João Hasselberg trouxe a Primavera

João Hasselberg trouxe a Primavera

Nero

Surpreendente a cada momento, conciso, mas ainda assim amplo, deixando espaço à interpretação do próprio ouvinte e tornando o seu título uma coisa viva, pois neste álbum “o que quer que procurem, não virá na forma que esperam”. Ou, a única coisa que podem esperar é mesmo um grande disco.

Lançado a meio do Outono do ano passado, este álbum trouxe consigo a Primavera. Desde o calor das primeiras notas de saxofone de Ricardo Toscano, na introdução, e a leveza harmoniosa do trompete de Diogo Duque, em “In Cold Blood”. Trompetes e saxofones conduzidos, muitas vezes, ao piano por Luís Figueiredo e sob a liderança do contra-baixo de João Hasselberg poderiam indiciar um disco de jazz, mas não é “exactamente” esse o caso. Na fusão estética que o jovem compositor português promoveu no seu álbum de estreia, o que acontece é que este é um daqueles trabalhos que, transcendendo tipologias ou linguagem, atingem uma musicalidade arrebatadora. Capaz de ser exuberante e minimal, complexo e simples. Este enigma é suportado pela bateria de Bruno Pedroso e as guitarras de Afonso Pais e João Firmino, os três nunca são “desnecessários”, sendo antes sublimes.

Este é um daqueles trabalhos que, transcendendo tipologias ou linguagem, atingem uma musicalidade arrebatadora. Capaz de ser exuberante e minimal, complexo e simples.

Na mestria dinâmica de temas como “In Cold Blood”, a roçar o post rock, ou das verdadeiramente jazzísticas “Wild Sheep Chase” (bonito, é o adjectivo para qualificar este tema) e da sua reprise, “On the Road” – deslumbrantes os fills de pratos de Pedroso – ou “Amor de Perdição, é raro apercebermo-nos de que estamos a ouvir instrumentais, pois mesmo essas explorações de intensidades são… canções. E as canções? Somos embalados pela voz de Joana Espadinha, na sua melancolia doce e estóica, e amamo-la desde a sua primeira entoação em “To a God Unknown”. Depois sorrimos com a leveza de “The Balad of the Sad Cafe”, onde a cantora plana sobre notas de guitarra ligeiras e a actuação exuberante de Hasselberg em baixo eléctrico. Pelo meio, os pianos bonitos e gentis de “The Old Man and the Sea” conduzem-nos pela Corrente do Golfo atrás de Santiago e do “seu” marlim. A construção folk e onírica de “Canção de Embalar – The Diaries of Adam and Eve”. E em “The Folks Who Lived on the Hill”, Hasselberg mostra-nos brevemente o seu virtuosismo, sem nunca beliscar a musicalidade do disco como um todo.

Foto: Mariana Sabido