A Parede Vermelha dos Queens Of The Stone Age em Lisboa

A Parede Vermelha dos Queens Of The Stone Age em Lisboa

Nero
Catarina Torres

A espectacular colecção de material que os Queens Of The Stone Age usaram para gravar o soberbo álbum “…Like Clockwork”, em 2013, e que trouxeram a Lisboa em 2014. Um dos mais sumptuosos palcos que já vimos.

Material para lá de vintage, guitarras únicas e com alcunhas, personalização de acabamentos e até algum secretismo. Os Queens Of The Stone Age ostentaram, no Rock In Rio’14, um dos palcos mais luxuosos que Portugal já viu. A banda liderada por Josh Homme andava em digressão a promover esse extraordinário álbum que é “…Like Clockwork”, editado em 2013. Na altura, a AS passou a pente fino tudo o que era possível identificar no esplendoroso backline do colectivo e aquilo que se sabia sobre o gear usado no disco.

Sem o imediatismo de “Rated R” ou “Songs for the Deaf”, o tempo tem vindo a afirmar “…Like Clockwork” como o melhor álbum dos QOTSA. É recorrente falar-se em maturidade em álbuns, e este é um paradigma do que significa o emprego desse termo. Troy Van Leeuwen fala em equilíbrio e em como a banda procurou por isso. A forma como peso, groove e excentricidade nos detalhes criativos estão congregados de uma ponta à outra do álbum é um exemplo de uma banda no topo das suas capacidades. 

Após os citados acima segundo e terceiro álbuns Josh Homme podia ter optado por cristalizar esse som, ao invés disso escolheu o caminho mais difícil: reformular. É certo que isso fez com que muitas playlists não fossem actualizadas e que “No One Knows” ou “Go With the Flow” se mantivessem durante 10 anos como o expoente máximo da discografia dos QOTSA (em muitos casos isso até poderá manter-se…). Mas no final, o percurso experimental da banda veio culminar no álbum com maior riqueza musical da banda e mostra composições que afirmam Josh Homme como um songwriter de créditos firmados, basta pensar em metade do álbum (“The Vampyre of Time and Memory”, “Kalopsia”, “Fairweather Friends”, “I Appear Missing” e “Like Clockwork”). Temas com letras fortes, cruzamento de harmonizações e melodias, solos de guitarra pertinentes… A capacidade de trabalhar dinâmicas, que tanto foi procurada em “Lullabies to Paralyze” e “Era Vulgaris”, surge agora plenificada e Homme é capaz de se revelar como, mais que apenas um frontman agressivo ou mordaz, um veículo capaz de chegar a mais estados emocionais.

O tamanhão de som que este disco tem e o espaço dinâmico que consegue mostrar é extraordinário. No fundo, o som enorme de bateria e aquele “estar à frente” das guitarras permanece inviolado, mas os sons de sintetização ou processamento de efeitos surge como um autêntico acréscimo às composições. E depois “Like Clockwork” é capaz de manter a ortodoxia de groove da banda (“Keep Your Eyes Peeled”, “My God Is the Sun”) e dotá-la de uma maior capacidade de excentricidade (“I Sat by the Ocean”, “If I Had a Tail”, “Smooth Sailing”).

Tudo isto foi transposto nessa digressão. Quando a banda passou no RiR’14, em Lisboa, pudemos ver de perto o gear dos QOTSA.

JOSH HOMME

O frontman dos QOTSA é avesso a falar de guitarras e gear. Nessa altura usava, principalmente, duas MotorAve semi-hollow, às quais chama “Ryder” (a vermelha) e “Camille” (a creme). Também recorre frequentemente a uma Echopark, a Custom Crow, que, infelizmente, não foi usada durante o período permitido para a captação de imagens. Esse modelo possui um Arcane UltraTron, como pickup de ponte, e um Gold Coil, como pickup de um braço que é um monstro com .980” no nut e 1.15” no 13º traste. A Custom Crow é esculpida a partir de uma peça de mahogany (mogno) hondurenho com cerca de 200 anos, que foi aproveitado de “desperdício” da biblioteca da cidade de Los Angeles. O corpo é “escavado” para permitir uma redução de peso e também assemelhar-se à ressonância das semi-hollow. A torná-la ainda mais única, a guitarra ostenta uma tailpiece raríssima, de uma Kay dos anos 50.

Os seus misteriosos amps vermelhos eram, nada mais nada menos, que um par de raríssimos Ampeg VT-40, interligados através de um distribuidor Little Labs, que fica “escondido” nas costas do rig. Nos pedais é possível distinguir modelos como um Morley Power Wah, um Dunlop Rotovibe ou um DigiTech Whammy 4. É sabido que, por mais que mude a sua pedalboard (e fá-lo com frequência), Homme não abdica do Fulltone Ultimate Octave e do fuzz “mafarriquenho” Fuzzrocious The Demon.

TROY VAN LEEUWEN

O guitarrista amplifica as suas guitarras principais – a sua Fender Jazzmaster de assinatura, uma Echopark T-style e a Jazzmaster Custom Shop de braço duplo – através de dois Vox AC30 (um combo e uma cabeça), sonorizados por colunas Marshall e Vox. O guitarrista possui também várias Les Paul, como a 1995 Classic Premium Plus, que se vê nas imagens, ou uma “Bullion Gold”, de 1991, que era a guitarra que Homme usava como backup nos tempos dos Kyuss. É também possível distinguir a Moog Lap Steel. Como efeitos usa uma pedalboard e ainda uma rack, como apoio. Na pedalboard sabemos, até por entrevista que nos deu (se estiverem interessados em obter essa revista, mandem mail) que usa pedais como o Voodoo Lab Ground Control Pro MIDI, um switch tap-tempo da Custom Audio Electronics que controla o Axe-Fx II, usado principalmente para reverbs e delays, um wah-wah Morley e os stomps Way Huge Supa-Puss e Pork Loin. Na rack surgem o Way Huge Green Rhino, um EarthQuaker Devices Dispatch Master, um Fuzzrocious Demon e um MXR Q Zone, entre outros stomps.

A TROY VAN LEEUWEN JAZZMASTER CUSTOM SHOP DOUBLE-NECK

MICHAEL SHUMAN

O baixista alterna “apenas” entre dois Fender American Vintage, um Jazz e um Precision. Cada um dos modelos possui os pickups com fiagem de acordo com as especificações standard nos anos 60. A amplificação é Fender também, um par de colossais Super Bassman, através de duas 8×10. Por vezes o baixista opta por fazer “sair” um através de uma coluna 1×15 e o outro através de uma 8×10. Na pedalboard o músico, que também já se “confessou” à AS, usa um selector de amp, o Palmer Triage, uma DI Radial Engineering, a JDI, três stomps Way Huge (Angry Troll, Swollen Pickle e Supa-Puss). Por footswitch activa uma unidade Moog e possui ainda um Dunlop Volume.  A simplicidade faz o coice!

JOHN THEODORE

O baterista confessa que gosta de ter, exactamente, o mesmo setup em cada concerto, embora admita que volta e meia assiste a algum vídeo de Bonham e toca a experimentar mexer nas coisas, o que, segundo o próprio, pode ser um buraco negro… É adepto de usar suportes leves, para permitir maior ressonância aos pratos e para que o próprio kit se “mova” como uma só peça, em vez de várias peças. Todo o hardware que o músico usa actualmente é DW, especificamente os Rail Mount. O seu kit é um Jazz Series, com o acabamento White Glass. O set é composto por um timbalão 14×10, dois timbalões de chão, um 16×16 e um 18×16, o bombo 24×14 e a tarola DW Aluminum de 14×5.5. Mas no concerto usou DW Collector’s Series com as medidas 22″x18″ – 13″x11″ – 16″x16″ e 18″x16″. O hardware era DW, mas não tinha Rail Mount, usou mistura de 9000 Series e 5000 Series. As tarolas que ele usou: uma Ludwig Black Beauty 14″x6,5″ e uma Yamaha Copper 14″x6,5″. Mudou de tarola quando rebentou a pele… Nos pratos usou Zildjian – não é possível identificar os modelos, mas Theodore alterna entre série K ou A e até Avedis.

DEAN FERTITA

O homem dos sete instrumentos dos QOTSA. É complicado identificar os inúmeros teclados que o músico usa, e se não é possível confirmar se usou o Fender Rhodes (e outros pianos eléctricos), que costuma ter em palco desde que toca com os Dead Weather, é possível verificar uma das suas peças fetiche, o Moog Little Phatty (parece a versão 2) em cima do M4000D Digital Mellotron. Nas suas costas identifica-se o Novation Impulse, utilizado como controlador para os samples. Nas guitarras, Dean recorre também às Echopark, em foto, pode ver-se o modelo Arroyo, a uma Gibson SG e à Burns Double Six, o anterior modelo de 12 cordas de Van Leeuwen. Na amplificação, um único e imponente Magnatone, pelas dimensões parece o Single V, o Twilighter é mais pequeno. O Single V é um amp de boutique baseado num Tweed Pro ’56, são 30 watts a explodir através de duas 6L6 na secção de power, debitados por duas 12”. O grande trunfo deste amp é o vibrato, o Magnatone Vibrator, baseado no vintage 280 – o modelo dos anos 50 que Buddy Holly usava.