The Black Angels, Canções de Luto

The Black Angels, Canções de Luto

Nero

Alex Maas, vocalista dos Black Angels, reflecte sobre a envolvência sócio-política que catalisou “Death Song”, o quinto e mais pesado álbum dos texanos.

A banda composta por Alex Maas, Christian Bland, Kyle Hunt, Stephanie Bailey e Jake Garcia, ganhou o respeito da crítica e dos fãs, não só pela arrebatadora discografia de estúdio, como pelas fortes actuações ao vivo. Depois de um processo de troca de editora, a banda deixou a Blue Horizon e assinou com a Partisan Records,  foi lançado em 2017, “Death Song”. Para muitos, este quinto disco de estúdio é um dos melhores de sempre da carreira da banda. O mais pesado, com mais intensidade nos riffs de guitarra, é certamente, dizemos nós.

Produzido por Phil Ek (Father John Misty, Fleet Foxes, The Shins), “Death Song” é considerado o mais político disco do grupo, onde as letras fazem alusão todo o tipo de questões atemporais misturadas com o som neo-psicadélico, género que faz jus ao nome da banda que assumiu originalmente da música “The Black Angel’s Death Song”, dos The Velvet Underground. Uma influência, tal como Neil Young e a música dos povos nativos da América do Norte.

Alex Maas diz que não considera “Death Song” psicadélico, mas sim um álbum de rock ‘n’ roll. O músico falou com a AS sobre o impacto que, na altura, as presidenciais norte-americanas e a actual administração Trump tiveram no álbum e explicou a vibrante metáfora que inspirou o título, “Death Song”.

Entre “Indigo Meadow” e “Death Song” há um longo intervalo. Houve algum motivo particular?
Estamos no estúdio todos os dias. Na verdade, pelo meio até editámos o EP “Clear Lake Forest”, em 2014, mas andámos a compor um monte de músicas para filmes e documentários. Temos estado a fazer muita música. Mas o intervalo deu-se porque não tínhamos editora. O nosso contrato anterior tinha acabado e estávamos à procura de uma casa para a banda.

“Death Song” reflecte sobre as últimas presidenciais norte-americanas. Não é o tipo de coisa que se espera de uma banda psych rock. Foi um reflexo dessa época atípica?
Também não sabia o que esperar [risos]. Acho que a nossa banda sempre quis dizer algo importante com a música que faz. E se temos uma plataforma para falar, mais vale ser algo substancial. Estamos apenas a tocar música e a aproveitar a nossa visão de como vemos o mundo no momento. É como se fosse uma fotografia de como vemos o mundo. Essas coisas acabaram por coincidir na altura que fizemos o álbum.

[Donald Trump] é uma pessoa tóxica, tão tóxica como a comida que o povo americano mete para dentro do corpo. É uma loucura. É muito assustador.

Na Europa falou-se muito sobre o processo eleitoral (ainda se fala), mas pouco se ouviu sobre o que os eleitores tinham a dizer sobre o assunto…
O país como que se dividiu com este presidente atual. É como que uma anedota. Ainda penso que vou acordar um dia e isto foi uma anedota. Como se estivesse a sonhar este tempo todo. Mas depois começas a fazer mais pesquisa e a estudar todas as razões e o porquê de as pessoas o terem eleito e fica bem mais claro… As pessoas queriam algum tipo de mudança. Acho que ele é um líder perigoso e acho que ele não pensa, ou então não pensa antes de falar. É uma pessoa tóxica, tão tóxica como a comida que o povo americano mete para dentro do corpo. É uma loucura. É muito assustador.

Foram esses sentimentos que tornaram “Death Song” um álbum tão pesado?
Há algum tipo de correlação nas nossas letras com a insana atmosfera política actual, isso é óbvio. Estamos muito desapontados e indignados com o que aconteceu, estamos descrentes e chocados. Parece que estamos a viver numa outra realidade estranha em que isto aconteceu. E isso é a parte assustadora. Mais uma vez, a nossa música é uma fotografia do que está a acontecer no mundo, é assim que a vejo. O álbum reflecte isso, na realidade. É uma altura muito assustadora para se viver. Quem sabe o que guarda o futuro, há tanto ambiguidade e o desconhecido é… Quando começas a pensar no desconhecido e no futuro, não só na América, mas no resto do mundo, é um lugar assustador!

O vosso nome, junto ao título do álbum, forma uma óbvia referência aos Velvet Underground, mas também se sente muito a estética de Neil Young, em “Comanche Moon”, por exemplo. Ainda se baseiam em referências quando estão a compor ou chegaram a um ponto onde a vossa própria música está a tornar-se na vossa influência?
Enquanto artista, queres sempre tornar-te em algo que sejas tu, único. Acho que no álbum há óbvias referências, essa é uma das possíveis interpretações. A outra perspectiva é a de que sempre fomos fascinados com a cultura e com a música dos povos nativos norte-americanos. E esses povos eram encorajados a escrever algo chamado death songs, que entoavam para os ajudar a ultrapassar tempos perigosos ou assustadores. Se, de repente, tudo ficasse mal eles começariam a cantar estes cantos, para os ajudar a sobreviver. É algo que se aplica muito a nós, estamos muito dentro da música nativa americana e em como a música era importante para contar histórias no passado, histórias que passavam de pessoa para pessoa. E depois de geração em geração. Essa é outra abordagem que vejo no álbum, a de que estas são histórias onde as pessoas podem aprender alguma coisa ou extrair algo para serem melhores, mudarem o modo como vêm o mundo ou até sentirem-se encorajadas em relação à sua importância. Era isto que as death songs significavam para os nativos norte-americanos.

Como construíram a sonoridade deste álbum?
Estamos sempre a tentar encontrar sons interessantes para os pedais, para o baixo e novos órgãos. Novos brinquedos! Testamos e brincamos com muitas coisas no estúdio e, basicamente, fazemos pesquisa. Pesquisamos música clássica, música dos anos 50, dos anos 60, de pessoas que já cá estavam antes de nós. E tentamos perceber: «Ok, que som é aquele? Aquilo soa muita bem». E retiramos referências dali, retiramos ideias. Descobrimos quais os instrumentos que estão a usar e tentamos recriá-los sonicamente, mas de maneira diferente. É apenas pesquisa. É como tudo o resto, pesquisamos o que metemos nos nossos corpos, também pesquisamos o que metemos na nossa arte.

Quando vieram ao Reverence Valada [2014], em entrevista, o Christian Bland confessou-nos que, na altura, um Fender Blackface de 65′ e um Twin, era essencial no seu som. Houve alguma unidade com tal preponderância desta vez?
Há imensos, nem consigo mencionar todos. Carregámos, literalmente, um camião com todo o nosso gear e levamos tudo para Seattle [Avast! Studios], até as flautas e assim. Um monte de gear, mesmo! Existem mesmo muitas coisas diferentes no álbum e não há nenhuma unidade em particular destaque, a não ser um ou outro Mellotron. Mas usamos sempre esse Twin ’65. Não há nada que se lhe compare, tem um grande som.

Há muitas variáveis diferentes que oferecem infinitas possibilidades para um som específico. A música é isso mesmo!

É um clássico incontornável…
Sim, é incontornável. Mas acho que não tem a ver com o gear… Quero dizer, tem a ver com o gear, mas muitas das vezes tem mais a ver como tocamos o instrumento e não sobre o que ele é. Dito isto, nós podemos ser bastante minuciosos e pesquisamos e tentamos descobrir o que as outras bandas utilizam. Abordamos cada conteúdo e cada parte de uma música de forma diferente. Para algumas músicas utilizámos uns 20 pedais até encontrar o ideal. Metíamos todos em linha e depois de encontrar o pedal ideal, íamos mudar de guitarras. E depois disso começas a questionar-te sobre qual será o amplificador certo. Todas as coisas, grandes ou pequenas, que adicionas ou subtrais a essa equação fazem diferença. Há possibilidades infinitas de sons que podem resultar disso, o que é muito interessante. E se quisermos ir ainda mais fundo, ainda existe o modo de como as notas são tocadas, os riffs. Por isso, há muitas variáveis diferentes que oferecem infinitas possibilidades para um som especifico. A música é isso mesmo!

Como foi a vossa dinâmica com o Phil Ek, que produziu e misturou o álbum?
Há uma linha bem definida do equilíbrio entre defender aquilo em que acreditas no estúdio e entre perceber que estás a pagar a um produtor, que tem muito mais experiência que tu, para dar o seu contributo no álbum. Acho que, provavelmente, todas as bandas vão para um estúdio com um pensamento um pouco fechado e depois, eventualmente, assim se espera, abrem rapidamente a mente. Caso contrário, porque é que quiseram trabalhar com “este” ou “aquele” produtor. Somos descontraídos, mas também somos teimosos às vezes. Não há problema em ser um pouco teimoso, desde que também experimentes as ideias dos outros. É esse o objectivo de estar numa banda, ouvir e comunicar com os outros, tal como experimentar as suas ideias. É isso que faz grandes álbuns.