1989, Quando o Hard Rock Invadiu a União Soviética

1989, Quando o Hard Rock Invadiu a União Soviética

Redacção

Os dois dias do Moscow Music Peace Festival pretendiam promover a paz mundial e combater o narcotráfico e dependência das drogas. Um punhado de ferozes músicos do sleazy, hard rock e heavy metal, a meio de discussões, agressões, alimentadas por excessos de consumo, foram arautos de hipocrisia.

No dia 12 de Agosto de 1989 teve lugar o histórico evento Moscow Music Peace Festival. Durante dois dias, no Lenin Stadium, uma mão cheia de bandas ocidentais fizeram o hard rock invadir a capital da, na altura, União Soviética. Foi a primeira vez que uma audiência teve permissão para estar de pé e dançar num concerto rock em estádio na URSS. Até aí, era obrigatório permanecer sentado em todos os concertos.

Marcando uma era de enormes mudanças políticas e sociais na Rússia, o espectáculo implicou números gigantescos de produção; envolvendo a equipa de produção e logística da Eurotruk; energia, num total de seis megawatts, fornecida totalmente por geradores, permitindo ainda a emissão em modo pay-per-view da MTV; ligações por satélite entre Moscovo e os Estados Unidos da América; catering embarcado desde o Reino Unido… Um mundo! E não era para menos, o cartaz era impressionante na época: Skid Row, Cinderella, Bon Jovi, Mötley Crüe, Ozzy Osbourne e Scorpions.

Além de promover a paz mundial, o concerto pretendia estabelecer ligações com as nações ocidentais, de modo a combater mais efectivamente o narcotráfico no Leste Europeu. Apesar destas motivações, as más línguas referem que nos bastidores houve vários conflitos e que o festival foi o mote para o produtor Doc McGhee escapar a uma pena judicial na ressaca de um escândalo com drogas.

McGhee sempre negou esses rumores, afirmando que a sua motivação foi sempre a ambição de levar as suas bandas a Moscovo e aí realizar o primeiro mega concerto de rock na União Soviética. Os lucros reverteram parcialmente para a fundação criada por McGhee, a Make a Difference Foundation, permitindo que fossem enviados médicos para partilhar métodos de tratamento ao vício das drogas.

Já a guerra nos bastidores foi disparada pelos egos desmesurados de muitos dos músicos ali reunidos. Os Mötley Crüe estavam de candeias às avessas com McGhee. A irascível banda considerava que o produtor estava a dar primazia aos Bon Jovi, banda que Tommy Lee e companhia detestava. Além disso, no final do seu concerto, os Bon Jovi usaram efeitos pirotécnicos, algo que havia sido proibido aos Crüe. Há muitas histórias acerca disto. McGhee diz uma coisa, Lee diz outra, Sebastian Bach, que esteve presentes com os Skid Row, diz outra. O resultado final foi Tommy Lee enfiar um sopapo em McGhee, despedindo-o das funções de manager dos Mötley Crüe.

Isto terá sido o culminar de uma tensão crescente. Nenhuma das bandas queria abrir o concerto, todas elas queriam encerrar e quase todas ficaram verdes de inveja com o lugar de destaque dos Bon Jovi como headliners do primeiro dia. Os Mötley Crüe, os Skid Row, mesmo os Cinderella e Ozzy Osbourne, consideravam os Bon Jovi uma banda mais próxima do pop rock do que do hard rock e do heavy metal. Diz-se que o próprio Ozzy considerou não actuar e os Bon Jovi ofereceram-lhe o seu lugar no cartaz, pois o Príncipe das Trevas estava marcado para abrir o segundo dia e considerava ser um nome maior que os Crüe. Estes acabaram mesmo por tocar primeiro, no segundo dia, mas a transmissão televisiva foi manipulada, para que o público televisivo visse primeiro a actuação de Ozzy.

Uma enorme confusão. De alguma forma tudo extravasou para o conhecimento público e estas manias dos músicos caíram mal a meio mundo. Afinal, Ozzy e os Crüe haviam andado em digressão juntos, promovendo os respectivos álbuns “Bark At The moon” e o “Shout At The Devil”, como se pode ver no filme “The Dirt”, e a ideia do concerto era a caridade. A hipocrisia, naturalmente, esteve ainda espelhada no abuso de consumo de bebidas alcoólicas e droga, apesar da ligação à Make A Difference Foundation…

O evidente consumo abusivo de bebidas alcoólicas nesse festival levou mesmo Ozzy Osbourne a tribunal, acusado de homicídio. Ao regressar ao hotel, Ozzy, completamente intoxicado, tentou estrangular a sua esposa Sharon. Após o incidente, o artista passou seis meses em reabilitação. Sharon acabou por desistir da queixa e o casal reconciliou-se. O episódio foi uma das inspirações para a canção “Mama, I’m Coming Home”.

Sem grandes ondas, os Scorpions encerraram o festival. O seu concerto inspirou a banda a escrever “Wind Of Change”, a música que se tornou a banda-sonora oficiosa da queda do Muro de Berlim, em Novembro de 1989, e do final da União Soviética. É fácil encontrar bootlegs dos concertos integrais nos canais de streaming e, pese toda a polémica, a maioria das bandas deu grandes concertos. Vale a pena recordar!