músico e adicionem uma breve descrição, especialmente se forem cablagens (por exemplo, tuner out – amp in).

Tenham o equipamento arrumado dentro de cases, mas o mais plug and play possível. Façam um inventário completo, com diagramas do set de cada elemento (pensem nas instruções de montagem de um móvel do Ikea), mantenham-no actualizado e tenham-no sempre à mão para referência. Isto pode parecer absurdo, mas será de extrema utilidade em dia de concerto, ou em tour, quando regressarem a casa e tiverem de voltar a ligar tudo mais uma vez, pouparão tempo e evitarão dilemas ontológicos patéticos acerca da presumível existência daquele cabo amarelo, onde está, de quem é e para que serve – não permitam que causas menores como esta roubem tempo às vossas vidas.

4) Tem de ser confortável. A sala de ensaios é, possivelmente, o prolongamento do vosso quarto da adolescência, mas mais do que isso é um local de trabalho, por isso levem-no a sério e não se desleixem. Iluminação tipo de wc e aquele odor clássico a bolor, suor, cerveja e cigarros podem suscitar um certo romantismo punk mas, felizmente, há alternativas – façam da vossa sala de ensaios um local confortável, funcional, agradável à vista e que seja motivo de orgulho quando lá levam visitas – se corpo e mente se sentirem confortáveis, estarão mais disponíveis quando forem solicitados. Nem toda a gente tem o privilégio de trabalhar naquilo que gosta num local do seu agrado, até mesmo em part-time, por isso aproveitem a oportunidade e criem o vosso local de trabalho ideal.

5) Os músicos têm de se ouvir bem. Este é provavelmente o assunto mais sensível e o que merece mais cuidados. É necessário fazer um diagnóstico e apurar se a origem do mau som nos ensaios (se o tiverem) é: a) acústica da sala, b) disposição dos instrumentos no espaço ou c) o excesso de pressão sonora geral ou, por oposição, a falta de potência de algum equipamento.

a) ACÚSTICA DA SALA

A forma mais simples e económica de analisar o som de uma sala, se não tiverem acesso a ajuda profissional para fazer um tratamento acústico, é batendo palmas. «You listen to me, you live longer», como diria o improvável sidekick de Indiana Jones em “The Temple of Doom”. Agora que consegui fazer com que me imaginem como um aventuroso chinês miniaturizado, podem começar a fazer tudo o que mando: batam palmas! Oiçam o som e analisem. Idealmente deverá soar a uma pancada nítida e natural – tendencialmente seca, sem cauda nem repetições; sem estridência nos agudos e sem soar abafada e enrolada nos médios/graves. Isto é subjectivo e nem todos os artistas e estilos musicais pedem o mesmo tipo de acústica, mas se aquilo que ouvirem respeitar, na generalidade, estes critérios, é bom sinal.

De uma forma muito leiga (se desejarem informação mais aprofundada e técnica, google it), há várias dicas de acústica a levar em conta para vos ajudar a tratar o som da vossa sala de ensaios. Materiais duros (paredes de estuque, cimento, pedra, azulejo, vidro, etc.) aumentam as reflexões e acentuam as frequências agudas. Superfícies moles e porosas (madeira, cortiça, esponja, tecidos, carpetes, etc.) absorvem as reflexões e acentuam as frequências graves. Assim sendo, se a vossa sala for muito seca e abafada, está na altura de tirar algumas carpetes; se for muito viva e brilhante, há uma loja na Amadora, chamada O Zorro das Alcatifas, que poderá ser um bom local para visitar.

A coisa, no entanto, complica-se: paredes paralelas e salas com dimensões simétricas são especialmente terríveis a causar ecos incomodativos. Como se isto, por si só, já não bastasse, as frequências mais baixas têm especial tendência a criar ressonâncias persistentes ao ricochetearem pela sala, com maior incidência nas zonas onde várias superfícies de reflexão se encontram, ou seja, nos cantos e onde as paredes e tecto se unem. O mesmo não acontece com as frequências mais altas que, por terem comprimentos de onda mais curtos e por se propagarem de forma mais direccional, são mais fáceis de controlar e dissipar. Para resolver isto, a solução está em provocar irregularidades nas paredes e tecto, cortar os cantos à sala, ter prateleiras, posters, deflectores profissionais ou improvisados, candeiros, bolas de espelhos, enfim: o máximo de obstáculos possível para quebrar a simetria do espaço e dissipar as reflexões indesejáveis.

Os casos mais desesperados são as salas de dimensões muito reduzidas, abaixo dos 25m2. Salas maiores são sempre preferíveis e mais fáceis de tratar. Os espaços exíguos são, por sua vez, substacialmente mais temperamentais e imprevisíveis. A razão pela qual isto acontece é por não terem dimensão suficiente para deixar o som “voar” livremente até se perder, em vez disso fica concentrado num espaço pequeno a fazer piscinas alegremente de um lado para o outro à velocidade de 300 metros por segundo, criando ressonâncias indesejáveis e mascarando a fonte original do som. Por outras palavras: bombardeamento sonoro caótico vindo de todas as direcções. Se for este o vosso caso e não tiverem possibilidade de mudar, boa sorte e lembrem-se do seguinte:

Paredes-Chão-Tecto paralelos e configurações simétricas = evitar a todo o custo
Superfícies duras = Som reflectivo e brilhante
Superfícies moles = Som seco e abafado

b) DISPOSIÇÃO DOS INSTRUMENTOS NO ESPAÇO

Há muitas teorias a este respeito. Há quem prefira uma organização semelhante a um palco, há quem prefira previligiar o contacto visual e ter toda a gente em círculo. No que toca à nitidez do som, acreditem que uma sala com a acústica controlada soará bem com os instrumentos dispostos praticamente de qualquer maneira e num volume consideravelmente mais baixo. No entanto, não tenham medo de experimentar diferentes disposições e lembrem-se do seguinte:

b1) Dado haver aquela tendência para as frequências graves se “instalarem” no cantos, não se esqueçam que quem ficar nessa posição terá maior tendência para queixar-se de som enrolado e imperceptível. Joguem com a disposição dos instrumentos graves, por forma a controlar este problema.

b2) Superfícies duras e pratos de bateria são sempre uma péssima combinação. Onde existir uma bateria, terá obrigatoriamente de existir uma forma de controlar e dissipar as reflexões. Por isso, aquele canto com tijoleira no chão, azulejos nas paredes e tecto de vidro, dificilmente será a melhor localização para colocarem o vosso baterista.

b3) A espécie humana está em permanente evolução mas, ainda assim, nunca ouvi falar de guitarristas com ouvidos nos joelhos. Se tiverem o vosso amp no chão e se não conseguirem ouvi-lo, nem mesmo a um metro de distância, em vez de aumentarem o volume, experimentem apontar os altifalantes um pouco mais na direcção da vossa cabeça. Simples. Experimentem fazer monição cruzada. Em vez de terem o vosso amp a apontar para os joelhos e a infernizar a vida de quem estiver uns metros à frente, experimentem trocar de posições. Um altifalante apontado numa determinada direcção propaga o som de uma forma cónica, logo, estar mais longe do amp, não significa necessariamente ouvi-lo pior.

b4) Se sentirem que o som dos altifalantes apontado directamente aos músicos é demasiado agressivo, porque não experimentar sonorizações mais indirectas, aproveitando a acústica da sala. Não é uma técnica muito ortodoxa e depende muito das qualidades acústicas da sala mas já a ouvi resultar bem.

b5) Os microfones de voz são invariavelmente foco de problemas em ambientes fechados e ruidosos. A esmagadora maioria dos microfones de voz actuais têm um padrão polar cardióide. Significa isto que captam melhor o som que vem de frente e rejeitam o que vem do lado oposto. Joguem com este factor e tentem sempre ter os focos de ruído nas costas do microfone. Os vocalistas devem também evitar cobrir a grelha do mic com as mãos porque, ao fazê-lo, o microfone ganha uma característica omnidireccional, passando a captar todo o som ambiente e não apenas o que interessa.

c) EXCESSO DE PRESSÃO SONORA GERAL OU FALTA DE POTÊNCIA DE ALGUM EQUIPAMENTO

Um dos principais problemas do som dos ensaios gira em torno da subtil arte de balancear todos os volumes, para que todos consigam ouvir uma mistura equilibrada de tudo e, por cima disso, um pouco mais do próprio instrumento. A questão é que ao querer ouvir-se um pouco mais do próprio instrumento, corre-se o risco de prejudicar a escuta dos restantes companheiros, que sentirão necessidade de levantar também eles o volume, gerando um ciclo vicioso que apenas termina com os amps todos no 11, com o vocalista rouco, a lutar para se ouvir no meio do feedback, e com uma gloriosa tinite geral no final do ensaio.

Se chegaram a este ponto, então é a altura ideal para fazer um reset e começarem a fazer a mistura toda de raíz. Comecem pelo instrumento que não tem botão de volume, normalmente a bateria. É a pressão sonora deste instrumento que vai ditar a restante mistura. Podem aproveitar esta ocasião para tentar perceber a acústica da sala e corrigi-la, se necessário. Pessoalmente, não sou fã de abafar a bateria e, em estilos mais pesados, acho absurda a ideia de se pedir ao baterista que toque de forma mais suave. Uma bateria é o que é e soa àquilo a que tem de soar. Quanto muito, uma ligeira fita ou um pouco de MoonGel nos pratos, para controlar o sustain e pouco mais. É a própria sala que tem de soar bem e não a bateria que tem de soar a latões e caixas de sapatos. Outro detalhe importante é a afinação da mesma. Se o kit do vosso baterista soar consistentemente a esterco, obriguem-no a comprar peles novas e a ver uns tutoriais de afinação no YouTube.

A partir daqui testem o PA de voz. A voz tem de soar com claridade, sem feedback, por cima do som da bateria. Se assim não acontecer, precisarão de mais potência. De seguida levantem o som dos restantes instrumentos até criar uma mistura equilibrada, criem uma solução de compromisso e respeitem a regra de apenas levantar o som de elemento A ou B, no caso de toda a gente concordar que não se ouve. Se esse instrumento tiver dificuldades em furar na mistura, é possível que haja insuficiências na amplificação. Tenham também em atenção o espectro de frequências de cada instrumento. É o baixo, por exemplo, que tem de gerar os graves, não as guitarras, por isso tenham os potenciómetros do bass sob vigilância. Respeitar a gama de frequências natural de cada instrumento é meio caminho andado para conseguirem misturas mais nítidas.

Se tocarem rock especialmente pesado e sentirem dificuldade em ouvir o bombo, considerem a possibilidade de o micar e fazê-lo passar pelo PA. Lembrem-se também que, apesar de se tratar de um som originalmente grave, não têm de equalizá-lo com todos os graves disponíveis na mesa – isso irá roubar potência preciosa aos outros microfones, em particular às vozes. Equalizem-no com o mínimo de graves possível, apenas para que se perceba o kick. Se sentirem falta do vosso instrumento, tentem redireccionar os altifalantes um pouco mais na vossa direcção, antes de levantarem volumes. Se a mistura estiver bem para os outros, evitem ser vocês os primeiros a estragá-la.

Tentem sempre arranjar soluções que não prejudiquem o colectivo e, acima de tudo, questionem-se sobre a razão pela qual “precisam” de ouvir o vosso som mais alto. Estará, de facto, baixo? Estarão a perder audição? Egocentrismo? Não estão seguros do que estão a tocar e, dessa forma, precisam de se ouvir melhor para ter mesmo, mesmo a certeza de que não estarão a fazer m&%#a?

Se ainda assim não conseguirem arranjar uma solução satisfatória, considerem a possibilidade de individualizar a monição, nomeadamente, através de uma escuta por headphones. É uma solução interessante e mais económica, quando comparada com a compra de um PA completo de qualidade, de milhares de euros. Perde-se um pouco em rock, mas ganha-se em definição e, se for bem feito, em saúde auditiva. Se, por outro lado, for feito de forma descuidada, poderá ser desastroso e causar danos irreparáveis na vossa audição, por isso, tenham cuidado.

FREQUÊNCIAS À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS | Uma frequência de 20Hz tem um comprimento físico de cerca de 17 metros. Como é que uma frequência de 17 metros de comprimento pode ser reproduzida nitidamente, sem ressonâncias indesejáveis, numa sala comum com uma distância entre paredes duas a três vezes menor? Pois. Bem-vindo ao maravilhoso mundo da acústica.

HEADPHONES À MEDIDA | Querem experimentar uma escuta de headphones, mas não há orçamento para gastar centenas de euros num par de headphones com bom isolamento e pressão acústica suficiente? Experimentem antes comprar uns protectores auriculares da 3M e uns bons headphones HiFi, compactos o suficiente para caber dentro das copas. Habilitam-se a fazer a festa por menos de 50€, com resultados surpreendentes.

Artigo de Introdução, AQUI.
Artigo Sobre Ensaios, AQUI.