久石 譲 in 武道館 宮崎 アニメ と共に 歩ん だ 25 年間

久石 譲 in 武道館 宮崎 アニメ と共に 歩ん だ 25 年間

Nero
Valeria Romanazzi

O mágico e fabuloso concerto de celebração do 25º aniversário do Studio Ghibli, onde vemos lado a lado dois dos maiores artistas do mundo contemporâneo, o realizador Hayao Miyazaki e o compositor Joe Hisaishi.

Como certamente muitos sabem, o Studio Ghibli é um estúdio de animação japonês, sediado em Koganei, Tóquio, e fundado em 1985, cujo primeiro filme foi “Laputa – O Castelo No Céu”, apesar de “Nausicaä Do Vale Do Vento” ser considerado um trabalho dessa casa, afinal conta com os maiores nomes do estúdio, desde logo o lendário realizador Hayao Miyazaki.

O meu primeiro contacto com o trabalho de Miyazaki foi essa cândida série televisiva “Heidi”. Na altura o talentoso realizador era um simples animador, papel que manteve na pungente história da família Rossi em “Marco Dos Apeninos Aos Andes”, o meu contacto seguinte (um percurso que terá sido igual ao de tantos portugueses, afinal estas séries tiveram um enorme sucesso no nosso país).

Curiosamente, só em 1997, assistindo na grande sala do Cinema Monumental à estreia de “Princesa Mononoke” – o meu Ghibli preferido ao lado de “Pom Poko” -, tornei a contactar com Miyazaki (dessa vez para sempre) e, pela primeira vez, com o trabalho desse extraordinário compositor que é Joe Hisaishi, na minha opinião um dos três maiores ainda vivo, sendo os outros John Williams e Arvo Pärt.

A sua música teve um papel determinante na devoção que acabei por desenvolver pelos filmes de Miyazaki e do Studio Ghibli, potenciando a experiência de ver e rever cada um. Em 2018, o estúdio de animação celebrou 35 anos de vida. Eu levo mais alguns e ainda hoje descubro imensos detalhes nas autênticas obras de arte que são os filmes de Miyazaki e, particularmente, na música de Hisaishi.

É difícil (e caro) conseguir obter as edições discográficas das bandas-sonoras dos filmes Ghibli. Assim torna-se também difícil ter um contacto permanente com a música de Hisaishi. É aqui que entra um concerto de 2008, integrado nas celebrações do 25º aniversário do estúdio, que serve de guia a esse trabalho e poderá servir como um mágico portal aos que nunca atentaram na música desses fabulosos filmes.

Hisaishi Joe in Budokan 25years with Hayao Miyazaki

“久石 譲 in 武道館 宮崎 アニメ と共に 歩ん だ 25 年間”
(HISAISHI JOE NO BUDOKAN 25 ANOS COM HAYAO MIYAZAKI)

Neste concerto, Joe Hisaishi conduz-nos numa viagem pela música dos vários filmes do Studio Ghibli até 2008, incluindo “Ponyo” (estreado nesse ano). O resultado é uma experiência de cortar a respiração. As peças escolhidas despoletam uma enormidade de emoções através do seu tremendo poder e dos cativantes leitmovis. As prestações vocais são soberbas, como é exemplo a performance de Ayaka Hirahara na suíte de “A Viagem de Chihiro”, mas nos momentos corais são arrasadoras!

Todo o concerto, como sucede invariavelmente com as conduções de Hisaishi (que também assume o piano), é estelar e a produção tem escala colossal. Este é possivelmente o maior palco que alguma vez vi configurado para uma orquestra, tão vasta que se contam, pelo menos, cinco maestros (além de Hisaishi) a conduzir os seus respectivos grupos de instrumentistas e coros. São 200 músicos da New Japan Philharmonic World Dream Orchestra, seis vozes solistas, um total de 800 vozes corais, através dos grupos Ippan KouboRitsuyuukai e Little Singers of Tokyo, e ainda 160 músicos de uma banda marcial.

A cada suíte e peças musicais responde uma gigante apresentação multimédia com cenas dos respectivos filmes. É impressionante apreciarmos a enorme escala da produção do concerto e percebermos quão suave, natural e tranquila soa toda a performance. Repito-me, mas atentem no poder e escala de tudo – se não vos surgirem lágrimas na suíte de “Laputa”, e particularmente na rendição de “Carrying You” e o seu pungente refrão (que se traduz em algo como: «A paixão que o meu pai me deixou, o olhar que a minha mãe me deu») possivelmente são psicopatas…

A paixão que o meu pai me deixou, o olhar que a minha mãe me deu

A qualidade sonora da gravação do concerto, ainda que esplêndida, é quiçá o seu maior pecado. Apesar da miríade de microfones colocados perto das fontes sonoras ou instalados nos próprios instrumentos, falta alguma profundidade ao som da orquestra. É algo natural e comum: a gravação sofre do mal de haver tantos microfones, tantas fontes para misturar, tornando-se difícil ouvir muitos dos elementos e a sua dinâmica real. Obviamente que esta apreciação tem que ver com a única fonte que conheço.

Afinal, o Japão é num outro mundo e na impossibilidade de ter podido presenciar nos dias 04 e 05 de Agosto de 2008, tendo sido acrescentada uma apresentação extra no dia 06, algo tão majestático quanto este concerto, o filme disponível cumpre perfeitamente o seu papel. Não conheço qualquer edição além do DVD/Blu-Ray que a Walt Disney lançou no Japão em Julho de 2009, portanto, visito ciclicamente os rip-offs que existem no YouTube, alguns deles integrais, na esperança que um dia, algum colarinho ridiculamente bem assalariado pense ser boa ideia disponibilizar este concerto memorável para o mercado europeu ou então que algum leitor generoso “se chegue à frente”…

Se são fãs, relembrem. Se não conhecem, pasmem-se. Disparem o player!