#SupportYourLocalRecordStore | Melvins, “Houdini” [Bunker Store]

#SupportYourLocalRecordStore | Melvins, “Houdini” [Bunker Store]

Nero

Para lutar contra o confinamento e contra a pressão sobre as pequenas lojas de discos, propomos o desconfinamento mental com alguns álbuns extraordinários. Caso de “Houdini” dos Melvins, comprado na Bunker Store, no Porto.

O mundo está actualmente a lutar contra a pandemia do Coronavírus COVID-19. Uma vez mais estamos sob medidas severas de comportamentos individuais e sob um novo confinamento, os concertos e festivais mais próximos foram cancelados/adiados e os espaços nocturnos estão novamente fechados ou com lotação muito limitada. Ainda é muito cedo para determinar o fim desta situação, mas toda a indústria musical tem sofrido com um tempo de “suspensão” tão prolongado. Os mais atingidos serão, inevitavelmente, os artistas e agentes de menor dimensão, como as lojas de discos locais.

É por isso que publicamos esta rúbrica, evocando discos que comprámos em lojas de discos “à moda antiga”. Vale a pena recordar que podem e devem continuar a comprar discos, essa é uma das cinco medidas normais para ajudar bandas e pequenos comerciantes. Se quiserem esclarecer todas as vossas dúvidas no que respeita a encomendas, pode ler o artigo no qual a AS contactou a Dra. Nádia Gonçalves Ferreira, médica, que nos deixa recomendações sobre como proceder com as encomendas que nos chegam.

O primeiro disco que evocamos é “Houdini”, dos extraordinários Melvins. Estávamos no final de 2019, poucas semanas antes deste tremendo choque com a catástrofe sanitária, e a AS foi até ao Porto, para participar nesse vibrante evento que foi o Oporto Soundshock (podem ler toda a nossa reportagem exclusiva, com entrevistas e testes a gear, na mais recente edição impressa). Uma das bancas presentes no evento era a da Bunker Store, onde encontrámos esse barbudo, jóia de pessoa, que é o Manuel Fernandes. Altura para um aperto de mãos, um ou dois finos e passar a pente fino os discos que levou consigo. A busca resultou na compra de um par de discos, entre os quais este disco essencial de King Buzzo & Co…

Alguns leitores poderão discordar desta escolha e argumentar com o “Gluey Porch Treatments” ou “Bullhead”, como a quintessência dos Melvins e até os mais influentes para o exterior. Contudo, “Houdini” parece-nos ser o grande triunfo da banda. Isto por dois motivos: combina um teor mais comercial com o sentido “sabbathiano” dos álbuns mais pesados e também o ambiente de garagem dos primeiros trabalhos – isso reflecte-se não só no som, mas também no formato, e “Houdini” tem descargas de 3 ou 4 minutos, mas também rolos compressores de 7 minutos e 10.

A intensidade dos temas mais curtos, foi evocativa para esta coluna, pois surge como arquitectura admirada pelos Nirvana e, de resto, Kurt Cobain foi um dos padrinhos da entrada da banda no catálogo da Atlantic. Era para ser o produtor, mas como o trabalho não avançava essa função foi assumida por Billy Anderson. Cobain acabou por ficar creditado como co-produtor, um tag que convinha à label. O que é uma marca, muitas vezes, do comportamento execrável destas editoras é o facto de, após este e mais dois álbuns a todos os títulos brilhantes, a Atlantic ter descartado a banda.

Quanto ao álbum em si, o facto de ter sido a primeira experiência de King Buzzo e dos seus pares numa editora mainstream não retirou um milímetro de carácter ao som dos Melvins. Poderoso, carregado de groove, sujo e experimental. Com uma coisa que sempre distinguiu os riffs da banda com a simples reprodução da discografia de Black Sabbath – um sentido muito mais mordaz no humor. Curiosa a cover de outro nome que a banda sempre assumiu no seu universo de influências – “Going Blind”, balada dos Kiss.

É preciso lembrar que os Melvins não são um fruto da sede dos tubarões do mercado em conseguir novos porta-estandartes de tendências, mas uma banda que, tendo surgido em 1983, lançou este álbum já com 10 anos de carreira e 5 álbuns editados. Quando se fala em Seattle e cenas musicais, seria importante ouvir o trabalho desta banda e perceber como foi pivotal no underground de onde brotaram alguns dos maiores nomes do rock nos anos 90. Aliás, Dale Crover formou os Fecal Matter com Kurt Cobain em ’85 e já em ’88 gravaria demo com os Nirvana, da qual nove dos dez temas seriam editados oficialmente nos álbuns “Bleach”, “Incesticide” e na colectânea de raridades “With The Lights Out”.

Influente como todos os trabalhos da banda, com riffs de pedrada colossal, experimental sem nunca colocar em causa o balanço e o sentido de produção para o ouvinte. “Houdini” é uma pérola submersa por interesses comerciais. A banda, alheia a trends e interesses, prossegue ainda hoje uma cruzada de autenticidade rara na actualidade. O grunge morreu, os Melvins vivem!

«A BUNKER Store fica na loja nº 12, no Centro Comercial Invictos, na Rua Passos Manuel (entre o Coliseu do Porto e a Praça dos Poveiros). Aí todos melómanos devotos aos suportes analógicos (vinil e cassete) encontram desde raridades até às bandas mais recentes do underground mundial, dentro de um espectro bastante alargado, mas com um enfoque muito especial no Hard n’ Heavy, AOR, Hard FM, Speed, Thrash, Power, Doom, Black, Death Metal… Para além da música, há também à venda uma seleção de artigos promocionais das mais variadas bandas nacionais e estrangeiras», in Facebook.