Mike Inez: Alice in Chains & Gear

Mike Inez: Alice in Chains & Gear

Nero

Inez fala-nos de gear, de grunge, de Jerry Cantrell e Zakk Wylde, de DuVall e Layne Staley e de “Black Gives Way To Blue”, o álbum que ressuscitou os Alice In Chains.

Mike Inez não é, particularmente conhecido com um instrumentista virtuoso. O próprio músico considera-se mais um team player que opta pela solidez da banda e da canção, em detrimento da exibição de talento individual. Talvez por isso se refira aos Alice In Chains como uma banda que soa como “uma banda”, com solidez e coesão. Talvez por isso tenha sido o músico escolhido para intermediar os egos de Zakk Wylde, Randy Castillo e Ozzy Osbourne, quando a carreira ao vivo do “Prince Of Darkness” esteve por um fio e a digressão do álbum “No More Tears”, pretendia ser a última, sob o nome “No More Tours”.

Inez falou-nos de gear, de Probot, de Cantrell e Zakk Wylde, de DuVall e Layne Staley e de “Black Gives Way To Blue”, o álbum que ressuscitou os Alice In Chains. Segue um excerto da entrevista exclusiva (originalmente publicada na Arte Sonora #14), ao emblemático baixista.

A indicação do William DuVall para vo­calista fez com que imensa gente come­çasse logo a questionar o trabalho da banda. Consideras que “Black Gives Way To Blue” silenciou essas dúvidas?
O William é um tipo impecável e estou muito contente andado em digres­são uns tempos, antes de começarmos a fazer o disco, porque penso que isso permitiu-nos uma galvanização enquanto equipa, para criar unidade. E lembro-me de dizer ao William que a única forma de ele conquistar as pessoas seria, um con­certo de cada vez, erguer o rosto e fazer o melhor que conseguisse. Obviamente, nunca pensámos em substituir o Layne. Ele é insubstituível. (…) O Layne era nosso irmão, sabes? Sei que há muita gente que leva muito a peito a nos­sa banda, mas em última análise fomos nós que o perdemos, além da sua família, e quem ficou mais afectado com isso.   

Considerando tudo o que o álbum significava, sempre pensei que um de vós assumisse a produção. Acabaram por escolher o Nick Raskuline­cz para produzir…
Sim, mas isso teria sido um álbum condenado, ainda estaríamos a trabalhar nele [risos]! Ainda a discutir [risos]. O Dave Grohl tem um estúdio excelente, que construiu com o Nick, chamado 606, em San Fernando Valley, na Califórnia. E disse-nos que, se íamos gravar um álbum, devíamos no mínimo entrevistar o Nick. Entrevistámos muitos produtores, mas acabámos por gostar imenso dele. Pessoalmente, para mim, foi fantástico, pois ele é um baixista – gravou o álbum do Dave, de Probot.

Esse álbum é qualquer coisa!
Yah [risos]! E foi muito bom estar a trabalhar as pistas de baixo com um baixista que é o produtor, em vez de ser com um tipo que apenas se senta ali a fumar o seu cachimbo e está apenas a julgar as coisas… Estás a ver o tipo [risos]? Experimentámos vários baixos, diferentes tipos de amps e conjugações. Passei um tempo fantástico com o Nick. De to­dos os produtores com quem já trabalhei, acho que ele é um daqueles gajos… Um porreiro, mesmo. E tem muita energia, estás numa jam e ele está ali o tempo todo a ouvir a segurar numa baqueta e a bater nas coisas, a tocar air drums ou air guitar [risos]. Não interessa o quanto es­tás cansado, olhas para ele todo entusias­mado com a tua música e não conse­gues evitar ficar entusiasmado também.

To­camos com a mão bem pesada e isso é o meu tipo de música favorito. Aqueles riffs pesadões. Sempre fui atraído por isso, desde os primeiros álbuns dos Sa­bbath.

Qual é o teu foco para te ajustares aos riffs do Jerry e mesmo com outros gui­tarristas com quem tenhas trabalhado?
Fui muito abençoado em tocar com tão bons músicos. Penso que me juntei à ban­da do Ozzy com uns vinte e dois anos, o Zakk tinha vinte e um na altura. Ao tocar com pessoal como o Zakk Wylde, o Slash ou mesmo num álbum de Motörhead [Inez gravou o tema “Under The Gun”, no álbum “Kiss Of Death”] aprendi e cres­ci. E sempre fui um jogador de equipa, sa­bes? Não procuro ser o tipo vaidoso que quer destacar-se, trabalho sempre para a canção. Simplesmente, respeito imenso a arte de fazer música e penso que faço parte disso pelas razões certas. Não o faço pela cocaína e limusi­nas [risos]. Já o faço profissionalmente há vinte anos e tem havido oportunidades muito boas, como a colaboração com a Ann e a Nancy Wilson, para o álbum ao vivo de Heart. A minha cena com o Jerry… Ambos to­camos com a mão bem pesada e isso é o meu tipo de música favorito. Aqueles riffs pesadões. Sempre fui atraído por isso, desde os primeiros álbuns dos Sa­bbath. É muito porreiro, porque há uma química muito grande e o Sean é uma baterista muito musical, usa muito bem os pratos nas acentuações, e, por algum motivo, os três tocamos música duma forma muito natural para nós. Uma coi­sa sobre o Jerry é que ele sabe quando está a ser muito bom ou uma porcaria. Muitos guitarristas não sabem essa diferença [risos], é tudo fantástico [risos]. Todas as canções são um single, todos os solos são o melhor solo de sempre. O Jerry não é um desses.

Inez usa, principalmente, dois Warwick Streamer Stage I, de 4 cordas. Ambos possuem Hipshot Xtenders.

Na amplificação a escolha é o, já descontinuado, Ampeg SVT-2 PRO. O baixista usa, normalmente, 4 cabeças, duas para os graves e duas para agudos. Os graves saem por 4 colunas Ampeg 1×18” e os agudos por duas SVT-810E.

O termo grunge diz-te algo?
Nunca nos pautámos por esse termo. E a própria palavra, grunge, se perguntares a qualquer uma dessas bandas, não foram elas que a criaram, foi algo criado para mercantilizar toda uma cena que estava a acontecer em Seattle. Penso que o que havia de especial sobre as bandas de Se­attle é que, se olhares um mapa americano, Seattle está tão fora de caminho que as bandas estiveram ali uns dez anos… Sabes, os Soundgarden já existiam há dez anos quando lançaram o seu primeiro álbum. E não há muito para fazer em Seattle a não ser fumar erva, beber cerveja e estar na cave do teu amigo a fazer música [risos]. E era claro que essas bandas soavam de forma diferente umas das outras. O Kurt soava diferente do Layne, o Layne soava diferente do Eddie Ved­der, que soava diferente do Chris Cornell. Todas as bandas tinham o seu próprio estilo. O William dizia, numa entrevista, que essas bandas também redefiniram como lidar com a fama. Não era sobre comprar um Ferrari e uma casa em Malibu, enfiar lá uma supermodelo e nadar com golfinhos como o c*ralho do Axl Rose [ri­sos]. Eram apenas tipos simples e sentias que podiam, perfeitamente, morar na tua rua, vizinhos porreiros que faziam música. Todas essas bandas adoram cenas heavy – se falares com o Kim Thayil ou qualquer um deles, todos ouvem os Sa­bbath. O grunge não foi algo que tenhamos apregoado. E, de todas essas bandas, penso que os Alice In Chains são a de heavy metal. Mesmo considerando canções como “Jesus Christ Pose”, e outras pesa­donas dessas bandas, por alguma razão os Alice soam um pouco mais metal.

É muito mais barato fazer música, portanto levem o vosso tempo e façam as coisas com qualidade, mantenham as guitarras afinadas!

Que diferenças encontras na cena musical actual e aquela onde vocês haviam parado. Que novos desafios existem?
Bom, isto sou apenas eu e a minha personalidade, sou um eterno optimista. Na altura em que os álbuns de Alice In Chains saíram, a Sony tinha toneladas de gente a trabalhar e havia imenso dinheiro envolvido. Depois surgiu esta revolução digital e as pessoas começaram a roubar os álbuns… E agora vais a uma editora e não há tanta coisa a acontecer como havia antes, nesses dias áureos do negócio. Mas, tendo dito isto, esta era com o Pro Tools e todas essas coisas, tornou muito mais fácil fazer discos para as bandas jovens. É mais barato para uma malta no liceu juntar uma banda e ir gravar a um estúdio, fazer o álbum, o grafismo e distribuir isso através de coisas como o MySpace, Bandcamp ou mesmo editoras mais pequenas. Para um artista emergente, creio que é uma altura mesmo excitante para ser-se músico. Desejava ter tido todas estas coisas quando estava no liceu. Hoje tenho duas ou três plataformas… Levo sem­pre comigo o Pro Tools para a estrada, onde gravamos logo as ideias das jam, é tudo muito mais fácil. Hoje os desafios são as datas e o merchandise. Quando se descobrir uma maneira de conseguir datas penso que nunca se voltará ao que era antes. Quando se des­cobrir uma forma de fazer a vida sendo músico… E nós temos muita sorte nisso, estamos num nível superior, mas vejo bandas que são realmente boas, saem em digressão por um ano e depois regressam a casa para a família e têm que ir procurar um segundo emprego, não é justo. Basicamente, suportem as bandas que gostam. Adoro o facto de poder andar on-line e descobrir de que bandas gosto e quando descubro uma não vou comprar o disco a uma loja, compro directamente à banda. Muita gente, hoje em dia, pensa que as coisas são todas de graça. Sendo optimista, como disse, é um tempo excitante para ter uma banda. Mas não sejam uma m*rda! Sejam criativos e não apressem as coisas. Já não se pa­gam duzentos dólares por uma gravação dum ensaio, com esse dinheiro já podem comprar um disco rígido onde podem ter imensa música vossa. É muito mais ba­rato fazer música, portanto levem o vos­so tempo e façam as coisas com quali­dade, mantenham as guitarras afinadas [risos]!