Nuno Bettencourt, Os Dedos da Atlântida

Nuno Bettencourt, Os Dedos da Atlântida

Hugo Salvado
Pedro Mendonça

Um dos melhores guitarristas de sempre, Nuno Bettencourt falou-nos dos Extreme, das digressões de “Pornograffitti” e “III Sides To Every Story”, de Rihanna e de guitarras.

A maioria dos shredders é gente, musicalmente, enfadonha. Como aqueles jogadores de futebol que apenas possuem velocidade e correm a linha de uma ponta à outra, sem dar, realmente, objectividade ou profundidade ao jogo da equipa. Fogo de vista. Um criativo que trabalhe para a equipa é sempre um jogador com outra classe, ou um ponta-de-lança- que concretize o jogo da equipa, em vez de malabarismos inúteis em frente à baliza. Esses jogadores são, efectivamente, aqueles que se tornam lendas.

Estávamos em pleno Mundial 2014, e se fosse possível transpor as delimitações das analogias, passou por Lisboa um português que nos podia ter feito vencer a competição. Nuno Bettencourt conversou com a AS sobre a origem dos Extreme e o retorno da banda, sobre o seu trabalho junto da diva pop Rihanna e sobre as suas guitarras, Recordamos essa entrevista, publicada originalmente na AS#36, com fotorreportagem a todo o gear que o guitarrista utilizou nesse concerto no Armazém F[Se curtiam ter a entrevista na edição impressa, contactem-nos através da nossa Loja]

Não estavas na banda na sua origem, quando eram os “Dream”. Quando se tornou “Extreme”, de repente, entre ti e o Gary Cherone houve uma faísca criativa. Como se dá uma complementaridade assim?
Foram mais as influências, principalmente as sociais. Quando vimos do mesmo meio, quando escreves, sabes de onde vieste e para aonde estás a ir. Ao mesmo tempo, sabes que as influências musicais são decisivas para essa empatia, seja Prince ou Queen, Van Halen ou Aerosmith. Se um gosta disso, o outro não vai ficar a perguntar «o que é isso?» e é por isso que, logo no início, escrevemos um montão de músicas muito rapidamente…

Quando os Extreme pararam [cerca de 1995], já sabias que, de alguma forma, vocês voltariam a estar juntos?
Claro. Sempre tive a impressão «estamos a ter uma grande longa pausa», mas éramos demasiado jovens para chamá-lo de pausa. Mas sempre soube que a banda era 100% nossa, um projecto só nosso e que nunca teve paragens. Trabalhámos sem parar durante uns 10 ou 12 anos seguidos, sem férias, sempre estúdio, tour, estúdio, tour… E, claro, fomos ficando cansados. Éramos muito novos, na altura, e talvez o nosso management nos devesse ter dito: «Desapareçam! Vão descansar uns tempos». Assim, em vez de descansarmos um ano entre 2 álbums, acabámos por parar uns 10 anos para compensar todas as férias que deveríamos ter tido. Parece-me justo.

É estranho que tenha sido o “More Than Words” a dar-vos dimensão. Não sentes se teria sido mais interessante ser outra música, mais perto do vosso som original?
O modo como vejo [levanta as duas mãos, como uma balança] é assim: o “More Than Words” está de um lado, uma canção bem conseguida, chega a milhões de pessoas, fá-los ir comprar os nossos álbuns, descobrir quem somos e nós começamos a tocar em estádios, salas grandes, em clubes e bares, em festivais… do outro lado, imagino o “More Than Words” a não ser um sucesso e eu a trabalhar no Burger King! Mas percebo o que queres dizer, sobre a música que gosto, o estilo de música que prefiro. Mas as pessoas também sabem, os nossos fãs sabem. Aqueles que precisam de saber, sabem.

P1010211

Então é por isso que os dois singles seguintes foram acústicos…
Só tivemos mais um single, o “Hole Hearted”. E até é engraçado, porque lançámos 3 músicas mais “rockeiras” antes. Fizemos um EP em edição especial [“Extragraffitti”, em 1990] e alguma promoção, talvez o “Song For Love” possa ter sido um single em alguns países… Falando de músicas mais calmas, no álbum seguinte, há o “Stop The World”.

Já que falas nesse álbum, quando vão começar a pré-selecção de orquestras e fazer tournée de 25º aniversário para o “III Sides to Every Story”?
Em breve. Na verdade, estivemos prestes a tocar integralmente  o “III Sides …”, no Japão, recentemente. Temos as partes de orquestra do álbum gravadas e todos queríamos fazê-lo. Um dia antes de começarmos, parei com tudo e disse à banda: «Temos que fazer isto com uma orquestra real, de verdade». Se calhar, não vamos ser capazes de fazê-lo em todos os lugares, talvez apenas em cidades grandes. E não me refiro apenas ao “III Sides …”, mas todas as nossas músicas onde há arranjos de orquestra.

E podemos esperar novo material?
Sim, claro. Estamos agora a escrever e, até ao final do ano, acho que devemos ter algo gravado. Uma das razões porque estamos aqui a fazer “Pornograffitti” é mais para queimar  tempo do que outra coisa qualquer. Vão haver pessoas a pensar que isto é pelo o dinheiro, mas acredita em mim, não é para o dinheiro.
[Nota: Apesar de a banda continuar activa em digressão, ainda não foi editado nenhum álbum após “Saudades de Rock”, de 2008. No entanto, Bettencourt já afirmou que o álbum está cada vez mais próximo, talvez ainda a ser editado em 2019]

Para isso, estarias com a Rihanna?
[Risos] Não, nada disso… A cena com Rihanna também não é para o dinheiro. Faço muito mais dinheiro com os Extreme do que com a Rihanna. Nem perto… Quando és o artista principal, a banda que actua, fazes muito mais dinheiro do que sendo o guitarrista de outra pessoa. A coisa com a Rihanna é muito mais profunda, há muito mais coisas a acontecer do que ir lá tocar.

Tens algum controlo sobre o concerto e a parte musical?
Um pouco [risos]. Estão sempre a despedir-me, arranjam-me outros trabalhos dentro da produção, há muita coisa interessante num projecto como a tour da Rihanna. Mas, vamos fazer o “III Sides …”!

N WASHBURNS

25 anos depois a tua guitarra é a mesma. É alder/padauk, braço em maple, fretboard em ebony, um Floyd Rose, um Seymour Duncan, um Bill Lawrence e aquele fantástico cutaway… Não mudaste nada?
[Risos] Nada, sou bastante aborrecido [risos], mas repara, se algo funciona bem… Não deixa de ser engraçado, apesar de teres vontade de fazer coisas diferentes e aparecer com guitarras diferentes. Independentemente do resto, esta guitarra é como voltar casa. Sinto-me tão bem com ela, até me parece que não estou a tocar guitarra, que estou a fazer qualquer coisa simples, quotidiana, natural.

Como foi o processo de concepção e construção dela?
A origem da guitarra é simples, vem de ser-se pobre. Basicamente, não podia pagar uma guitarra de loja e fui comprar umas peças. Peças do corpo, um braço que gostasse, pickups e tremolo que gostasse, tudo separado. Depois, montei-a eu mesmo. Nem tinha dinheiro para mandar pintá-la e acabei por me habituar a vê-la assim, sem acabamento. Quando a Washburn me quis patrocinar, queriam que tocasse vários modelos de guitarras que já tinham, ao que respondi: «Não é essa a minha ideia, quero mesmo construir a minha», ao que eles acederam. Depois de terminada a construção, fizeram uma versão verde [protótipo], uma versão cor-de-rosa, todas as cores que o Steve Vai tinha [risos]. Aí tive de lhes dizer: «Nada disso! Não quero cores, não quero uma guitarra cor-de-rosa». Quando lhes disse que as queria sem pintura, só com a textura de madeira à vista, disseram-me logo que nunca iria vender, que não havia ninguém a vender guitarras sem pintura [risos].

E tiveste a ideia para o cutaway [5 parafusos em curva]?
O cutaway era algo sobre o qual tinha uma ideia do que queria fazer, para minimizar o tamanho do bloco convencional numa junção de 4 parafusos, mas a Washburn disse-me que já tinha falado com alguém, com um tipo chamado Stephenson, que tinha umas ideias interessantes. Quando me mostraram o trabalho dele, fiquei: «Wow, era exatamente uma coisa deste tipo que queria fazer!», claro, um pouco à minha maneira, mas quando vi a dele pensei, «porque não»?

E esse novo modelo, N4CV, com o fingerboard da guitarra feito de um material compósito, fibra de vidro/carbono e os trastos de aço inoxidável. Usa-la?
Sim, bastante. Na verdade, acho que eles [Washburn] até pensavam que não ia tocar muito com ela, mas acabo por usá-la durante metade do concerto, mais ou menos…

No vídeo do “Decadence Dance”, usavas um braço da guitarra e fingerboard, ambos em maple
Infelizmente não usei muito essa guitarra, porque foi roubada… Desapareceu completamente. Não sei se era suposto ser um sinal [risos], para não usar maple, mas acabei por não ter muitas oportunidades de usá-la.

Depois de uns anos com a N1, N2, N4, N12, apareceram os modelos P2 e P4…
Foi apenas um período, em que realmente precisava de algo diferente. Nem tanto mudar a minha guitarra, mas apenas tocar uma guitarra diferente durante um tempo, com um som mais Les Paul.

Na NAMM 2019, a Washburn apresentou o novo modelo de assinatura do Nuno Bettencourt. O modelo 4N, uma actualização às N4. Entrando em comparações com os modelos anteriores, a 4N possui uma escala em ébano mais fina e um perfil de braço mais profundo que os prévios modelos N4. O braço é uma peça birdseye maple e os contornos do corpo foram remodelados. Podes descobrir mais sobre essa guitarra AQUI.