Seattle, Eterno Retorno

Seattle, Eterno Retorno

Ricardo Rego

Ir a Seattle foi o cumprir de um sonho da adolescência. Foi o assumir que o passado já lá vai e a certeza porém de que não foi apenas a nostalgia que ficou, mas também de que tivemos o privilégio de viver a última grande revolução musical e cultural.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi Nirvana. Foi em 1992, quando um amigo de Espinho me emprestou o seu walkman e disse: «Ouve isto». Era a descarga eléctrica de “Smells Like Teen Spirit”. Nunca tinha ouvido tal coisa. Devo feito uns 15 loops à introdução da música, antes de a ouvir até ao fim pela primeira vez. Era como se estivesse a descobrir um mundo novo. Dois anos depois, em Abril de 1994, estar a ver o telejornal da meia-noite na TVI e o repórter dá uma notícia de última hora: Kurt Cobain tinha dado um tiro na cabeça, na sua casa em Seattle. Coisa estranha e difícil de entender hoje, mais estranha e difícil de entender para um puto de 12 anos de idade.

Também me lembro de, mais tarde nesse ano, ter ido à antiga Roma Megastore, ali ao lado do mercado do Bolhão, e ter comprado, por 1900 escudos (9,5 euros), um disco de uma banda que vinha da mesma terra dos Nirvana: “Vitalogy”, dos Pearl Jam. Estes momentos, possivelmente conciliados com a quantidade e qualidade da música que foi feita naquela altura, fizeram com que tivesse encontrado a minha grande paixão, que prevalece ainda hoje: a música.

No caso concreto de quem viveu os anos 90, é impossível falar de música e sem falar de Seattle. O que se passou aí, principalmente, na primeira metade dessa década e no final da anterior foi algo único. Nunca tinha acontecido, nem voltou a acontecer, surgirem na mesma cidade tantas bandas, com tanto carisma, a atingir o pico na mesma altura. Goste-se ou não, é inquestionável a importância histórica, no panorama da música popular, de bandas como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains, entre outras. Eu gostava e ainda gosto. E sempre tive uma grande curiosidade em ir até lá, ver os lugares percorridos por esses músicos e sentir a energia da cidade. A oportunidade finalmente surgiu e a 10 de Agosto embarquei do Porto em direcção a Seattle.

PEARL JAM

Na chegada ao aeroporto, ao lado de dois banners gigantes a anunciar os concertos de Pearl Jam em Safeco Field, estava à minha espera o meu amigo Jean, brasileiro que agora vive em Vancouver, no Canadá. Entre cumprimentos e tentativas atabalhoadas de colocar a conversa em dia, ao fim de tantos anos sem nos vermos, ao olhar em redor, veio-me logo à cabeça a história que Duff McKagan conta sobre a viagem que fez de Los Angeles para Seattle ao lado de Kurt Cobain, dias depois deste ter fugido da clínica Exodus e antes de se suicidar. E apenas duas horas depois de ter aterrado em Seattle, já nos arredores do Safeco Field, aí estava ela a ecoar na rua: a “Smells Like Teen Spirit” a sair das colunas de um dobule-decker do outro lado do restaurante onde estava. Um dos riffs mais reconhecíveis da história do rock e uma das melhores introduções de bateria que conheço. A música que me tinha marcado há tantos anos atrás foi a primeira que ouvi em Seattle. Estava lançado o mote para a viagem.

Após o aquecimento com uma ou duas cervejas, lá fomos para Safeco Field, estádio da equipa de baseball Seattle Mariners, para ver os Pearl Jam a jogar em casa. Mais de 50.000 pessoas, bom ambiente e três horas e meia de um concerto cheio de surpresas. Começaram com a “Oceans”, uma autêntica viagem no tempo, e foram percorrendo o catálogo absurdamente rico que têm. À 12ª música, a primeira homenagem da noite e a um filho de Seattle: uma cover emocionada a “Missing”, de “Poncier”, o EP de 1992 do Chris Cornell. O primeiro encore começou com Eddie Vedder, a solo, a relembrar que a última vez que tinha visto Tom Petty tinha sido precisamente naquele estádio e partiu para uma versão de “I Won’t Back Down”, com o estádio iluminado por milhares de lanternas dos smartphones. Esta é a única verdadeira utilidade de um smartphone num concerto. Tudo o resto, faz-me alguma confusão. É isso, pessoas de mochilas, pessoas que andam permanentemente à procura dos amigos e pessoas que decidem meter a converseta em dia no meio de um concerto.

Concerto esse que, se até aqui estava bom, a partir daqui tornou-se inesquecível! Seattle em pano de fundo e à minha frente os Pearl Jam a tocarem “Crown of Thorns”, dos Mother Love Bone, afinal de contas tudo começou com o Andrew Wood, e “Kick Out the Jams”, dos MC5, com Kim Thayill, o grande guitarrista dos Soundgarden. Thayill que voltou no segundo encore, desta feita acompanhado por Steve Turner e Mark Arm dos Mudhoney, para tocarem “Search and Destroy”, do Iggy Pop, e “Sonic Reducer”, dos Dead Boys.

Terminado o concerto, momento então de rumar em direcção ao hotel com paragem no Dick’s Drive-In, a versão de Seattle do McDonald’s, fundado em 1954 e, aparentemente, sem nenhuma intervenção estética desde então, o que até lhe dá um ar bastante hardcore.

SEATTLE E A SUB-POP

O segundo dia começou bastante cedo. As nove horas de diferença do fuso horário fazem com que dormir até depois das seis da manhã fique difícil. Em todo o caso, não foi para dormir que fui a Seatlle… “Sleepless in Seattle”, alguém?

Seattle, sendo a cidade musical que é, tem muitas salas de concertos referência. Fruto da gentrificação da cidade, algumas já desapareceram, outras estão em vias de desaparecer como, por exemplo, o Showbox e outras, porém, têm resistido, como o Moore Theater, o Paramount, o Crocodile e o Benaroya Hall. Quis o destino que no segundo Sábado de cada mês se realizem visitas guiadas gratuitas ao Moore Theatre, o que, considerando o tema da viagem, foi bastante conveniente.

Afinal, vídeo de “Even Flow” foi gravado lá, bem como o VHS (geração Z, vão ao google) “Alice in Chains Live Facelift” e o LP “Mad Seasons’ Live at The Moore”. Foi muito interessante estar dentro daquela sala e imaginar todos os momentos que ali se viveram desde a sua construção em 1907, das actuações do Houdini, ao famoso stage dive do Eddie Vedder.

Não menos interessante foi saber que naquele dia ia haver duas actuações, completamente esgotadas, de… Dois YouTubers! Não sei se quero partilhar aqui a minha opinião sobre esta evolução Houdini – Pearl Jam – Youtubers, não vá sentir-me ainda mais velho/menos fixe do que sinto. Ainda assim, digo-vos que os dois YouTubers levaram três camiões, sim camiões!, de material: uns adereços de palco, uns microfones e uma quantidade absurda de merchandising. Rodriguez, que lá fui ver no dia seguinte, levou uma carrinha com a família, uma guitarra, uma cadeira, um amplificador, duas chávenas e dois chapéus. Tirem as vossas próprias conclusões.

 

Segunda paragem do dia: a moradia que vi pela primeira vez na tal notícia de última hora da TVI, em 1994, sobre o Kurt Cobain. É uma sensação muito estranha quando se está em frente ao número 171 de Lake Washington Boulevard e imaginar tudo o que ali se passou. A arrecadação por cima da garagem onde o Kurt se suicidou já não existe, mas existe a garagem e ainda lá estão, à esquerda, as escadas que davam para a tal arrecadação. É estranho imaginar o famigerado músico passar ali, com uma espingarda, uma folha de papel, uma caneta na outra e outra parafernália nas mãos. Em torno da casa, que continua habitada, uma série de trilhos marcados por fãs e curiosos no meio da vegetação. Ao lado da casa, o parque de Viretta, com os famosos bancos onde as pessoas deixam cigarros, palhetas, flores, cervejas, poemas e outras recordações.

Apesar da reputação de Seattle, de ser uma cidade onde o céu está sempre cinzento e onde chove muito, a verdade é que apanhei sol e bom tempo durante toda a viagem, excepção feita, curiosamente, a dois momentos da viagem: a visita a esta moradia e a visita a Aberdeen, já lá vamos. No regresso ao centro de Seattle, pausa para almoçar na Linda’s Tavern, bar/restaurante localizado em Capitol Hill (707 E Pine St) que era, aparentemente, um dos lugares preferidos de Kurt Cobain na cidade e foi um dos últimos lugares onde o músico foi visto com vida.

 

Um dos factos curiosos desta viagem de 4 dias a Seattle é que, inicialmente, só lá ia para ver Pearl Jam, mas quis o destino que houvesse programação musical todos os dias, ao ponto de, inclusive, ter de fazer opções. Aproveitando o fim da chuva e uma aberta nas nuvens, dirigimo-nos à praia de Alki para assistir à celebração dos 30 anos da Sub Pop. Neste festival, também de entrada livre, deu para ver o orgulho que a cidade tem na Sub Pop e o quão unida a comunidade local é. Esta união em torno da música sempre foi algo que admirei em Seattle. Foi lá que vi um dos destaques da viagem, o concerto de Mudhoney. Foi uma amostra do que deve ter sido o caos e energia dos concertos naquela cidade no final dos 80, início dos 90. Em palco, além da banda, estava o fotógrafo Charles Peterson, provavelmente o não-músico mais importante de toda a cena de Seattle, e a ver o concerto à minha esquerda o Bruce Pavitt (fundador da editora). Outro concerto digno de destaque, não pela nostalgia do passado, mas pela esperança no futuro, foi o de Father John Misty.

ABERDEEN, OLYMPIA E RENTON

No terceiro dia de viagem, o meu amigo Jean voltou para junto da família. Peguei num carro e fiz-me à estrada em direcção a Aberdeen. À entrada da cidade, o famoso letreiro “Come As You Are”. Aberdeen é um dos lugares emocionalmente mais desconfortáveis onde estive. Claro que esta sensação está fortemente ligada ao contexto da minha ida lá e a tudo o que já li e vi sobre a cidade. Mas, independentemente disso, a verdade é que é uma cidade norte-americana pobre, rude, cinzenta, húmida e com uma energia muito estranha.

O meu primeiro ponto de paragem foi uma loja de memorabilia de Star Wars e de Kurt Cobain. Depois segui em direcção à casa da infância do Kurt (1210 E 1st St, Aberdeen), recentemente comprada e renovada, e fui até ao fundo da rua onde fica a Young Street Bridge, referenciada na canção “Something In the Way”. É aí que ficam o Kurt Cobain Landing e o Kurt Cobain Under the Bridge Memorial. Ambos os lugares são bastante frios e parecem ser uma tentativa desesperada da cidade de Aberdeen querer ser relevante através de uma pessoa que não parecia querer recordar a sua existência…

Fiz-me à estrada em direcção a Olympia, onde os Nirvana viveram antes de se mudarem para Seattle. Olympia fica a apenas uma hora de caminho de Aberdeen e, no entanto, já parece um mundo diferente. É uma cidade mais autêntica, colorida e limpa. Uma cidade mais feliz. É também um ponto de encontro de músicos e artistas. Não é uma cidade grande, por isso dei umas voltas por lá, parei para almoçar no restaurante King Solomon’s Reef, famoso pelo seu macarrão com queijo e um dos lugares mais frequentados pelo Kurt, passei pelo número 114 Pear Street NE, onde o Kurt viveu e se inspirou num graffiti escrito na parede por Kathleen Hanna, das Bikini Kill, para escrever a “Smells Like Teen Spirit”, e voltei para Seattle.

 

A caminho de Seattle ainda passei em Renton, local do memorial do, quiçá, mais determinante guitarrista de sempre e primeiro cidadão do estado de Washington a entrar para o famoso clube dos 27: Jimi Hendrix.

À noite, e já de regresso à metrópole, concerto de Rodriguez no Moore Theater, com Vera Sola na primeira parte. Rodriguez, aos 76 anos, já não tem a agilidade que tinha, mas tem um legado que vale por si. No final da música “Sugar Man” fez questão de referir: «This is a description song, not a prescritpion song. Get your hugs, say no to drugs. Be smart, don’t start». Esta dedicatória faz todo o sentido, em especial numa cidade que perdeu tanta gente com tanto talento para a droga e que aparenta estar a passar por um novo surto de consumo.

SEATTLE

Sempre gostei dos filmes do Cameron Crowe. Pensando bem, é muito provável que o personagem William Miller, do filme “Almost Famous”, esteja de certa forma relacionado com o facto de ter escrito esta crónica. O primeiro filme que vi dele foi o “Singles”, um filme que teve o grande mérito de registar o que estava a acontecer musicalmente na cidade, meses antes das bandas de lá tomarem o mundo de assalto. Aliás, este é um caso raro onde houve provavelmente mais pessoas a ouvirem a banda-sonora do que a verem o filme. Posto isto, não podia estar em Seattle sem visitar o condomínio que serviu de residência para os personagens de Matt Dillon, Bridget Fonda e Kyra Sedgwick no filme (1820 E Thomas Street).

De lá até ao Volunteer Park são apenas 20 minutos a pé. Oportunidade ideal para visitar a escultura Black Sun, que aparentemente inspirou Chris Cornell a compor a canção “Black Hole Sun”, e passar a prestar a minha homenagem a Bruce e Brandon Lee. Não deixou de ser curioso estar a ver a campa do Brandon Lee, que faleceu no set do filme “The Crow”, em 1993, olhar para o céu e ver vários corvos a passar.

Seguiu-se mais uma hora e meia de caminhada até chegar ao prédio que fica em 4528 8th Avenue NE. Foi no 5º piso desse edifício que encontraram o corpo do Layne Staley. Estima-se que padeceu de uma overdose a 5 de abril de 2002, precisamente 8 anos depois de Kurt Cobain se ter suicidado.

 

Regresso ao centro de Seattle para visitar três exposições que estavam no MoPop, Museum of Pop Culture: “Nirvana – Taking punk to the masses”; “Pearl Jam – Home and away”; “Hendrix – Wild blue angel”. Foi a primeira vez que estive num museu e li integralmente todas as legendas e descrições. Estava lá exposta muita coisa de valor, páginas dos diários de Kurt Cobain, os cadernos de Eddie Vedder e algumas guitarras bem importantes como, por exemplo, a Fender ’68 Stratocaster Olympic White que Jimmy Hendrix usou no Woodstock, a guitarra acústica que o Pat Smear usou no MTV Unplugged, a Fender ’69 Mustang Competition do vídeo de “Smells Like Teen Spirit” e o que sobrou da Fender Stratocaster utilizada e escavacada por Kurt Cobain para gravar a “Endless Nameless”, em “Nevermind”. Havia também uma exposição interactiva no museu que consistia de várias salas de ensaios onde qualquer pessoa era convidada a entrar e tocar. Fazer uma jam em Seattle… Check!

De regresso ao centro da cidade, pausa para tomar um cocktail no hotel Edgewater. O Edgewater tornou-se famoso inicialmente quando os Beatles ali ficaram em 1964. A partir daí sempre foi paragem obrigatória para muitas bandas. Há, inclusive, uma história infame que lá se passou com os Led Zeppelin. Como é provável que a minha mãe vá ler esta crónica, não vou entrar em grandes detalhes. Quem estiver curioso que vá ao Google e escreva: led zeppelin edgewater inn fish story.

Para terminar a viagem em beleza, tempo para um último concerto. Jack White, com Olivia Jean na primeira parte. O concerto foi muito similar ao que Jack White tinha dado semanas antes no Alive. No entanto, é sempre um prazer vê-lo ao vivo, a ele e a uma das minhas bateristas favoritas actualmente, a Carla Azar. A cereja no topo do bolo, foi quando Jack White decidiu tocar a “Daughter” dos Pearl Jam, em jeito de retribuição pelo facto de estes terem feito uma cover da música “We’re Going To Be Friends” uns dias antes.

“REARVIEWMIRROR”

Confesso que mal aterrei em Seattle me perguntei se iria valer a pena o investimento de tempo, dinheiro e energia que fiz para esta viagem. A verdade é que sinto que vivemos num mundo desprovido de conteúdo e de sentido. Vivemos num mundo onde as coisas são feitas para a satisfação imediata, em que não há paciência, nem tempo para absorver e amadurecer ideias e é fácil esquecer que nem sempre as coisas foram assim. Considero-me sortudo por ter vivido nos anos 90, num pico da indústria musical, no pré Britney Spears, pré Internet e pré Napster, e que esta foi possivelmente a última época relevante do ponto de vista musical no mainstream. Apesar de tudo, ainda havia algum foco no talento, no sentimento, no respeito do processo criativo, na autenticidade e na intensidade da música. Havia, também, tempo para o público se familiarizar com a música e deixá-la crescer. Os meios existiam para financiar a criatividade e a irreverência. E havia filtros!

Se calhar a minha afinidade com a Seattle surgiu precisamente do facto de ter “nascido para a música” na mesma altura em que as bandas dessa cidade começaram a aparecer, amplificado por toda a carga emocional de uma cena musical tão apelativa, energética, intensa e, por vezes, sombria. Independentemente do que me motivou, foi um tremendo prazer lá ter ido. Foi mais uma viagem que ficou feita, mais uma história para contar às minhas filhas e mais um risco na minha bucket list.