Plexi Jim

Plexi Jim

Nero

A história de Jim Marshall é um autêntico conto de fadas do rock n’ roll!

Nascido em Londres, a 29 de Julho de 1923, o criador do som do rock, foi um self-made man, bem ao jeito do american dream. «Nunca tive uma educação apropriada, pois passei muito tempo hospitalizado», Jim teve uma infância sofrida, com a pobreza e diagnosticado com tuberculose óssea que o forçou a viver com a protecção, durante anos, de um invólucro de gesso. Assim, sem educação, começou a trabalhar aos 13 anos de idade, enquanto no tempo livre que possuía aprendeu sapateado, o que o conduziria ao mundo da música, como relembra «o líder de uma banda ouviu-me cantar e pediu-me uma audição». Teve sucesso na audição e, aos 14 anos, começou a trabalhar 6 noites por semana como vocalista duma big band. E aí surgiu a bateria.

Jim Marshall foi um exímio baterista de jazz.

Jim Marshall foi um exímio baterista de jazz.

Em 1942, o baterista da banda foi chamado para o exército,para combater na 2ª GGM, e Jim Marshall foi quem ocupou o seu lugar. Com o ritmo como algo inato, foi-se destacando enquanto baterista até se tornar bastante procurado para actuações e mesmo para dar aulas. Em breve tinha uma autêntica legião de 65 alunos. Consigo deram os primeiros passos nomes que se tornaram lendas, como Mitch Mitchell, que tocou com Jimi Hendrix, ou Micky Waller, que se destacou no Jeff Beck Group! O mundo da guitarra começava a manifestar-se na vida de Jim Marshall

Algo que começou a tornar-se mais decisivo quando Jim abriu uma loja de baterias, como recorda «os bateristas costumavam aparecer acompanhados das suas bandas, foi assim que conheci guitarristas como o Pete (Townshend) ou o Ritchie (Blackmore), que insistiam para que tivesse em armazém guitarras e amplificadores, até que decidi experimentar fazê-lo».

O primeiro amplificador da Marshall, o modelo JTM 45, de 1962.

O primeiro amplificador da Marshall, o modelo JTM 45, de 1962.

Negociando também equipamento de guitarra, rapidamente percebeu que todos os guitarristas procuravam algo que não conseguiam encontrar. «Escutar o que diziam deu-me uma ideia muito clara daquilo que desejavam. Então, decidi juntar uma pequena equipa para construir um amplificador a válvulas com o som específico que os rapazes perseguiam». Foi assim que, após várias tentativas, o primeiro Marshall de sempre, o JTM45, surgiu em 1962 e se tornou um sucesso imediato. Os amps foram experimentados com colunas 2×12, mas devido aos problemas técnicos, «rebentávamos altifalantes como se não houvesse amanhã! Então decidi colocar 4 altifalantes de 12’’ na caixa mais pequena que podíamos construir, para que fosse facilmente transportável», nasceu a Marshall 4×12, que ainda hoje é considerada um standard.

«Para ser honesto, quando me juntei com o Ken Bran e o Dudley Craven com a ideia de construir o primeiro amplificador de rock n’ roll do mundo, no outono de 1962, nenhum de nós fazia ideia do que o futuro nos reservava. Eu teria ficado deslumbrado se pudéssemos ter construído e vendido 50 amplificadores, não ousava sonhar que o nosso pequeno projeto duraria (mais de) 50 anos, quanto mais que iria crescer para se tornar numa companhia respeitada globalmente».

pete townshend marshall
Em 1965 surgiu outro monstro. «O Pete Townshend pediu-me que lhe construísse uma cabeça de 100 watts e uma coluna de 8×12. Concordei, avisando-o que os seus roadies não gostariam de carregar uma coluna tão grande, e sugeri desenhar uma 4×12 angulada, para encimar uma 4×12 normal como alternativa. O Pete não quis ouvir nada do que lhe estava a dizer, então construímos o que ele queria e ficou feliz da vida».

Contudo, a previsão de Jim mostrou-se correcta e o guitarrista dos The Who acabou por aceitar cortar a mítica coluna 8×12 em duas. O resultado foi a criação daquilo que, hoje em dia, é um dos ícones mais reconhecidos no universo do rock – um stack Marshall de 100 watts! A partir daí, o resto é história. A Marshall tornou-se a mais conhecida marca de amplificação, adquiriu um estatuto colossal e ganhou prémios prestigiantes. O desafio era manter o nível! Como?  Jim Marshall insiste na ideia fundamental com que se propôs a desenvolver os seus amplificadores, afirmando que «desde esse primeiro amplificador em 1962 que ouvimos com atenção aquilo que os guitarristas queriam relativamente a som e características e certificámo-nos de perceber completamente essas necessidades para nos esforçarmos por responder às suas expectativas – foi assim que a companhia cresceu. Também trabalhamos incansavelmente para nos assegurarmos que oferecemos o melhor valor possível sem desprezarmos a fiabilidade, componentes, qualidade de construção, acabamentos e claro, o fundamental – o Som!».

Foi com este espírito que a marca desenvolveu grandes modelos de assinatura como o 1959RR de Randy Rhoads, dos recentes YJM100 (baseado no clássico plexi de 1959) e o AFD100 (baseado no JCM800 alterado que Slash usou em “Appetite For Destruction”), aos poderosos MG15FXMSDM, com a respetiva coluna 1960DM, de Dave Mustaine e o 2203KK de Kerry King, depois os característicos 1987XPW de Paul Weller e o 1992LEM do mentor dos Motörhead, etc.

A sua importância no mundo da música é incalculável. Bastará relembrar ainda que Jim Marshall deu uma nova vida ao som de Jimi Hendrix. O Mago da guitarra passou a amplificar a sua guitarra, por influência de Pete Townshend, com 4 stacks encadeados de Marshall, com o glorioso plexi de 1965, o Marshall 1959, e Sound City (os amps tinham dois inputs, com o sinal de guitarra presente em ambos, ligava-se directamente o outro amp) numa procura constante por volume. Essa procura levou mesmo os Blue Öyster Cult a tornarem-se a primeira banda a utilizar uma parede de Marshall como backline, uma imagem que passou a povoar o imaginário de qualquer miúdo que tenha decidido alguma vez pegar numa guitarra eléctrica!

O 1959SLP Super Lead Plexi de 100 Watts

O 1959SLP Super Lead Plexi de 100 Watts

O JCM800.

O JCM800.

Ao lado do 1959 SLP, que povoou grandes clássicos do hard rock no final da década de 60 e durante a década de 70 encontra-se o outro monstro da marca criado em 1981, o JCM800 que, simplesmente, foi “O Som” do heavy metal – muito porque o amp aproveitava o conceito criado com o antecessor Master Volume, em que era possível retirar rendimento das válvulas com o volume de canal elevado, mas controlar o volume de output para níveis mais subtis. Depois, pela primeira vez a Marshall construiu amps com FX Loop e Reverb (e quanto foi usado o reverb na década de 80!), ao mesmo tempo que através de footswitch era possível alternar entre o canal clean e distorção. Além disso, o JCM800 tinha mais estágios de Gain, de resto, no modo Lead, com a guitarra ligada na entrada High Output, era activado um tríodo que fornecia ainda mais Gain na zona de pré-amp. Com um Marshall JCM800, com o overdrive original da Boss, depois com um Shure 57 ao meio da coluna, mesmo apontado ao speaker, mas com um desvio de 2 centímetros para a esquerda! Esse é o truque que toda a gente, desde o Randy Rhoads aos Metallica, Priest, Anthrax, usou. Há muitos engenheiros que estão em estúdio e experimentam microfones em todo o lado, mas para o som clássico do metal é assim tão simples.

Jim Marshall morreu a 05 de Abril de 2012, aos 88 anos de idade.

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Muito honestamente, a Marshall, mesmo após todos estes anos, tem um som para a guitarra de rock n’ roll, uma certa tonalidade, que mais nenhum outro amplificador conseguiu ainda ultrapassar. Como utente desse som, fui sempre como um advogado da Marshall. A notícia da morte do Jim Marshall é profundamente entristecedora. O rock n’ roll jamais será o mesmo sem ele. Mas os seus amps viverão para SEMPRE! – Slash