Tinariwen, guitarras que soam a vento e areia

Tinariwen, guitarras que soam a vento e areia

Nero

O que é a essência dum princípio? Estará situada geograficamente? Em princípios sonoros? Muitos sentir-se-ão tentados a dizer que sim, contudo os Tinariwen provam ambas a presunções erradas. O Sahara não é o Mississippi, nem os excêntricos elementos vocais ou de percussão de profunda raiz norte-africana ecoam o ritmo da lavoura nos campos de algodão da América esclavagista.

Os Tinariwen foram-se tornando, principalmente após o álbum “Amassakoul”, um dos mais interessantes projectos do blues contemporâneo. Muito através da guitarra do mentor Ibrahim Ag Alhabib, que será um estandarte dessa essência do blues, a alma e a guitarra, e como a guitarra evoca a dor da alma perante a dureza que a confronta, vivem as histórias dos desertos que os Tinariwen contam. O guitarrista terá visto a execução do seu pai (um rebelde Touareg) durante uma revolta no Mali. A vingança não foi pegar em armas, mas ouvir Hendrix, Elvis e Led Zeppelin. Os jovens que tocavam esses clássicos misturados com o som do seu povo nómada puderam gravar as suas canções no estúdio nómada montado por Alhabib e outros e dessas sessões nasceram os Tinariwen, em campos de refugiados, clamando a liberdade que os fez regressar ao Mali nos anos 90.

A situação no Mali tornou a degradar-se e o sucessor de “Tassili” foi gravado num deserto diferente do Sahara – no Joshua Tree National Park, nos Estados Unidos. “Emmaar” deixa perceber um pouco da melancolia da distância geográfica através duma sonoridade mais pesada que aquela do álbum anterior, onde se percebia mais celebração e optimismo. “Toumast Tincha” traduz-se por “As pessoas foram vendidas” e o baixista Eyadou ah Leche canta: «Os ideais das pessoas foram vendidos ao desbarato, meus amigos. Uma paz imposta pela força está condenada ao fracasso e dá azo ao ódio». A guitarra eléctrica arenosa e distante, assinatura da banda, ecoa a indignação pacífica disfarçada de resignação.

Uma andorinha não faz a Primavera. Uma andorinha não faz a paz, mas as canções foram sempre uma das grandes armas das revoluções. Essa é a visceralidade dos Tinariwen. Essa é a esperança do guitarrista Abdallah Ag Alhousseyni, com quem conversámos.

O vocalista/guitarrista Abdallah Ag Alhousseyni, dos Tinariwen.

O vocalista/guitarrista Abdallah Ag Alhousseyni, dos Tinariwen.

Depois de gravarem “Tassili” no vosso deserto [o Sahara], o que vos levou até a Joshua Tree, na Califórnia?

Gravámos aí por duas razões diferentes. Devido à actual situação política no nosso território era muito inseguro, para a banda e crew, gravar em “nossa casa”. Decidimo-nos por outro deserto pois necessitamos de sentir os elementos naturais (areia, vento, pedras)… Essa natureza e esse ambiente inspira-nos verdadeiramente. Sentimo-nos bem a gravar noutro deserto.

Assumindo essa importância decisiva do meio ambiente, quão diferentes se sentiram agora no processo de fazer “Emmaar”?

Foi diferente, claro. Primeiro até porque tivemos mais equipamento e material para gravar nos Estados Unidos! E enquanto permanecemos longe de casa pensámos continuamente na nossa gente – os Assouf. A nossa nostalgia acompanha-nos sempre. Mas, como disse, sentimo-nos bem só por estar num deserto, é este o nosso ambiente e inspiração. Se nos sentimos bem num sítio conseguimos a inspiração necessária.

Como foram surgindo, desta vez, os convidados que estão no disco?

Conhecemos o Josh Klinghoffer [Red Hot Chili Peppers], o Matt Sweeney, o Saul Williams e o Fats Kaplin nas nossas digressões anteriores. Tal como sucedeu com o Kyp [Malone] e o Tunde [Adebimpe], dos TV On The Radio, no nosso álbum “Tassili”, em Tessalit. Eles transmitiam-nos bons sentimentos e convidámo-los a tocar connosco no deserto californiano. Gostamos imenso de partilhar a nossa música, de fazer jams com outros músicos, de outras culturas. São experiências muito inspiradoras.

Especialmente em “Tassili” tiveram uma aproximação mais acústica às canções. Agora a guitarra eléctrica volta a estar mais presente. O que motivou este regresso a um som mais eléctrico?

Queríamos conseguir o som mais áspero de guitarra que tínhamos no início, por exemplo no nosso primeiro álbum, “Radio Tisdas”. Gravámos em take directo, na mesma sala, para conseguir sentir a interligação entre todos, entre as palavras e a música, com os elementos naturais. Desejávamos sentir o som orgânico dos nossos inícios. Em “Tassili” a intenção era deixar de lado as guitarras eléctricas e buscar a essência da nossa música, essencialmente acústica.

A música fala a todos e queremos usá-la como forma de comunicar sobre a nossa gente e conseguirmos que seja uma fonte de inspiração para o respeito dos direitos e liberdade do nosso povo.

O deserto de Joshua Tree tornou-se emblemático para um músico como Josh Homme e os Queens Of The Stone Age, por exemplo. Continuam a ouvir bandas de blues e rock como faziam na vossa juventude? Que bandas admiram nos dias de hoje?

Eu gosto, particularmente, do blues Americano e do country, ainda que nem sempre consiga identificar os músicos que escuto e aprecio. Na verdade, não conheço os Queens Of The Stone Age. Tenho ouvido imensa música tradicional touareg e poesia da Mauritânia, Niger. Os outros membros, especialmente os mais novos passam a vida a ouvir Jimi Hendrix, Led Zeppelin e outros artistas dos anos 70 que descobrimos há largos anos…

Funcionas muito como a outra metade do Ibrahim [Ag Alhabib], desenvolvem metodicamente as linhas de guitarra de um e outro?

A nossa música é sempre bastante natural. A forma como escrevemos é fazer jam sobre uma ideia que algum de nós traga, com cada um dos outros a adicionar as suas próprias camadas.

E usam alguma mais afinação mais incomum ou é tudo normal?

Usamos afinações normais. Por vezes fazemos drop para D [Ré] ou utilizamos um capo. Nada mais.

O público dos Tinariwen continua a crescer cada vez mais e por todo o mundo. Como encaram a possibilidade de mostrar a vossa música e cultura a cada vez mais gente?

Para nós, é essencial espalhar pelo mundo a nossa mensagem, sobre a nossa gente que continua a sofrer no seu lar. A nossa esperança é, brevemente, poder tocar para a nossa gente, no nosso lar.

Quão influente pode ser a música actuando como um agente político?

A música fala a todos e queremos usá-la como forma de comunicar sobre a nossa gente e conseguirmos que seja uma fonte de inspiração para o respeito dos direitos e liberdade do nosso povo.

Ouve em baixo “Emmaar”.