Kowloon Walled City, Guitarras Que Soam Como Leões e as Sessões na Velha Albion

Kowloon Walled City, Guitarras Que Soam Como Leões e as Sessões na Velha Albion

Nero

No Verão de 2019, durante uma digressão pelo Continente Europeu e pelas Ilhas Britânicas, os Kowloon Walled City por duas vezes foram convidados para sessões de estúdio em Inglaterra. A banda sludge californiana revelou o resultado poderoso e elegante dessas sessões. Guitarras com um som tremendo e versões surpreendentes de originais de divas pop.

Estávamos em 2016 quando os Kowloon Walled City chegaram pela primeira vez à Europa e, consequentemente, ao Amplifest desse ano como uma bomba relógio. Naturalmente, a maturação sonora em estúdio, que cresceu até ao último álbum e os levou, inclusive, até à elitista editora dos Neurosis, explodiu no Hard Club e, logo no início, no Amplifest como um dos melhores concertos da história do festival.

Até porque a banda se destacou, nesse palco, por criar tensão emocional não com uma parede impenetrável de amplificação em volumes extremos, um exercício exposto nos seus dois primeiros álbuns, mas em oscilações dinâmicas nas estruturas das canções, como “Grievances”, o tema que dá título ao supracitado álbum de 2015, tão bem ilustrou. Claro que, como foi notório num tema como “The Grift”, por exemplo, o poder propulsivo e sonoro da banda continuava com dimensão suficiente para devastar qualquer sala.

E no final, o som de guitarras de Scott Evans e de Jon Howell foi o primeiro alvo de fascínio que descobrimos na edição do saudoso Amplifest 2016. Principalmente, a exalação de calor envolvente da réplica de uma Gibson Les Paul Gold Top (com P-90s), da infame Greco, com que Howell desenhou as linhas melódicas do concerto. Em conversa posterior com a AS, o frontman da banda, Scott Evans (que usou uma Edwards Les Paul), referiu-se a esse peculiar modelo como «uma guitarra com um som inspirador».

A banda ainda não editou um sucessor a “Grievances”, álbum que, na ressaca do concerto na Invicta, logo fez a viagem de regresso para Lisboa a meio da nossa bagagem. Mas tem, no entanto, continuado a explorar território europeu em digressões constantes desde aí.

SMALL POND

No Verão de 2019, numa folga de três dias na leg britânica, os californianos juntaram-se aos Town Portal, banda dinamarquesa de fino recorte post rocker, e visitaram os estúdios Green Door Store, em Brighton, para gravar. As bandas decidiram criar duas deslumbrantes versões para as canções “Rise” e “Jessica”, originais de Solange e Kaki King, respectivamente.

A sessão foi captada pela equipa dos estúdios Small Pond. Sobre as versões, disse Christian Ankerstjerne, guitarrista dos Town Portal: «Andávamos a ouvir imenso os álbuns de Solange e decidimos ser um bom desafio tentar rearranjar uma das suas canções. Considerando como a voz de Solange e as letras são axiomáticas na sua música e mensagem, não tínhamos a certeza de conseguir concretizar uma versão instrumental. Contudo, foi extremamente divertido desconstruir as composições e colocar uma lupa sobre melodias e camadas tão fixes e depois montar de novo».

«Já os Kowloon Walled City escolheram uma canção da Kaki King. O plano era tocar separadamente as duas covers, mas quando começámos a tocar o tempo e a tónica pareciam bater certo e, espontaneamente, acabámos por fundir as duas canções numa única canção e gravar tudo, todos juntos a tocar», referiu ainda Ankerstjerne.

BOOKHOUSE

Durante essa mesma digressão, os Kowloon Walled City fariam outro desvio para criarem conteúdo diferenciado. Durante a sua passagem por França, Tom Hill e Ian Hansen convidaram a banda, à última da hora, para uma sessão no The Bookhouse – Recording Studio.

Após o concerto em Paris, os californianos carregaram o seu material e apanharam um comboio Eurostar, atravessando a Mancha no submerso Eurotúnel, dirigindo-se na manhã seguinte a Londres. Chegados a estúdio, os Kowloon lançaram-se ao trabalho. Essa sessão foi também feita disponível recentemente.

Howell, em vez da Greco EG-800, usa uma Fender Stratocaster que, das duas três, ou é um modelo japonês ou uma Dan Smith modificada ou uma Strat pseudo Dan Smith, as de ’84. Porque a configuração de apenas um knob de volume e um de tone, além da ponte fixa, parece a de uma Dan Smith, mas o braço com o headstock da era CBS que ostenta torna isso impossível, a não ser que o braço não seja o original. Por outro lado, podemos estar a complicar e a resposta ser muito mais simples (se a souberem, por favor partilhem). Já Scott Evans ostenta uma ESP Custom Telecaster 400 (modelo pós lawsuit e rarito).

Sobre a sessão, na qual a banda gravou “Wrong Side Of History” e “Backlit”, dos álbuns “Container Ships” e “Grievances” respectivamente, Evans comenta: «Sem auscultadores, com a laringe rebentada, num único take. Estávamos com um volume tremendo ali, tive pena do Tom e do Ian, mas eles fizeram um trabalho de mistura soberbo». Dispara o vídeo.