Joy Division, Unkown Pleasures (Sinestesias)

Joy Division, Unkown Pleasures (Sinestesias)

Carlos Garcia

É na Enciclopédia de Astronomia de Cambridge que a banda encontra o que viria a ser a correspondência visual do seu som: a imagem tridimensional da análise de ondas de rádio vindas de um pulsar.

Em 1979, o projecto pós punk de Manchester, formalmente conhecido como Warsaw, prepara o seu primeiro álbum de estúdio. Anteriormente, já havia posto cá fora o EP “An Ideal For A Living”, cuja capa era uma ilustração do guitarrista Bernard Summer figurando um muito loiro e ariano membro da juventude hitleriana tocando tambor. Ao lado, as letras negras em fonte gótica anunciando o nome pelo qual o grupo agora se fazia conhecer: Joy Division.

Este nome, tirado da ala de prostituição de um campo de concentração nazi, projecta e configura o imaginário nascente da banda. No entanto, esta espécie de brincar com e de recontextualizar o imaginário nacional socialista, de maneira iconoclasta e provocatória, que caracteriza os primeiros tempos da banda, viria a dar lugar, do ponto de vista estético, a algo mais universal, mais visionário, e muito mais negro.

No seguimento da explosão reactiva que foi o punk americano e britânico (como reacção que foi à morte e à corrupção do sonho lisérgico da década anterior), os Joy Division são, sobretudo, o produto do ambiente em que quatro rapazes da classe trabalhadora inglesa nasceram e cresceram: a beleza cinzenta e decadente da Manchester pós guerra. Primeira cidade do mundo a receber o epíteto industrializada, foi aqui o coração da revolução mecânica que percorreu o globo, numa febre de aço e carvão e máquina e despersonalização. A imponência das turbinas e dos geradores Victorianos veio, no pós guerra (com a progressiva falência das indústrias e necessidade de casas pós blitz), a dar lugar a e, simultaneamente, hibridizar-se com as enormes torres brutalistas que viriam a definir o horizonte de quem nelas cresceria e viveria.

Tudo isso informa e deforma as letras de Ian Curtis e o som que os Joy Division, progressivamente, viriam a chamar seu. Esse som contagia Martin Hannet a enveredar por uma produção espacial e experimentalista, que contrabalançava o lado mais sujo e roufenho que a banda tinha vindo a exercer em palco. Peter Hook, baixista e coluna vertebral da banda, não gosta do efeito desta arte final nos seus esboços: «demasiado Pink Floyd», nas suas palavras, suprema ofensa numa época e num meio que aparece como reacção ao crescente barroquismo por onde o rock mainstream se havia enveredado e perdido. Mas a verdade é que a espacialidade desta produção não invoca tanto um certo lado cósmico e libertador, que domina tanto do imaginário do rock progressivo, mas sim a solidão, o frio e o vazio do imenso nada que se estende para além da terra.

É na Enciclopédia de Astronomia de Cambridge que a banda encontra o que viria a ser a correspondência visual do seu som: a imagem tridimensional da análise de ondas de rádio vindas de um pulsar. Um pulsar é uma estrela de neutrões, o que resta de uma estrela viva após uma supernova, que emite um feixe de radiação electromagnética. Como a luz de um grande farol cósmico negativo, este feixe só é detectável quando roda na direcção do ouvinte.

Foi este padrão rítmico, o primeiro assim detectado na história, que chegou aos telescópios de Cambridge e que veio a ser elegantemente traduzido e impresso num gráfico fractal, uma imagem quase geológica. E é esta imagem que os Joy Division apresentam a Peter Saville, encarregue de criar a capa do álbum. Saville era o designer residente da Factory Records e estava ele próprio a explorar novos caminhos tipográficos, aliando a anarquia gráfica do punk com a elegância e a poesia da Bauhaus e do futurismo. A explosão de criatividade mal comportada, não linear, virada para o corte e ruptura com a tradição do período entre guerras, encontrava o seu eco nestes novos futuristas. E estas linhas rítmicas, que tinham atravessado anos e anos luz de solidão para chegar até nós, eram agora a mais perfeita expressão de todo um som, toda uma atitude, toda uma mundivisão.

Saville imprime a imagem negativa em fundo preto. Sem o título. Sem o nome da banda. Uma imagem pura. Quase religiosa. Sem sombra de dúvida sacra. O negro domina, quase completamente, o espaço da capa do vinil (no caso do CD a imagem do pulsar vai ocupar, proporcionalmente, mais espaço). No centro, esta estranha ondulação angular proveniente dos confins da existência torna-se o mais perfeito símbolo para toda uma era que está prestes a nascer sem que ninguém, neste aparentemente tão longínquo ano de 79, o saiba ainda. As parteiras tem ainda pouca ou nenhuma consciência do bebé que estão a dar à luz. No entanto, que ano melhor para anunciar que o digital tinha oficialmente nascido e emitia o seu primeiro choro binário.

Não será já a capa de “Unknown Pleasures” a antecipação do estilo de gráficos que percorreria inúmeros salões de arcade, onde os movimentos sincopados de milhares de adolescentes, a enfiar moedas numa ranhura e a movimentar manípulos, ecoam a estranha dança epiléptica de Ian Curtis em palco? E a estética retro antes de o ser, hipster antes de o ser, cool antes de o ser, de ZX Spectrums e Commodores Amigas, não está já aqui? Não haverá, nestas estranhas montanhas, com os seus picos e vales, um simulacro de todos os simuladores de vôo, através dos quais tantos de nós experimentariam a pilotagem virtual, desde a exploração espacial de um “Elite” até aos pilotos de drones que, a partir do Arizona, abatem mães e crianças “terroristas” no Iraque? Não seriam estas as mesmas linhas que haveríamos de ver, dali para frente, nos monitores das nossas casas, em filmes e séries sci-fi mais ou menos chunga, em incontáveis videoclips na, então, igualmente nascente MTV? Não é esta icónica capa um eco de futuras auto-estradas digitais e desconexões virtuais e de crianças a aprender que o primeiro movimento que deve ser efectuado nesta vida é o deslizar incessante de um dedo num ecrã? Um eco vindo do futuro tecnológico e ruidoso. Tão forte e palpável quanto o eco vindo do passado, de uma estrela que morre? O futuro está aqui.

Muito facilmente esta seria, igualmente, uma capa ideal para a primeira edição do “Neuromancer”, de William Gibson. Ou do “Blade Runner”, de Ridley Scott. Afinal, CyberPunk é um termo que nos pode, muito facilmente, vir à mente quando escutamos a voz calorosamente metálica de Ian Curtis. E não é propriamente difícil de imaginar um Deckard contemplativo a ouvir “She’s Lost Control” no seu apartamento atulhado, depois de mais um serão com sangue de replicants nas mãos.

Tal como muitas pessoas utilizam termos como “actual”, “válido” ou “à frente do seu tempo” para descrever o som do álbum, também a sua estética visual rompeu com as fronteiras do tempo e do espaço em foi produzido. A profusão de formas e meios que caracteriza o início do século XXI faz com que, hoje em dia, tropecemos nestas linhas gráficas em todo o lado: uma tatuagem que vislumbramos, através de um vestido aberto; t-shirts usadas por adolescentes “animezados” na baixa de Tóquio, nascidos já num mundo que nunca foi outra coisa senão digital; padrões impressos nos tecidos de uma qualquer passagem de modelo, numa qualquer capital da moda. E tantos outros. Foi, talvez, a primeira vez que um tão improvável cruzamento de acasos se transmutou em algo tão forte do ponto de vista iconográfico.

E, no entanto, regressando a essa distante Inglaterra de crises do petróleo, de greves e confrontações, de convulsão social, de uma mistura paradoxal de desespero e esperança, podemos já aqui, nesta transição tão peculiar de eras, ver esta onda, esta intermitência rítmica, a espalhar os seus efeitos em direcção ao futuro.

A Manchester a partir da qual despontou a revolução industrial e que deu ao mundo, na segunda metade do século XIX, para o melhor e para o pior, o presente dúbio da modernidade; essa Manchester viria a ainda a dar, no dealbar do século XX, uma segunda oferta à humanidade: uma anunciação nos céus da nova era binária que se iniciava! Uma nova “estrela de Belém” eclipsava o fraco sol destes territórios cinzentos. A luz negativa da estrela negra será a luminosidade mais adequada para iluminar uma época em que a natureza se iria tornar mais e mais uma abstracção, a rua um território hostil de confronto e alienação, o outro um perfeito estranho incognoscível para cada um de nós e para si próprio, e o único conforto virá de ecrãs luminosos, em frente aos quais vidas inteiras são consumidas no pulsar intermitente de uma estrela moribunda!

Já não é só a exploração da escuridão no coração humano (que se prenunciava no flirt com o imaginário nazi) que caracteriza a imagética dos Joy Division, mas a iconização da escuridão que se abate, progressiva e inevitavelmente, sobre o próprio universo. “New Dawn Fades”…