Guitarras, Brexit e a Celeuma Fronteiriça entre EUA e México

Guitarras, Brexit e a Celeuma Fronteiriça entre EUA e México

Nero

A mudança de paradigmas nas trocas comerciais que o Brexit poderá provocar. A administração Trump e o Muro. As diferenças entre modelos Fender mexicanos e norte-americanos na qualidade e preço.

O ambiente político entre Estados Unidos da América e México não é, para dizer o mínimo, o melhor. Não vamos entrar nesse lodo, excepto num detalhe que pode alterar uma situação que diz directamente respeito a músicos. As fábricas de instrumentos, os seus custos de operação e produção com foco particular na fábrica da Fender em Ensenada. A fábrica mexicana do gigante construtor de equipamento musical é responsável por várias das gamas economicamente mais acessíveis do Fender Musical Instruments Group [FMIC], ostentem elas a marca Fender, Squier, EVH ou Jackson, sejam amplificadores ou guitarras e baixos. Focamo-nos neste exemplo por ser aquele que conhecemos de perto, mas muitos conceitos podem ser aplicados a outras marcas.

Tudo isto do “economicamente mais acessível” poderá mudar, se as relaçãos de trocas comerciais internacionais continuarem a sofrer erosão devido aos conflitos fronteiriços políticos. E, na verdade, este fenómeno vai ser seriamente colocado à prova na ressaca do Brexit. Ainda há que perceber quais as consequências concretas, mas o colapso, mais ou menos evidente, dos actuais acordos comerciais internacionais terá, de facto, consequências.

Voltando ao exemplo de Ensenada e Corona e da Fender. Convencionou-se que os operários da fábrica mexicana não são tão especializados como os operários da fábrica estado-unidense. Sendo honestos, essa era uma ideia, de certa forma enraízada aqui na nossa redacção até termos a oportunidade de visitar ambas as fábricas. Não há diferenças substantivas entre as fábricas e os operários de cada uma delas, excepto, naturalmente, no que respeita à Fender Custom Shop. Em muitos casos, os operários alternam entre uma e outra fábrica, afinal, estão ambas situadas na Baixa Califórnia e não distam muito uma da outra, apesar da fronteira pelo meio.

Também são usadas em ambas as fábricas as mesmas máquinas de CNC (Controlo Numérico Computorizado). Há algo que é um facto e tem reflexo no custo dos instrumentos. A mão de obra é consideravelmente mais barata no México, onde o ordenado mínimo é cerca de 4 dólares/hora (nos Estados Unidos é quase o dobro). Dito isto, uma vez que são usadas as mesmas CNC, a Fender poderia fazer exactamente a mesma guitarra em qualquer uma das fábricas e cobrar menos pelos instrumentos construídos no México, pois o custo laboral é bastante menor. Porque não o fazem? Bom, essa é a questão do milhão de dólares…

ASSIM TÃO DIFERENTES?

Há uns anos era fácil diferenciar os modelos construídos num lado e noutro. Os instrumentos mexicanos recorriam a hardware e componentes mais baratos. Mas isso mudou. O controlo de qualidade segue também os mesmos moldes, como testemunhámos na visita às fábricas. Em teoria, os instrumentos “americanos” usam madeiras melhores. Mas a diferença está muito esbatida. Afinal as leis de protecção florestal e ambiental vão aproximar muito qualquer fabricante neste campo  e a Fender já está a adoptar o programa CITES, como referimos na política de abandono progressivo do rosewood. Além disso, a FMIC permite que o México produza instrumentos com uma nobreza bastante aproximada aos da fábrica de Corona. Isso é notório em várias gamas EVH, na Squier e mesmo em vários modelos Fender, como a aclamada gama Blacktop.

Durante bastante tempo, por exemplo, as Stratocasters ou as Teles Made In Mexico [MIM] não apresentavam os braços com a circunferência tão suavizada. Isso notava-se bastante nas arestas da escalas. E o mesmo se passava com o entalhe da skunk stripe. Mas também isso deixou praticamente de acontecer. Bom, há modelos em que não deixa de ser notório, mas é algo que pode ser, teoricamente, esbatido se apresentarem o problema a um bom luthier e a diferença de preço continuará a compensar em muitos casos. O mesmo poderia ser dito em relação aos circuitos de pickups.

A forma como a FMIC compensou isto foi através de um aumento de preços nos modelos MIM. E enquanto os lucros são positivos a ideia é que a empresa não se preocupa muito como os atinge, o que é excelente para os músicos. O país, neste momento, e uma vez mais, exceptuando a Fender Custom Shop (pudera) e a gama norte-americana Fender American Elite, já não tem muita preponderância na qualidade da guitarra, até porque estamos a falar de instrumentos produzidos em série, de forma massificada. De resto, essa foi a ambição original de Leo Fender.

Actualmente, e dizemo-lo uma vez mais, de um modo geral, importa mais experimentarem bem vários modelos e soluções e perceber, com as mãos na guitarra, aquele je ne sais quoi que ela exala e as evidências  que mais sobressaem da sua qualidade de construção. Coisa que, acreditem ou não, podem sentir através de passos simples como perceber a acção e a entonação da guitarra, a suavidade do braço, perder tempo a percorrer cada traste, perceber a solidez da instalação dos componentes e hardware.

MUROS

Este artigo poderá perder todo o sentido daqui a uns meses. Se as relações comerciais entre o México e os Estados Unidos se continuarem a deteriorar, o intercâmbio fronteiriço entre as fábricas da Fender poderá ter consequências. Aumentando as taxas alfandegárias será quase um reflexo natural que subam os custos dos instrumentos. E até que, para compensar, a FMIC o faça bilateralmente, aumentando os instrumentos mexicanos e estado-unidenses. Ou até que limite o mercado para a fábrica mexicana. Aliás, há o exemplo das guitarras japonesas da Fender que são, mais ou menos, uma coisa à parte.

A Fender Japan foi fundada em 1982, uma era de transição na Fender. De modo a competir com as cópias baratíssimas de guitarras e baixos da marca, a Fender deu plenos poderes à fábrica FugiGen Gakki para produzir guitarras mais económicas no Japão. Desde os primeiros modelos construídos, onde se incluem as primeiras reedições dos designs offset Jazzmaster e Jaguar, novos e estranhos designs, acabamentos exclusivos e pequenas variações aos padrões de produção clássicos, os modelos Made In Japan garantiram a sobrevivência da marca até surgir a fábrica de Corona. Nos anos 90 começaram a surgir os modelos Crafted In Japan, quando a fábrica japonesa foi mudada. A partir de 2015 a FMIC assumiu total controlo da produção japonesa. Actualmente, o que acontece no Japão, fica no Japão. É um mercado, basicamente, fechado.

Não temos qualquer competência para afirmar a justiça das medidas de política internacional do governo dos Estados Unidos. Mas criar muros irá complicar todo o comércio internacional e aumentar os custos de importação e exportação. Basta lembrar que, em 2018, a Moog, lendária marca de sintetização, teve que ponderar as acções a tomar para evitar os 25% de taxas de impostos sobre as placas de circuitos chineses, além dos componentes a isso associados, que utiliza nos seus produtos. Parecem estar a ser negociados novos acordos agora (ainda sem grandes conclusões, pelo menos na nossa perspectiva, completamente leiga nesses assuntos). No entanto, na altura, a marca enviou mesmo uma newsletter aos seus clientes e seguidores, avisando que essa taxa de importação terá efeitos «imediatos e drásticos no aumento dos custos de produção dos nossos instrumentos e contém potencial para nos forçar ao despedimento de funcionários e (no pior cenário possível) fazer com que mudemos algum do nosso fabrico, se não mesmo todo, para o estrangeiro». É matemática simples…

O que tem o Brexit a ver com tudo isto? Por maior boa vontade que as marcas mostrem, como a Moog manifestou, ou mesmo nos casos além da Fender, em que as marcas têm as suas bases de produção na Ásia, como os gigantes Yamaha Music ou Roland, por exemplo, o Reino Unido permanece como a grande base comercial  e fiscal das maiores marcas na indústria musical. Yamaha, Roland, Fender, Marshall, Orange, Gibson… Há poucos anos, as maiores marcas possuíam sede ibérica e, neste momento, a maioria recuou para o UK, mantendo uma presença muito residual no nosso país.

Foi uma aposta estranha, diga-se, afinal o Brexit é uma possibilidade há muito tempo (muito mesmo, pesquisem no Google) e o referendo que declarou a população britânica favorável à saída do Reino Unido da União Europeia já teve lugar em Junho de 2016! Talvez as marcas acabem por apostar em alternativas quanto à sua presença europeia.

De qualquer forma, o Brexit está aí e não se sabe muito bem se avançará sem acordo ou com acordo e com que tipo de acordo. A circulação e as taxas de importação e exportação vão sofrer necessariamente consequências (leia-se que os custos irão aumentar) se deixarem de estar abrangidas pela Zona Euro. Num instrumento da Gibson ou da Fender, como nos lembrava Adriano Sérgio, «que custa 3000€, 4000€, 2000€ ou 1500€, só 30 % é que vai para a fábrica. O resto é para impostos, para dealers, para licenças». Uma vez mais, pode supor-se que se as taxas de impostos subirem, se os custos de importação subirem, o preço dos instrumentos irá subir e se os mercados se fecharem, como no supracitado caso Fender Japan, então a oferta de modelos irá diminuir drasticamente. Menos instrumentos e mais caros…