Pixies, Surfer Rosa

Pixies, Surfer Rosa

Carlos Garcia

Puxem das cadeiras, sofás ou almofadões, e sentem-se confortavelmente, pois vou contar uma história que pode ou não ter sido verdade verdadinha. Foi-me contado na fronteira suada e patrulhada entre o México e os Estados Unidos, enquanto se aguardava a lenta inspecção de veículos motorizados, potencialmente carregados de estupefacientes e imigrantes ilegais.

Isto passa-se algures nos ubíquos anos oitenta, nos quais as leis que, habitualmente, governam o tecido da realidade foram temporariamente desligadas para manutenção técnica! Um jovem ainda não obeso (mas para lá caminhava) e ainda não careca (mas para lá caminhava), originário, segundo a sua certidão de nascimento, de Boston Massachusetts (mas na realidade originário do programa secreto de hibridação humano-extraterrestre)… A parte do nome é complicado, chamemos-lhe Charles Thompson por enquanto; o híbrido Charlie de Boston, dizia eu, encetou uma viagem rumo ao território colonial estado-unidense do Caribe, Porto Rico. Os objectivos: escrever o melhor álbum de pop punk surf garage rough and ready rock n’roll de todos os tempos; perder da virgindade numa variedade de bordéis, putas de rua e engates de ocasião; e o teste às redes de telemetria porto-riquenhas, a fim de contactar a nave mãe. Isto não necessariamente por esta ordem, é claro.

A missão era a mensagem. E a mensagem era clara! Descarregada a partir do grande vórtex pós moderno, trans cultural da cultura californiana; obtida após leitura cuidadosa dos escritos proféticos de Ray Bradbury (distribuídos e comercializados como simples contos de ficção científica em revistas da especialidade); intuída na limpidez harmónica das melodias de amor adolescente de Brian Wilson; sentida vibratoriamente no reverb místico da guitarra de Dick Dale. O jovem, cara de bebé, Charlie havia sentido o grande apelo da costa oeste e partia agora entusiasmado para o que olhos menos atentos considerariam umas meras férias de sexo, álcool e decadência, mas que era, na verdade, uma missão de suma importância, importando o peso que qualquer projecto visionário carrega.

Meio solo de Hendrix, três quartos de feedback dos Stooges, alguns dedilhados soltos de êxitos latinos.

Vindo de um arquipélago distante, onde se habla un poquito de espanhol – apesar de ser, na realidade geográfica, um arquipélago asiático, mas o mundo pós colonial tem destas coisas estranhas -, Joey Santiago chega esfarrapado e esfomeado à costa oeste dos Estados Unidos ou chegou de avião com a família, bem vestido e alimentado (mas isto é duvidoso pois nenhuma comida de avião é verdadeiramente alimento e, enfim, existem sempre pequenas inconsistências nestas histórias). Diz-se que atravessou o oceano num pequeno bote de madeira, totalmente desprovido da companhia de animais selvagens ao longo do trajecto. Na verdade, a única coisa que transporta consigo é uma velha Les Paul e um pequeno rádio a pilhas. Ocasionalmente, o rádio capturava e cuspia, a custo, emissões flutuantes provenientes do grande continente situado do outro lado do imenso mar. Pequenos soundbytes de inglês que lhe foram permitindo descortinar a língua; ecos de punk rock, pickups entre cortados de guitarras famosas: meio solo de Hendrix, três quartos de feedback dos Stooges, alguns dedilhados soltos de êxitos latinos. Pelo meio, muita estática intermitente. Joey cedo aprendeu que se sintonizasse a frequência da cacofonia do pequeno emissor com a vibração das cordas da sua Les, criava um leme sonoro que orientava a sua embarcação para bom porto. Cada meio acorde aprendido era mais uma milha náutica no rumo certo.

No dia em que o bote veio a completar a sua lenta deriva, encalhando numa praia de calçadão extenso, calcorreado de lés a lés por criatura louras de patins em linha, Joey Santiago era agora um anti herói da guitarra. Formado na universidade anti técnica do alto mar, o som e a sua capacidade de nos orientar rumo a casa tornaram-se a sua razão de fazer música. Construindo desafinações progressivas, calcorreia o novo território de costa a costa. Ao deparar-se com um novo oceano, para lá caminha e testa o volume de som na praia de areia cinza. Os seus olhos logo encontram uma garrafa flutuando com uma mensagem telegráfica lá dentro. Uma mensagem escrevinhada à pressa em Porto Rico: «Chegou a hora, chegou a hora!»

«Lalalalalloveyou…» Em Los Angeles existe um Castelo Mágico. Ilusionistas, trapaceiros, charlatães, magos, bruxos, mentalistas e burlões de todo o mundo para lá se dirigem a fim de demonstrar as suas habilidades, comparar notas, roubar roliças assistentes uns aos outros e amaldiçoarem-se mutuamente. É um local de engano e misticismo. O Fenomenalista Científico ocupa, junto com o seu equipamento, uma das suas torres, a terceira a contar da esquerda, aquela que tem uma pequena cúpula e uma antena para o exterior. Aqui ensaia e aperfeiçoa a arte de construir magia a partir da ciência: uma arte de grande renome e disciplina, que teve mestres como Newton, Frankenstein e Tesla. O Fenomenalista Científico entretém e educa adultos e crianças, na viragem do século XX para o XXI, através das suas máquinas auto construídas. Máquinas que constroem máquinas que constroem máquinas, num fractal intricado que a todos espanta e mesmeriza. Nas poucas horas vagas que possui o Fenomenalista explora a ciência dos ritmos percussivos. É o seu passatempo e a sua obsessão. Velhos documentos encontrados nas caves do Castelo Mágico indicam que a combinação metódica de bombo e tarola é a chave para abrir portais espaço-temporais e viajar no tempo.

O Fenomenalista, embora competente e reconhecido no seu mester, acalenta um sonho no seu coração: poder tocar música na última época em que a música era um sonho de liberdade e não um brinquedo corporativo: a viragem dos anos oitenta. Rock ‘n’ Roll is in his heart. «Lalalalalaloveyou…..» O Fenomenalista sente que está muito perto de encontrar o ritmo certo, aquele que lhe permitirá virar o engenho do mundo uma década e fazer o que ainda não foi feito. Um dia, a presença de um tal John Murphy no Castelo Mágico proporcionou a pedra de toque para completar o projecto do Fenomenalista. Embora não fosse ele próprio um músico, Murphy carregava consigo uma lista de acordes de baixo. Acordes vibrantes e sedutores, estes possuíam suficiente alquimia vibratória para que combinados com a parafernália rítmica desenvolvida secretamente na terceira torre, as fronteiras do espaço e do tempo se dissolvessem. O Fenomenalista Científico não hesitou por um segundo em reverter muitos segundos: após uma breve contagem decrescente de 3, 2, 1, iniciou um ritmo compassado rumo ao passado recente.

Após um tempo em que não houve tempo, largou as baquetas, desceu do banco, e contemplou o magnífico sol porto-riquenho que brilhava lá do alto. Despiu o agora anacrónico casaco de laboratório cujo uso era pouco apropriado a um clima mais húmido e tropical. O nome, pensou ele, havia-se tornado igualmente anacrónico. Seria necessário um novo. Cantarolando para si próprio pensou o que seria mais apropriado «Lalalalalovering….»

SINESTESIAS

Surfer Rosa levava já muitos anos como patroa e estrela da casa no bordel Isla del Encanta. Não só era conhecida pelos seus dotes carnais, mas também pelos seus conselhos de mulher sábia e visionária, a sua prática de flamengo, e a sua experiência como guerrilheira em meia dúzia de revoluções por vários cantos do globo.

Instalada desde há décadas na ilha, sobre Surfer Rosa corriam várias lendas: diziam que era filha de profeta e, como tal, ela própria, meia profetiza. Diziam também que teria chegado à Terra vinda de outro sistema solar, durante a última era glacial. Mulher velha e nova de muitos anos, teria praticado as suas artes na antiga Babilónia, banhando-se no Tigres e no Eufrates, enfeitiçando homens e mulheres à sua volta. Que teria alterado e influenciado os rumos da história. Ou que teria sido amante de Gustave Eiffel, na Paris de oitocentos, e que secretamente o teria ajudado a construir a sua torre, para fins nunca realmente descortinados. Terá assentado os arraiais em Porto Rico após a guerra. Dizia, para quem a escutava, que assim podia surfar as ondas mornas (o seu passatempo favorito e a razão da sua alcunha) do mar do Caribe, e observar a evolução dos muitos e estranhos fenómenos que se passavam para lá do seu golfo. Surfer Rosa gostava de guitarras lentas ao entardecer, de cartada pela noite fora e de apanhar as ondas pela manhã. E foi após regressar de uma destas manhãs, de prancha debaixo do braço, que deparou com a figura “abebézada” de Black Francis a dormir no alpendre do seu estabelecimento. Não seria o primeiro jovem mochileiro estado-unidense a vir procurar o seu leito e não seria o último. Mas as feições particulares deste alertaram Rosa. Tinham o toque inconfundível dos habitantes da pátria que há muito havia deixado para trás.

O misterioso e sempre em movimento Mr. John Murphy havia escolhido a ilha caribenha como destino de lua-de-mel. Ao seu lado, Mrs. John Murphy poderia ser descrita como a típica esposa recém casada, excepto pelo sorriso sardónico, o discurso não totalmente compreensível, a camisa axadrezada de flanela e as botas da tropa que tinha insistido em usar mesmo durante a cerimónia. A lua-de-mel dos Murphy consistiria assim, para além da exploração dos respectivos corpos, da exploração dos melhores tascos Puerto Riquenhos, em busca do melhor rum. Nada menos que um Long John Silver ou um Edward Teach teriam, no seu tempo, considerado satisfatório seria aceitável. Foi numa noite em que a lua brilhava cheia no céu que os Murphy adentraram a Isla del Encanta. Vários alcoólicos experientes já haviam-lhes falado do rum groselha apimentado que era servido na casa. Isso combinado com os dotes na guitarra de flamengo da dona tornavam a perspectiva daquela noite ser o culminar perfeito da lua-de-mel. Mrs. John Murphy era, entre outras coisas, uma baixista eximia, e uma jam session encharcada em rum e suor com o seu mais que tudo e a lendária Surfer Rosa, tornavam o seu perpétuo sorriso ainda mais sardónico.

O que ela não esperava encontrar ao rodar as portas, era um par de seus conterrâneos, instalados no pequeno palco da casa, a trocar acordes nas suas respectivas guitarras eléctricas. O latino Santiago fazia uma litania de anti solos que ameaçavam rebentar com a fraca potência dos altifalantes. O ainda não obeso (mas para lá caminhando) Frank Black marcava o ritmo com acordes dissonantes. Soltava berros estranhos e melodias doces ao microfone, como um bebé grande que ainda não encontrou bem o significado da palavra harmonia. Surfer Rosa, na sua fardamenta habitual de seios despidos e saia rodada, fazia as honras da casa.

O disco lunar dir-se-ia estar agora praticamente pousado sobre o estabelecimento, tal a profusão de luzes e a vibração nas paredes. No strobe intermitente que tornava difícil discernir a totalidade do que se passava dentro da casa, uma parte substancial da clientela parecia não humana…

Pois claro que por ela seria um prazer servir o Rum da Rosa aos pós nubentes. E uma honra ainda maior se Mrs. John Murphy fizesse o favor de juntar o seu baixo, e sua voz de rouquidão delicada, aos músicos presentes. Cada elemento é importante para se criar a sonoridade certa para o momento. A lua estava agora (seguindo uma trajectória contra natura de ter vindo a baixar ao invés de subir no decurso da noite) mais luminosa do que nunca. Na verdade tão luminosa que, ao invés do habitual branco azulado que enverga, apresentava todo um colorido intermitente. Mr. John Murphy, confortavelmente sentado na primeira fila de mesas trocava shots de rum com Surfer Rosa e olhares provocadores com a esposa em palco. Por sua sugestão havia-se aberto um espaço extra por detrás dos três músicos: para incorporar equipamento rítmico vindo do futuro, dizia ele, «há-de chegar aqui a qualquer minuto, mais segundo menos segundo». O disco lunar dir-se-ia estar agora praticamente pousado sobre o estabelecimento, tal a profusão de luzes e a vibração nas paredes. No strobe intermitente que tornava difícil discernir a totalidade do que se passava dentro da casa, uma parte substancial da clientela parecia não humana…

Lendas antigas dizem que há muito que seres híbridos, meio humanos meios alienígenas, vivem entre nós. Já lhes chamaram de tudo: gnomos, elfos, fadas, pixies. Surfer Rosa aprecia contente e ruborizada o poder criativo e chamativo da música! Música que não conhece fronteiras ou géneros ou categorias. Há muito que ela esperava uma boleia de volta à casa. Dizem que uma máquina fotográfica antiga lhe capturou a semelhança nessa noite. A última que ela foi vista entre nós. E a única que se conhece dela.

Foi-me contada esta história, que pode ou não ter sido verdade, verdadinha, numa tarde quente e de movimento lento na fronteira entre o México e os Estados Unidos. A polícia revistava forçosamente uma senhora que não falava uma palavra de inglês, enquanto ao lado uma criança desgrenhada chorava agarrada a um chupa chupa. Foi-me contada por um careca obeso, de fato preto e guitarra às costas. Tinha estacionado o seu hovercraft a poucos metros do posto fronteiriço, e esperava agora a regularização do papéis e o carimbo oficial. Suava abundantemente, e estava apressado com o tempo. Tinha de chegar ao deserto ainda naquela noite: «They’ve got one leaving today» dizia-me ele!