Led Zeppelin, A Tetra Unidade

Led Zeppelin, A Tetra Unidade

Nero

O quarto álbum dos Led Zeppelin nunca recebeu um título oficial, aliás, nem sequer tem o nome da banda na capa. Editado a 8 de Novembro de 1971, o álbum “anónimo” tornou-se o trabalho mais aclamado e, com mais de 37 milhões de cópias vendidas no mundo (é mesmo o 4º álbum, de sempre, mais vendido nos Estados Unidos) de maior sucesso comercial da banda.

Esteticamente diverso, transversando linguagens que vão desde a electricidade vertiginosa de “Rock And Roll” ao folk, de raízes celtas e indo-europeias, de “The Battle Of Evermore”. No fundo, como se repete amplamente, misturava “Led Zeppelin II” com “Led Zeppelin III”, tornando-se um esplendoroso quadro de uma banda no auge da sua criatividade.

Em entrevista, publicada integralmente na Arte Sonora #41, Jimmy Page fala deste mundo de fusão de ritmos e escalas, de exploração: «O que é preciso entender é que os Led Zeppelin, os seus músicos, eram uma banda mergulhada nas raízes. Cada um de nós havia sido um investigador musical. Era como se tivessemos uma licenciatura na Universidade de Vida Musical, esse era o nosso nível de compromisso. Quando nos tornámos um colectivo, surgiram estes tipos de elementos em que ouves um pouco de um “gancho” rockabilly aqui, um pouco de jazz ali, blues de Chicago acolá ou um pouco de Elvis além… Há tantos carácteres diferentes que são espelhados individualmente e musicalmente. E chega ao ponto em que – é demasiado foleiro falar num caldeirão – se torna uma fusão. Fusão musical. É isso que acontece».

O Eremita, no interior da capa, simboliza o isolamento, o corte de laços com a sociedade (uma metáfora da relação da banda com a crítica da época?), para procurar o conhecimento.

O Eremita, no interior da capa, simboliza o isolamento, o corte de laços com a sociedade (uma metáfora da relação da banda com a crítica da época?), para procurar o conhecimento.

Das suas sessões de gravação, em que pela primeira vez os Led Zepellin se deslocaram para Headley Grange, frutificaram ainda as bases para os dois álbuns seguintes, “Houses Of The Holy” e “Physical Graffiti”. Jimmy Page refere-o à Arte Sonora: «Acertámos a 100% em tudo do quarto álbum mas, ainda assim, coisas como “Down By The Seaside”, “Night Flight” e “Boogie With Stu” também eram maravilhosas». Antes de Headley Grange e do estúdio móvel dos Rolling Stones, as gravações iniciaram nos Basing Street Studios, à altura propriedade da Island Records, e ainda iriam até Los Angeles, ao Sunset Sound, para uma mistura que Page considerou desastrosa, e de novo para Londres.

Mas Headley Grange foi determinante. A imponente casa Victoriana, que chegara a ser um asilo, emprestou a sua arquitectura à expansão sónica da banda, como se através dela ecoassem velhos espíritos da Velha Albion, algo perfeitamente ilustrado em “When The Levee Breaks”. Inicialmente, o velho blues, original de Kansas Joe McCoy e Memphis Minnie, foi gravado nos estúdios da Island, mas o resultado final não agradou à banda. No entanto, aquela batida de John Bonham era colossal e impossível de largar. Então, chegados a Headley Grange, o engenheiro Andy Johns colocou o baterista e a sua Ludwig no fundo de uma escadaria, com dois Beyerdynamic M160 como overheads, e captou um dos melhores sons de bateria da história!

Se canções como “Rock And Roll” ou “Stairway To Heaven” foram construídas, partindo de pequenos riffs, através de jam sessions e takes espontâneos, os Led Zeppelin também abusaram, exploraram e inovaram metodologias de estúdio. Para conseguir o som de guitarra de “Black Dog”, Jimmy Page ligou a guitarra em DI, saturando o canal da consola de mistura para criar distorção e depois filtrar o som através de dois compressores Urei 1176 Universal. Então cada linha de guitarra foi triplicada, mas o ruído da fita a fazer overdubbing foi mantido, criando aquela latência tão característica. Uma das canções mais esquecidas das massas, “Four Sticks” foi gravada com Bonham a usar duas baquetas em cada mão e com John Paul Jones a iniciar a exploração pelo mundo da sintetização, recorrendo a um VCS 3, uma unidade semi-modular.

O símbolo de Page tem sido alvo de muita especulação (incluindo referências a magia negra) sobre o seu significado. John Paul Jones é representado pelo triqueta que, na sua simbologia mais simples, indica precisão e perfeição. Os anéis de Bonham representam uma ilusão: parecem idênticos, mas o seu encadeamento é impossível se os três forem círculos perfeitos e iguais. Virando o símbolo do avesso... é o logo de uma marca de cerveja! A pena dentro do círculo, de Plant, é baseada no símbolo da civilização de Mu.

O símbolo de Page tem sido alvo de muita especulação (incluindo referências a magia negra) sobre o seu significado. John Paul Jones é representado pelo triqueta que, na sua simbologia mais simples, indica precisão e perfeição. Os anéis de Bonham representam uma ilusão: parecem idênticos, mas o seu encadeamento é impossível se os três forem círculos perfeitos e iguais. Virando o símbolo do avesso… é o logo de uma marca de cerveja! A pena dentro do círculo, de Plant, é baseada no símbolo da civilização de Mu.

A electricidade febril da voz de Plant e das guitarras de Page junto da brutalidade das pancadas de John “Deus” Bonham e o pulsar de John Paul Jones, foram os agentes alquímicos que fundiram rock ‘n’ roll e misticismo. No final, o álbum que, como protesto pelos ataques sofrido às mãos dos intelectuais, da crítica e imprensa musical, foi editado totalmente anónimo, tornou-se no registo que cristalizou a essência dos Led Zeppelin, de uma década e de uma geração.