Mário Delgado, Guitarristas Preferidos & Influências

Mário Delgado, Guitarristas Preferidos & Influências

Nero

Mário Delgado revela como começou a tocar guitarra e quais os guitarristas que tiveram um papel determinante na sua paixão pelo instrumento e no desenvolvimento da sua linguagem musical.

Para criar algo especial para uma edição que, em 2018, celebrou 10 anos de publicações queríamos algo que fosse inédito ou, no mínimo, incomum, na nossa imprensa musical. Isto, claro, além dos artigos sobre instrumentos e equipamento musical de sempre. Então surgiu a ideia de reunir numa edição histórica dez grandes guitarristas portugueses.

A forma como Mário Delgado começou a tocar parece uma história de Mark Twain, dois amigos e a imaginação própria das crianças. O músico, hoje um guru da guitarra, recorda: «Tinha um amigo da escola, que seguia para tudo, e um dia ele disse-me: ‘A partir de agora já não brincamos, vamos fazer uma banda’. Não tínhamos instrumentos, nem sabíamos tocar». O dois rapazes fizeram uma espécie de bateria com caixotes e uns instrumentos que davam som com água. Então surgiu a guitarra, quando o Mário construiu «uma coisa que agora se chama cigar box, com elásticos de camisas ou de cuecas a fazerem de cordas. Depois ele ligava aquilo a um microfone, ou melhor, encostava a um microfone que ligava a um gravador. A minha mãe, depois de ver aquilo tanto tempo, ofereceu-me uma guitarra. Foi assim que comecei a tocar».

Para a entrevista completa, podem adquirir um exemplar da revista na nossa loja, para descobrir os heróis do Mário, basta fazer scroll.

Quando começaste a tocar guitarra os tempos eram outros…
Eram tempos muito diferentes. Já tinha começado a ouvir música, ouvia música com uma distância muito grande do tempo em que vivia, porque ouvia sobretudo a música do meu irmão mais velho, a música dos Beatles e dos grupos ingleses. Mas o que me fez querer tocar guitarra, foi ouvir os Fleetwood Mac com o Peter Green.

É um guitarrista algo underrated?
Sim, basta pensar que os Fleetwood Mac são sempre mais conhecidos pela fase americana do que a outra. E, por causa dos problemas de saúde, afastou-se muito precocemente do meio musical, acho que é por isso. Ando sempre a comprar coisas que saem do Peter Green ou com o John Mayall, coisas mais antigas dos Fleetwood Mac, porque aquilo dá-me mesmo arrepios, é um bocado como se voltasse a sentir o princípio, quando quis tocar guitarra por causa dele.

A primeira guitarra era algum modelo significativo?
Essa guitarra que a minha mãe me comprou, na Custódio Cardoso Pereira, veio para casa embrulhada num papel daqueles que embrulham o bacalhau. Era uma Harmony. Já não a tenho, acho que dei a um amigo porque ela já tava toda gasta. Mas era uma marca com a qual muita gente começou a tocar. Era uma guitarra acústica com cordas de metal e tinha uma tailpiece. ou seja, não era nem uma guitarra folk, nem uma guitarra de nylon.

E como começaste a aprender?
Tinha um livro que ensinava a “tocar guitarra numa semana”, que vendiam na Custódio Cardoso. E depois, uma vez descobri que aqueles acordes tocavam uma música dos Pink Floyd. Fiquei todo contente, percebi que o caminho era por ali e fui aprendendo acordes. O livro ensinava o que se chama, por vezes, a primeira, segunda e terceira. No fundo, mostrava os acordes: o acorde do primeiro grau, o do quarto e o do quinto grau em vários tons. Era um bom alicerce para quem estava a começar, tentar mover os dedos de um acorde para o outro. Lembro-me que a primeira guitarra eléctrica que toquei era do Farinha, dos Ocaso Épico. Mais tarde, esteve um duo de guitarristas de jazz, o Fredo Mergner (que viria a tocar na Resistência) e o Toni Peixoto, um guitarrista de Braga, num programa do Júlio Isidro. Ouvi aquilo e fiquei fascinado. Ainda não havia propriamente os shredders e fiquei maravilhado ao ouvir alguém a tocar muito rápido e muitas notas, que não associava às que se ouvem mais nos blues ou no rock. Quis aprender que era aquilo. Arranjei um livro de jazz (não aprendi muita coisa, além de alguns acordes) e depois inscrevi-me no Hot Club. O que tocava não era suficiente para ser um músico profissional. Não sabia nada. Comecei a estudar formalmente jazz nessa altura no Hot Club, em que o contrabaixista José Eduardo ainda estava cá, depois esteve um contrabaixista que era o David Gausden, e foi quando aprendi grande parte do que veio a fazer com que pudesse continuar sozinho. Fui estudar guitarra clássica para a Academia dos Amadores de Música. Fiz as duas coisas durante algum tempo e depois deixei de estudar guitarra clássica, porque eram dois instrumentos diferentes. Nessa altura já era músico profissional.

Nessa época havia bons catalisadores. Substâncias ilícitas e guitarra foi algo que tenhas misturado, tens algum álbum em que estivesses “alterado”?
Não, a própria música é que me provoca isso. Não me dou muito bem com essas substâncias todas (risos). Tenho amigo que dizia que, no fundo, houve mártires que tomaram essas substâncias para nos mostrarem coisas que agora conseguimos fazer sem as tomarmos. O Jimi Hendrix pode ser um desses casos.