Punk & Casios Retro, As Raízes de Callaz

Punk & Casios Retro, As Raízes de Callaz

Redacção
Marta Costa

“Dead Flowers & Cat Piss”, o novo disco de Callaz, chega dia 19 de Fevereiro de 2021 e junta Helena Fagundes a Maria Sormenho, que revê o seu percurso até este álbum, a sua filosofia DIY, um Casio para principiantes e outros dois synths retro, pivotais na sua música.

Maria Soromenho foi Styling Assistant em projectos como Alicia Keys, Peaches, Laura (Ultraísta), Loreen, Josephine e Arlissa, nos tempos em que esteve em Londres e, em 2013, começou a sua própria marca, um projecto de criação de roupa e lenços de seda. Mas foi em 2017, em Los Angeles, que decidiu enveredar criativamente pela música. Criou o pseudónimo Callaz e aprendeu a misturar sons sozinha, dando à sua linguagem musical o barulho de fundo próprio da autonomia, uma preferência por um processo de trabalho guiado pela filosofia DIY.

«Fui morar para Londres em 2011 com o objectivo de trabalhar e estudar design de moda. Estive brevemente na London College of Fashion e fui assistente de vários designers como, por exemplo, Pam Hogg, que desde os anos 80 está muito ligada à música. Lembro-me de trabalharmos em vários outfits para a Siouxsie Sioux usar em palco em 2013 – existe uma longa amizade e colaboração entre as duas. Trabalhei também como Styling Assistant em projectos como Alicia Keys e Peaches e, nesta altura, já estava rodeada de música e músicos. A minha marca Maria Soromenho, um projeto de criação de roupa e lenços de seda, estava muito ligada ao universo musical. Os meus modelos eram sempre músicos e inspirava-me em música», recorda Maria Soromenho.

Parecia inevitável que surgisse o desejo de criar sons, precisando apenas de uma pequena ignição. «Em 2016, morei em Los Angeles e a certa altura um amigo americano perguntou se queria cantar em português numa música dele. Fomos para o estúdio (Lollipop Records), criámos e gravámos a música. Houve uma mudança em mim nesse dia. Até aí tinha pensado que a minha ligação com a música já existia e era forte, mas não me tinha ocorrido que pudesse ter um projecto musical». Contra os pressupostos académicos, quase como prova de que a música será sempre mais da ordem do instinto, teve na literatura Punk um enorme aliado: «Ler muito acerca do movimento Punk foi importante porque me deu o impulso que precisava para começar quando nunca tinha tido qualquer tipo de educação musical formal e não sabia tocar nenhum instrumento. Realço figuras como Patti Smith e Kim Gordon. O trabalho interdisciplinar das duas fez-me perceber que também seria possível para mim enveredar por um caminho diferente».

Como ferramenta criativa surgiu outro aliado determinante. «Foi nesta altura que peguei no Casio que tinha comprado quando tinha 10 anos (o Casio que também o meu irmão utilizou para começar Vaiapraia, bastantes anos antes). Imprimi uma folha com os acordes e comecei a experimentar enquanto escrevia letras. O Casio em questão é o CTK 120. Quando comecei não tive dúvidas de que os meus instrumentos de eleição seriam os teclados e sintetizadores. Estava e ainda estou muito fascinada com o início e desenvolvimento da música electrónica, com o aparecimento do sintetizador e a revolução sonora que proporcionou. Na altura estava a ler o livro “Pink Noises: Women on Electronic Music and Sound” e a ouvir muito tudo o que veio do BBC Radiophonic Workshop, Krautrock e claro, Synth Pop».

No primeiro trabalho, o EP “Beer, Dog Shit & Chanel N°5” (edição de autor), colecção de cinco faixas produzida por Filipe Paes, estreou-se com um enredo aparentemente solarengo no qual picos de ansiedade, memórias turvas e afectos sobem ao palco sob um filtro retro. Sentem-se ecos do pesar melancólico de Nico e indícios de uma vontade pop experimental que assistiríamos com The Space Lady. Volvido um ano da sua estreia, Callaz editou “Gaslight”, uma produção a cargo de Primeira Dama e Chinaskee, onde tanto são aprofundados os devaneios e conclusões tirados a partir de experiências na primeira pessoa, como são poetizadas em canção figuras como Florbela Espanca ou Mary Landon Baker.

Na sequência desse trabalho, tocou pela primeira vez fora de Portugal, em Los Angeles. Era necessário dotar-se de mais soluções de equipamento. Mesmo sendo um synth para principiantes, o Casio CTK 120 criou raízes e provou a fiabilidade da marca, cuja reputação foi reforçada por uma influência musical. «No início de 2018, depois de lançar o primeiro EP Beer, Dog Shit & Chanel N5 tive o meu primeiro concerto e para tal decidi comprar um Casio que tivesse beats. Inspirada pela Space Lady comprei o Casiotone MT-45 (ela tem o Casio Casiotone MT-40 usado também em algumas músicas de uma das minhas bandas preferidas, The Magnetic Fields). Para distorcer e tornar o som mais interessante e personalizado arranjei um pedal de digital delay, desta forma consigo modificar e manipular o som que vem do Casio. Ainda utilizo este setup ao vivo embora cada vez mais traga grande parte do instrumental já gravado para o concerto; desta forma consigo focar-me mais na voz e no aspecto performativo».

Ainda durante esses primeiros passos surgiu uma unidade com maior reputação. «No período entre decidir que queria fazer música e começar Callaz, ainda em LA, comprei o Korg microKORG Sintetizador/Vocoder. Utilizo-o sempre nas minhas demos e nalgumas gravações das músicas finais. Penso que seja um ótimo synth para começar pela variedade sonora, facilidade de utilização e preço». Foi com esse setup e nos concertos de promoção ao EP que começou a desenvolver a matéria prima que se tornaria no seu primeiro disco, através de um processo de experimentação e explorando as canções ao vivo em vários sítios da Europa, nomeadamente Suécia, Islândia, Alemanha e Espanha. No momento de gravar esses dez temas que fundem pop electrónico e indie rock, sentiu o apelo de Lisboa, acolhendo a produção de Adriano Cintra. “Callaz” foi lançado em Fevereiro de 2020 e a apresentação seguiu para Nova Iorque, dando concertos em prestigiadas salas como The Bowery Electric e Rockwood Music Hall.

No início do Verão desse ano, Callaz debruçou-se sobre a possibilidade de colaborar com Helena Fagundes (Vaiapraia e As Rainhas do Baile, Clementine, The Dirty Coal Train, The Watchout Sprouts, Ex Naive), que conheceu através da banda do próprio irmão, Vaiapraia. Começaram por gravar uma música, “Atonal Heavy Metal Song”, como teste desta colaboração (Helena Fagundes nunca tinha produzido antes). Depois passaram para uma segunda música, “Aghast”.

Contente com o resultado, Callaz enviou em poucos dias mais 8 demos a Helena e com isso criaram o disco “Dead Flowers & Cat Piss”, que será editado dia 19 de Fevereiro de 2021. Um trabalho guiado pela filosofia DIY, com poucos recursos, em estúdios caseiros e feito por Callaz e Helena Fagundes sem qualquer outra intervenção. É sobre esse processo que nos fala Maria Soromenho, na primeira pessoa.

«A produção deste último disco, Dead Flowers & Cat Piss, ficou a cargo de Helena Fagundes que para além de um longo percurso como baterista trabalha também como produtora e pós-produtora de aúdio. O disco foi feito em casa e além do microKORG, utilizámos sons de synth em MIDI, muitas camadas de sintetizadores emulados no software Pro-Tools. Utilizámos algumas samples e as baterias foram feitas no software Hydrogen, num sample pad e na drum machine Korg Volta Beats. Em algumas músicas a Lena tocou baixo, guitarra e xilofone e depois trabalhou com efeitos na pós-produção».

Callaz pode não ter começado de forma muito convencional, seja lá o que siso signifique, mas Maria Sormenho depressa ganhou um velho hábito dos músicos: ter mais e mais gear. «Ainda não consegui investir em mais sintetizadores (mas gostava muito de o fazer mais tarde!) porque acabo por ter a oportunidade de experimentar alguns quando estou em estúdio com produtores. A minha canção Romy Schneider foi gravada no famoso Strongroom Studios em Londres com a produtora Grace Banks. Este espaço histórico está repleto de material analógico incrível. Para essa música utilizei o Minimoog e o Roland Juno-60. Acabo por utilizar muito o computador para fazer música e, gosto de o fazer mas, nada substitui a sensação de explorar os sintetizadores analógicos! Ou qualquer outro instrumento».

FENDER