Nevermind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols

Nevermind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols

Hugo Tomé

De todas as ramificações que o rock desenvolveu desde a sua origem, seguramente, uma das mais resistentes e influentes até aos dias que correm é o punk. E dos seus álbuns, poucos são tão resilientes e influentes como o único disco dos Sex Pistols.

De todas as ramificações que o rock desenvolveu desde a sua origem, seguramente, uma das mais resistentes e influentes até aos dias que correm é o punk. O punk que desde a década de 70 se mantém firme e presente um pouco por toda a parte. Mais do que uma vertente simples, crua e directa do rock, assumiu-se como uma verdadeira atitude. Uma atitude que ganhou as principais formas, forças e expressão numa banda como os Sex Pistols. Os Sex Pistols que fizeram um dos melhores discos que o punk deixou para a história… Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols.

Até o menos entendido em matéria de música sabe que o punk não tem fama de primar por grande complexidade e elaboração técnica (dependendo se existe alguma definição e interpretação geral para ambas). A título de exemplo, Never Mind The Bollocks não tem muitas variações rítmicas, orquestrações ou solos. Em vez disso, o primeiro (e único) disco de estúdio dos Sex Pistols tem punk. Tem o estilo, a energia e a condição que permitiram acordar e abanar a música popular no ínicio da década de 70, aquela que à data vivia quase, única e exclusivamente, do rock sinfónico e pop “pipi”. Com Never Mind The Bollocks tudo passou a ser diferente, tudo mudou.

A partir desse momento, doze canções rápidas, efusivas e ruidosas revelaram toda a urgência e impaciência de quem não tinha as raízes, o tempo e a vontade para ser um “cordeiro burguês”. De alguém como John Lydon (ou Johnny Rotten), Steve Jones, Glen Matlock, Paul Cook e (mais tarde) Sid Vicious (este último a grande figura do movimento punk, aquele que ao início da curta carreira não sabia tocar um instrumento), eram filhos de uma Inglaterra esquecida, desfavorecida e operária. Uma Inglaterra totalmente deprimida, carente e estratificada, e que nas palavras de ordem de canções como “Liar”, “Holidays In The Sun”, “Anarchy In The U.K.”, “Pretty Vacant” ou “God Save The Queen” ganhou uma nova geração intervencionista, progressista e revolucionária.

Palavras fortes, destemidas e incendiárias de John Lydon que acompanhadas por melodias uniformes, agressivas e explosivas de Steve Jones na guitarra despertaram em 1977 o mundo do rock para um novo conceito, sistema e realidade. Uma nova realidade musical e social que em Never Mind The Bollocks mostra toda a sua face poderosa, contagiosa e ironica. Os Sex Pistols nunca tiveram nada de psicadélico, orquestral ou sinfónico como a maioria das bandas populares da altura. Never Mind The Bollocks nada tem haver (a título de exemplo) com a mestria e a excelência de The Dark Side Of The Moon dos Pink Floyd.

No entanto, de uma forma brilhante e intemporal, a banda cujo principal fundador foi o empresário/manager Malcolm Mclaren, e cujo nome nasceu a partir de uma sex shop em Kings Road, Londres. Recuperou no seu único disco de estúdio o rudimentarismo instrumental e a simplicidade dos primórdios do rock n’ roll. Os primórdios que foram buscar de Chuck Berry. O legado que deixaram ficar para os Nirvana. Never Mind The Bollocks tem a espontaneidade, a irreverência e a displicência que desafiou toda uma indústria discográfica manipuladora e autoritária, uma indústria que em benefícios e tendências contrastava com o estado geral da Inglaterra na década de 70. E mais importante que tudo isso, o único disco de estúdio dos Sex Pistols tem a qualidade, a fragrância e a substância que devolveu ao rock a sua principal essência, devolveu a atitude, o progresso e a capacidade de mudança do curso da história.

Condensando a essência do ano de 1977, “Never Mind the Bollocks, Here’s The Sex Pistols” é o único álbum de estúdio do grupo, tendo o seu lançamento gerado muita controvérsia e indignação, sendo que logo depois o grupo acabou por ser despedido não por uma, mas duas editoras e banidos de atuarem em maior partes das salas do Reino Unido. A capa foi criada pelo designer Jamie Reid em colaboração com os Sex Pistols, sendo que o título arriscado gerou um caso de tribunal controverso que a banda ganhou. Tudo isto mostra como os Sex Pistols com este álbum conseguiram resumir um momento único na história da música.

Passadas quatro décadas do lançamento de Never Mind The Bollocks, os Sex Pistols foram curtos na vida, mas são longos na memória. Para além das rugas e marcas da idade, trazem consigo o mérito e a faculdade de continuarem a influenciar novas gerações a pegarem em palavras e guitarras, a fazerem do rock uma “arma”. Aquela que em Never Mind The Bollocks não precisa de ser exímia, para ser extraordinária. Aquela que não precisa de ser excelente, para ser diferente.