Pink Floyd, Animals (Sinestesias)

Pink Floyd, Animals (Sinestesias)

Carlos Garcia

O mundo que habitamos, em que vivemos e respiramos todos os dias, onde fazemos escolhas políticas e económicas (ou onde estas são feitas por nós), onde construímos projectos e famílias, em que a nossa personalidade foi e é subtilmente moldada; esse mundo de globalizações, milagres e incertezas, foi um parto difícil no final do século XVIII. O mundo anterior, com o seu carácter pastorício, de nobreza de direito divino e em que a santa madre igreja era o próprio ar que se respirava, morreu de velhice (quiçá de reforma antecipada) e os ares claros deram lugar ao fumo fabril. E a injustiça das relações sociais, num mundo em que tudo era predeterminado por leis divinas, deu progressivamente lugar a um mundo onde essa injustiça é agora moldada por leis bem mais prosaicas: as do mercado!

Não há melhor forma de testemunhar esta metamorfose no tecido do nosso universo “psicosocial” do que passear por um dos quaisquer grandes museus do mundo ocidental, que abarque a pintura desde a alta idade média até à primeira grande guerra. Podem, no espaço de umas poucas salas, galgar-se séculos em minutos e assistir à forma como retábulos sacros estilizados dão lugar a cenas naturalistas da bíblia e do mundo pagão da antiguidade clássica.

Como, progressivamente, as paisagens de campos e aldeias vão ficando despojadas de deuses e heróis e santos e povoadas das gentes que. efectivamente, as habitava. De como as fábricas e os teares vão aparecendo em cena, primeiro como pano de fundo e depois como primeiro plano e objecto temático, posicionando-nos no meio do carvão e do óleo e da sujidade, com os céus negros de fumo. De como a cidade se torna o motivo cénico principal, com os seus prédios, ruas, veículos, lojas, dinâmicas. De como as relações sociais ganham cada vez mais importância temática, e a preocupação com aqueles que ocupam os mais baixos escalões da miséria urbana ganham, não só cada vez mais relevo, mas um relevo de um carácter muito diferente da antiga caridade paternalista cristã, onde o pobre tem de sofrer o seu fardo e a missão das boas almas é o de trazer algum alívio e algum consolo num hipotético escatológico.

Na miséria fétida e suja da cidade industrial, nasce um sentimento e uma ideia que nunca havia vingado na antiga miséria de fome no campo: o de justiça social e da vocação do estado para ser mais do que um garante da lei e da ordem – o estado como protector dos mais fracos e vulneráveis entre nós.

LONDON POWER COMPANY

O Reino Unido foi, como nação, o coração e o motor da revolução industrial, e o robusto crescimento da sua capital teve de ser acompanhado por um, igualmente, robusto sistema de alimentação energética. A electricidade é o sangue que corre pelas veias de qualquer metrópole moderna e a mantém viva e em expansão. Londres, até aos anos vinte, era alimentada por uma rede de pequenas estações individuais, pertença companhias diferentes e usando sistemas de voltagem distintos. Cada uma fornecia a alimentação de indústrias e áreas separadas e a energia soçobrante era, então, vendida ao grande público. Este sistema ineficaz já não consegue alimentar o grande organismo londrino, pelo que o governo decide unificar todo o sistema, sob a forma da London Power Company, e construir um pequeno número de “mega” estações, que garantiriam o funcionamento de toda a cidade. A primeira destas é construída, em duas fases, na margem sul do Tamisa.

pink-floyd

Entre os anos 30 e 50 duas estações simétricas, unidas por corpo comum, tornam-se no grande ícone da margem sul, dominando a paisagem com tanto ou mais poder que o de St. Paul, Westminster ou o Parlamento.  na outra margem. O nome oficial é a estação de Battersea. Ainda hoje permanece como o maior edifício de tijolo da Europa, com as suas quatro titânicas chaminés brancas a dominar todo o horizonte. É um colosso imponente, a grande catedral de ferro e aço da era industrial! Walt Whitman ou Álvaro de Campos teriam pregado sermões e cantado odes à engrenagem e ao ruído no eco da sua grande câmara. Quem a vê pela primeira vez, entrando em Londres de comboio vindo do sul, sabe como é fascinante ver este leviatã ferido a assomar lentamente na paisagem, reduzindo a miniatura todos os edifícios em seu redor, esmagando a psique do transeunte e elevando o espírito de uma forma que nenhum edifício o fazia desde as velhas catedrais góticas. Hoje em dia existe apenas como fachada, pois foi encerrada em 1980, tendo chegado ao fim da sua vida útil como produtor de energia. O seu futuro ainda é incerto, mas tivesse o destino tomado outro rumo e há muito que teria ido ao chão. A sua sobrevivência deve-se ao facto de, um dia, Roger Waters morar na sua vizinhança e por ela passar diariamente. Aquele gigante moribundo seria o perfeito ícone e cenário para as ideias e emoções que pairavam no seu espírito.

O percurso dos Pink Floyd mimetiza, de certa forma, a evolução da sua Inglaterra natal ao longo do último século. Tendo começado a sua carreira sobre a égide e o espírito criativo de Syd Barret, os Pink Floyd seguiram, inicialmente, uma linha conceptual que derivava do imaginário do seu guitarrista: uma espécie de pastoral psicadélica, onde as letras e as linhas melódicas tinham tanto de nostalgia do campo inglês pré industrial (Barret era grandemente influenciado por obras como, por exemplo, “O Vento Nos Salgueiros”, de onde provém o título de “Piper at the Gates of Dawn”), como das experiências com enteógenos e riffs experimentais das correntes mais vanguardistas do jazz e dos blues. Na boa tradição de românticos como Shelley ou Byron, Barret olhava para uma Inglaterra primordial e mística, longe das cidades e da grande “maquinização” do mundo que teria levado à tragédia das duas guerras. Uma Inglaterra de druídas, pastos, riachos, criaturas mágicas escondidas atrás de cogumelos e megalitos, longe do olhar cobiçoso dos homens que se haviam tornado, como Tolkien descreve Saruman, como tendo uma mente de metal e rodas. A dietilamida do ácido lisérgico permitia a Barret invocar a magia desse mundo arcadiano perdido, ao mesmo tempo que transportava a sua mente para um espaço cada vez mais distante dos seus colegas de banda e do mundo contemporâneo em geral. Syd sai da banda para uma residência permanente no país das maravilhas, e foi Waters que, progressivamente, assumiu as rédeas conceptuais e a escrita de canções.

Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros!

Após um período de muita experimentação, em “Dark Side of the Moon” os Floyd encontram o “seu” som: os solos de Gilmour, a ambiência espacial, os coros de gospel, os efeitos sonoros, a viagem temática. Tudo o que tendemos a pensar como “Floydiano” cristaliza-se neste prisma no qual o espectro de luz é decomposto. O álbum seguinte, “Wish You Were Here, faz, simultaneamente, a despedida e a elegia de Barret. O pastoralismo e o contacto com uma natureza mãe redentora e mágica são aqui enterrados. A infância fica para trás. É preciso encarar o mundo actual de frente. Rogers não gosta do que vê à sua volta mas, ao contrário de Barret. não quer escapar ao mundo pós industrial. Quer transformá-lo! Onde Barret tinha a nostalgia da infância perdida, Waters tem a raiva da infância corrompida. Um é lírico, o outro é politico. Um é psicadélico, o outro é psicanalítico. As fábulas de animais constituem um cânone na literatura inglesa, mas os animais de Waters não são os simpáticos antropomorfos “georgianos” de Kenneth Grahame, senão os distópicos habitantes da quinta de “Animal Farm”.

GEORGE ORWELL

Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros! George Orwell é um produto tão consequencial da revolução industrial como o são a produção em série, o lumpesinato, o fascismo e o comunismo. Nascido Eric Blair, na sombra do império britânico onde o sol nunca se punha, Orwell tinha a raiva e a noção de injustiça para juntar a sua voz ao coro de revolucionários e anarquistas que, no início do século XX, clamaram pelo fim da exploração do homem pelo homem. Felizmente, também teve a coragem e o humanismo de “dar o corpo ao manifesto”. Lutando e levando chumbo na guerra civil de Espanha, Orwell percebeu que por detrás da retórica marxista se escondia todo um outro mundo de desumanidade. “Animal Farm” é o romance onde esta aprendizagem da vida é explanada. O título em português é “O Triunfo dos Porcos” e, no romance, estes são os animais da quinta que, inicialmente, encabeçam a revolta contra o jugo do agricultor fascista, para mais tarde se converterem eles próprios nos tiranetes dos seus irmãos animais. Uma fraternidade animal é assim convertida em cleptocracia suína. “Animal Farm” é o leitmotiv de inspiração para “Animals”, o décimo álbum de estúdio dos Floyd. Neste, os animais são os cães, ferozes e combativos, açaimados e treinados deste pequenos para cumprir as ordens dos seus mestres, os porcos, glutões e despóticos, submetendo aos seus desmandos toda a sociedade que é, basicamente, composta de ovelhas, pastando morosamente em verdes campos, sem noção do perigo que as rodeia, sendo mansamente levadas para abate, até ao dia em que se revoltem. O porco como símbolo do totalitarismo, vindo de “Animal Farm”, ganha especial expressão em “Animals” e passará a ser uma constante no imaginário “floydiano” e na carreira a solo de Waters (após o divórcio, o acordo estabelecido em 87 permitiu a Waters reter o álbum “The Wall” e os seus “porcos”).

Storm Thorgerson desenvolveu uma espécie muito particular de surrealismo, utilizando técnicas de manipulação fotográfica no que se pode chamar de photoshopping avant la lettre.

Estes vectores, aparentemente díspares mas, subtilmente, convergentes, ganham uma realidade visível na capa de “Animals”. Os Floyd sempre caracterizaram por uma forte componente visual (quase todos os membros da banda vêm da arquitectura e das artes visuais), mantendo ao longo da carreira uma determinada coerência imagética, a que não é alheio o facto de grande parte das suas capas ter sido concebida pelo designer Storm Thorgerson e pela sua companhia: Hipgnosis. Thorgerson desenvolveu uma espécie muito particular de surrealismo, utilizando técnicas de manipulação fotográfica no que se pode chamar de photoshopping avant la lettre. Chegando a “Animals”, cabe à Hipgnosis dar vida à ideia de Waters: um porco gigante flutuando sobre a estação de Battersea. A catedral da indústria está ainda em funcionamento em 1977, mas o seu fim está já próximo e decretado. Terá Waters visto Battersea como o símbolo de uma Inglaterra que se aproxima do fim? Uma Inglaterra que sonhou o sonho de uma sociedade mais justa e fraterna após a Segunda Grande Guerra (conflito no qual o pai de Waters perdeu a vida), com o NHS e a construção do estado social, e que vê o sonho dissipar-se com o colapso das indústrias tradicionais (especialmente o carvão e o aço). As nuvens que encobrem Battersea na capa prefiguram já o triunfo conservador de 1979 e a progressiva corporização do país ao longo da década de oitenta, transformando proletários em consumidores, as ovelhas mansas dos pastos artificialmente verdes! Sendo assim não é difícil de adivinhar quem é o porco que flutua sobre a catedral da margem sul (e que, reza a lenda, é também o segundo porco na letra de “Pigs (Three Different Ones”). «You fucked up old hag (…) You radiate cold shafts of broken glass (…) You like the feel of steel»!

Para a sua construção, os serviços da companhia alemã Ballon Fabrik são recrutados. Que a companhia no passado fabricasse Zeppelins é um pormenor irónico deste conto. O autor do suíno final (baptizado de “Algie”) foi o artista australiano Jeffrey Shaw e a 2 de Dezembro aquele é transportado para Battersea, pronto para fazer o seu voo de glória. A ideia é insuflar “Algie” para que flutue entre as magníficas chaminés brancas da estação. Infelizmente, o tempo inclemente desse dia impede que a sessão fotográfica se realize, sendo, portanto, tomadas apenas chapas fotográficas do edifício em si, banhado sob um céu de chumbo “à Turner”.

PORCO VOADOR

Adiamento para o dia seguinte e novo contratempo: o porco desprende-se das suas amarras e, na ausência de um atirador que tinha sido contratado, apenas por um dia, para garantir que qualquer fuga de “Algie” terminasse antes de começar, ganha novas asas e voa sobre o Tamisa. Em direcção ao espaço aéreo de Heathrow. Todo o tráfico aéreo é cancelado, e a RAF é alertada para localizar o suíno fugitivo. Este é, finalmente, descoberto por um agricultor de Kent, que alerta a produção para o facto de se encontrar um porco gigante no meio do seu terreno, a assustar as vacas. A proximidade com o cenário que compôe a capa de “Atom Heart Mother” faz com este seja talvez uma espécie de encontro surrealista, um “cadaveresco” espaço-temporal, de duas produções de Thorgerson. Ao terceiro dia, conforme as escrituras, a foto é finalmente tirada, mas o céu encontra-se limpo e aborrecido, sem o dramatismo apocalíptico da primeira sessão. A solução encontrada é combinar as fotos da primeira e terceira sessões numa colagem. Mais uma vez: photoshop avant la lettre. A capa final de “Animals” é assim uma ilusão de um momento que nunca existiu. A iconografia sua foi, no entanto, reconhecida desde o primeiro momento, criando uma imagem que, de uma estranha forma, se vem a enquadrar perfeitamente num determinado cânone artístico britânico – não destoaria nas paredes da National Gallery, pendurada, talvez, entre o romantismo de Turner e o industrialismo de Lowry. Entre dois momentos no tempo.

O porco, como símbolo do poder despótico, sobrevoando o símbolo ruinoso da energia que, um dia, alimentou uma cidade que construiu um império…

O porco, como símbolo do poder despótico, sobrevoando o símbolo ruinoso da energia que, um dia, alimentou uma cidade que construiu um império. Talvez os Floyd tenham construído um sigilo mágico (à boa maneira do grande mago inglês Osman Spare) de tal forma poderoso que, não só, entrou na psique colectiva britânica como, recorrentemente, dela emerge, provocando ondas de choque no tecido psico-social. O porco voltou a voar sobre Battersea, no real 2006 ou no fictício 2027, no filme de Alfonso Cuarón, “Children of Men”. Revelando Inglaterra num futuro em que uma crise de infertilidade empurrou o mundo para o abismo. O filme é uma meditação sobre os temas da esperança, da migração e do contacto com o outro. Uma Inglaterra que, sendo o único estado nação neste futuro distópico que ainda mantém a sua estrutura de funcionamento semi intacta, conserva, no entanto, as suas portas fechadas aos refugiados que chegam às suas costas vindos dos sete cantos do mundo. Qualquer semelhança com a actualidade não é pura coincidência! No filme, a estação foi convertida numa espécie de fortaleza, onde a elite guarda obras de arte resgatadas do resto do mundo colapsado. Os porcos refugiam-se das ovelhas, a capa de “Animals” é ironicamente recriada. Ainda no seguimento de ficção distópica, a série de televisão concebida por Charlie Brooker, “Black Mirror”, de 2011, volta a introduzir a questão suína: e a palavra introdução, aqui, não é inocente, pois o primeiro episódio mostra-nos um cenário onde um primeiro-ministro britânico, cedendo às pressões das ovelhas da opinião pública, é forçado a copular com um porco ao vivo e em directo na televisão.

Todo este “emporcalhamento” temático torna-se ainda mais estranho ao reaparecer, em anos recentes, na nossa realidade com as alegações de que o actual primeiro-ministro britânico, na sua juventude, terá feito sexo oral com uma cabeça de porco, no contexto de um qualquer ritual elitista. Milhões de piadas e innuendos jorram nas redes sociais como um «oínc» colectivo, mas o status quo mantém-se. Os balidos de ovelhas podem ser ampliados pela força da tecnologia, mas são apenas pérolas para porcos. Metáfora e ficção e crítica e realidade, tudo se confunde. Vivemos num mundo moldado por forças que emergiram há duzentos anos, na ilha nação. Quiçá, antes do primeiro tear a vapor ter sido metido em funcionamento, gerando a hiper realidade que nos rodeia, tenha sido efectuada uma matança do porco em comemoração do facto. Terá o sangue caído no solo, na véspera de tão potente ocasião, e gerado magicamente a imagética do porco como símbolo da ambição sem limites, da ganância desmedida, da exploração e do consumismo desenfreado? No romance de William Golding, “O Deus das Moscas”, é uma cabeça de porco, espetada numa lança, que fornece o corpo à entidade que dá título ao livro, entidade em nome da qual são perpetrados todos os massacres e injustiças da narrativa. Parece um estranho mealheiro simbólico que, uma vez quebrado, dá lugar a um outro porco no seu interior, como uma matriosca porcina. «Pigs within pigs».

É então um excelente ícone do mundo actual, este porco que flutua sobre o símbolo decadente da revolução que gerou a nossa realidade. Capturado em vésperas de outra grande revolução, a revolução neo liberal, iniciada no Chile por Milton Friedman, prosseguida por Thatcher e Reagan, que domina hoje, de forma hegemónica, os estados e as instituições supra estaduais do mundo ocidental; que degrada e perverte e denigre a ideia de tecido social e do estado como garante da liberdade e da segurança de quem fica à margem (e muitos ficam, cada vez mais, à margem).

“Animals”, nas suas metáforas de porcos dominantes, cães esbirres e ovelhas submissas, continua a pairar flutuante sobre os dias que correm debaixo de céus de chumbo. E a voz de Waters continua a ser uma de lucidez e razão (como o foram e são as de Orwell e Golding e Cuarón e Brooker e muitos outros) em tempos em que uns continuam a ser mais iguais que outros.