Process Of Guilt, Tríptico “Liar”

Process Of Guilt, Tríptico “Liar”

Nero

O vocalista Hugo Santos reflecte sobre o marco sonoro que foi o colossal “Fæmin” e como “Liar”, tema do split com Rorcal, traz tanto de continuação como de mudança.

O split entre Rorcal e Process Of Guilt representa a primeira vez que a banda nacional colaborou num tema com alguém que não faz parte do quarteto que a forma. As proximidades de visão e estética sonora com JP, guitarrista dos suíços, estabeleceram muito do que distingue o tríptico “Liar”. Os três movimentos do tema e a sua gravação foram o motivo para uma conversa com o guitarrista/vocalista Hugo Santos.

O “Liar” é uma continuação, mas é também a primeira vez em que fazemos algo que já não é o “Fæmin” e que tentamos levar um pouco mais à frente.

A cada lançamento de Process Of Guilt têm havido mudanças estéticas significativas. Desta vez essa sensação parece mais reduzida…
“Liar” é o primeiro esforço de composição que fazemos a seguir ao “Fæmin”, onde nos encontrámos. Onde ficámos a par entre aquilo que queremos fazer, com aquilo que ouvimos, e entre uma data de ambiências que queremos fazer. Aí descobrimos ritmos mais dinâmicos e há uma orgânica de banda a funcionar de forma diferente. Em “Liar” tentámos levar isso um pouco ainda mais adiante e também transformar um grande tema em partes menores que, individualmente, conseguem ter um ritmo e cadência próprias.
Se ouvisse apenas enquanto fã da banda, “Liar” parece-me o tema que estaria à espera. Em termos de evolução é congruente. Gravámos o “Fæmin” em 2011. Há três anos que andamos a tocar e a desenvolver uma estética que é a que ambicionamos. Por outro lado, a forma, o som final que o “Fæmin” teve, como reflexo do sítio onde foi misturado (por Andrew Schneider, nos Translator Audio Studios, em New York), acabou por nos influenciar na procura dessa contundência de som. O “Liar” é uma continuação, mas é também a primeira vez em que fazemos algo que já não é o “Fæmin” e que tentamos levar um pouco mais à frente.

Além da mistura, também captações e masterização significaram mudanças. Qual foi o compromisso?
Os álbuns vão evoluindo e as gravações, do nosso ponto de vista, também. Queremos que a experiência seja, tanto para nós como para quem ouve, o mais próximo do melhor que conseguimos. O mais profissional possível dentro daquilo que queremos para o nosso som. O “Liar” marca a primeira vez que abandonámos o sítio onde gravámos tudo desde o nosso início, o estúdio Quinta Dimensão, do João Bacelar. Acabámos por encontrar um novo parceiro, no estúdio do Paulo Basílio (TDA), onde fizemos captação de guitarras e voz, sendo que também encontrámos um novo local para a captação da bateria, uma vez que o André Tavares fez as captações no Atlantic Blue.
Sabendo que iríamos ter a participação do JP, que iria acrescentar uma camada de noise ao nosso trabalho, acabámos por tirar partido da sua vontade em querer misturar estes temas. Como ele iria misturar os temas de Rorcal, achámos que isso acabaria por unificar a abordagem sónica dos dois lados do split. Também abordámos um novo estúdio para masterização, que foi feita pelo Raphaël Bovey no My Room Studio. Estamos conscientes das diferenças de som entre o “Fæmin” e o “Liar”, mas estamos contentes com ambos.

A soma da mistura com a masterização dá um som muito mais “europeu”, muito mais puxado aos médios, do que a mistura do “Fæmin”

A mistura do JP, inconscientemente, não terá acabado mais benéfica ao corpo sonoro mais cru dos Rorcal?
Teoricamente, o benefício deveria ser para nós, pois a mistura de Rorcal foi feita num ambiente totalmente digital e a nossa foi feita através de uma mesa analógica. Acredito é que ele, por estar muito mais por dentro do som de Rorcal que do nosso, tenha retirado melhor partido da captação de Rorcal que da nossa própria captação, que foi a melhor que já fizemos até hoje. Também sei que a soma da mistura do JP com a masterização do Raphaël Bovey dá um som muito mais “europeu”, muito mais puxado aos médios, do que a mistura do “Fæmin”.

Talvez desde o “Erosion”, fala-se muito em Godflesh. Este tipo de mistura que referes traz isso ainda mais para primeiro plano…
Vai lá buscar um bocado mais. Que era uma coisa que também queríamos e que já procuramos desde o split com Caïna.

LÊ A REVIEW AO SPLIT PROCESS OF GUILT / RORCAL

Terem trabalhado à distância com o JP, mandar pistas para trabalho posterior, etc. Todo esse cenário poderá pressupor o surgimento de remix?
De início estávamos cheios de planos para fazer algo como o “Times Of Grace” (Neurosis) e o “Grace” (Tribes Of Neurot). Ter o tema como o tocamos apenas os quatro e depois a gravação do JP, em que juntando os discos se ouviria a soma. Pensámos nisso tudo. Considerando a banda que somos e que são os Rorcal, essas coisas acabaram por ser reduzidas à falta de disponibilidade para passar 24h diárias a trabalhar sobre uma ideia. Este tema, principalmente o “Movement III”, é um pouco similar ao “The Circle”, não em termos de estrutura, mas de melodia e no espectro de diferentes ambiências que podiam ser abordadas. Mas não irá acontecer. Neste momento já estamos a meio caminho com músicas novas e o objectivo principal é fazer o disco novo.