Mão Morta: Relógio de Abril

Mão Morta: Relógio de Abril

Nero

Adolfo Luxúria Canibal (voz), Miguel Pedro (bateria, percussões, programações), António Rafael (piano, sintetizador, guitarra), Sapo (guitarra), Vasco Vaz (guitarras) e Joana Longobardi (baixo) fazem do 13º álbum dos Mão Morta mais uma obra indelével na música portuguesa. “Pelo Meu Relógio São Horas De Matar”, foi gravado em Janeiro e misturado em Fevereiro e Março de 2014 por Zé Nando Pimenta no Estúdio MeiFumado, em Vila Nova de Famalicão. Foi masterizado em Março de 2014 por Frederico Cristiano no estúdio 4º À Esquerda, em Braga.

O álbum “Pesadelo Em Peluche” colocou os Mão Morta no mainstream, televisivo, radiofónico, festivaleiro… colocou-os nos iPods de muitos cujo conhecimento da banda era pouco mais que epidérmico. Mestres de criatividade sem igual, os Mão Morta criaram um disco em função da linguagem de massas a que Ballard se referia. Da linguagem massificada, das tecnologias e da sua influência no esquema mental das pessoas. “Pelo Meu Relógio São Horas De Matar”, em poucas semanas, explodiu toda a simpatia que o álbum anterior havia granjeado aos Mão Morta, junto desses aglomeradores de opinião pública, e surgiu como o choque despertador do onirismo anterior. No próprio contraste lírico e musical da banda, o conceito amplia-se à sociedade.

A promiscuidade entre governo e as famílias do dinheiro trouxe de volta a S. Bento “Os Ossos de Marcelo Caetano”, perante a anuência sedada da sociedade.

“Pelo Meu Relógio São Horas De Matar” é a compleição do círculo que foi a Revolução de Abril. “Pelo Meu Relógio…” corre o risco de vir a ser sempre encarado, com leviandade estulta, como uma arma de arremesso às altas esferas sociais, económicas e políticas. Mas o esbofetear do indivíduo que se permitiu narcotizar por essas mesmas esferas é uma catarse muito mais violenta. O sonho dos cravos foi destruído pela sua própria candura romântica. Sem destruição não há revolução efectiva. O Zeca cantava que sobre uma terra de fraternidade, onde em cada esquina, em vez de um denunciador, havia um amigo e em cada rosto havia igualdade. Esse sonho foi assassinado pela comunicação de massas, pelas ilusões do grande capital, pela glorificação do consumo, do produto como intermediário entre o indivíduo e a beatitude.

“Irmão Da Solidão”, o ponto de partida de partida do disco, revela, nas palavras de Adolfo Luxúria Canibal, «o lado de conforto solitário que na sua atomização quotidiana, o homem moderno, o homem pós-industrial, adquiriu». Mas o facto do nosso quotidiano ter levado uma grande volta por causa da crise e de políticas adoptadas, supostamente, anti-crise, arrasaram a vida de quase toda a gente. E a fábula urbana, transmuta-se: «Depois uma história em que esse conforto, esse bem-estar, era posto em causa, levando esse indivíduo a, de repente, tomar uma consciência social, a participar na tomada de uma consciência social e a opor-se ao devir que lhe estava a estragar a vida e a estragar a vida à sociedade e depois nas consequências, no final, teríamos a morte».

Adolfo explica a noção de três fortes premissas na estrutura conceptual: «Uma tirei de uma frase para um teatro, que tinha estado a fazer baseado no Nietzsche – “A hipótese do suicídio liberta-nos para a vida”. A segunda premissa era uma conclusão de um jogo electrónico, de telemóvel nomeadamente, o Mahjong. Quando termina o jogo há uma espécie de sentença, supostamente, chinesa e essa sentença dizia “O futuro já não é o que era”. Esta espécie de contradição de mistério chinês. A terceira premissa era um verso de um poeta português, do surrealismo tardio, o António José Forte e é a frase que deu depois origem ao título do próprio disco».

O vocalista assume: «O presente era uma coisa que não conseguíamos iludir, estava demasiado entranhado e as suas consequências interferiam demasiado connosco para nos conseguirmos esquecer e abstrair. De maneira que decidimos encará-lo de frente, falar sobre ele e resmungar acerca dele». Na sua catarse, o indivíduo, revê a “História da Cidade”, «Ressuscitada a luta de classes / como motor da história /somos todos proletários / a batalhar contra a escória». Descobre que foi «ultrapassado o limite do ultraje» e então acerta os ponteiros do relógio… “Horas De Matar” procura lembrar a sociedade, o povo português, da sua força conjunta, aumentada pela «embriaguez do desespero».